domingo, outubro 25, 2009

Triunfo do inÚTIL...

Esplêndido o relâmpago e voo das aves
E o estertor do grito nos abismos do silêncio
E as impolutas neves e os fundos vales.
E as máquinas modernistas celebradas em poema.
- Meteóricas claridades!...

(E também o senhor Álvaro de Campos, engenheiro...)

Gloriosos são os tempos sem memória
E o gesto puro que se esgota no nada que é tudo..
E a altivez das estrelas em seu gelo derramado
Na profusão de brilho sem mistério...

Dor mater dos medos na inocência das crianças
Virginal o pudor dos passos que se abrem.
E a espera das amoras antes de acontecerem.
E as palavras escavadas. E o fogo das rochas.
E a líquida emoção das horas suspensas nesse enredo...

Gloriosas são as águas no ventre das montanhas.
E as viagens dos barcos. Soberbos os guindastes.
E o camartelo arrancando chispas nas margens do futuro...
Glorioso o pão e vinho. E as máquinas. E a opulência das estátuas.
E a febre dos archotes rangendo fúrias...

(in)Úteis Odes Triunfais. Minervas sem alma.
Gares e os cais. Desertos. Que não sendo certo
São toda a gente em toda a parte embora!...

13 comentários:

Mel de Carvalho disse...

Nunca haverá inutilidade na leitura do que escreve.Em tudo a qualidade, a iluminura, o verbo acerto.

Fraterno abraço
Mel

maria m. disse...

fabuloso poema!

(mal comecei a ler, pensei em Álvaro de Campos, pela referência às máquinas, ao modernismo.)

abraço :)

jrd disse...

Num poema mais do que útil.
Abraços

Maria disse...

Soberbo!

Beijos

Fragmentos Culturais disse...

... como se sente o 'pulsar' de Pessoa/Álvaro de Campos, em teus versos!
Intenso, descrente, desiludido!? Belo! Um jogo de tropos e imagens, palavras 'escavadas' na paisagem do real!

'E a altivez das estrelas em seu gelo derramado
Na profusão de brilho sem mistério...'

Um beijo afectuoso,

Pelo olhar sempre presente, apesar da minha 'ausência', muito sensibilizada!

Popper disse...

Gostei. Um abração, kamarada. E já agora uma visitinha ao meu condomínio.

vida de vidro disse...

Um extremamente útil poema, na medida em que o "nada que é tudo" nos preenche de beleza. À volta de Álvaro de Campos, construiste a tua habitual qualidade poética. **

MagyMay disse...

O belo é útil... o belo triunfa.
Bela a tua poesia.

Beijo grande

Demóstenes disse...

Excelsa homenagem ao heterónimo.

jawaa disse...

Tenho estado meio ausente destas lides, mas chegar aqui e encontrar-te assim, é um prazer maior!

Obrigada por me teres lembrado Armando Silva Carvalho de quem ainda não li o livro que lhe mereceu o prémio APE, mas está na calha. Como outros, só o meu tempo anda sem tempo, eheh!
Abraço

Arabica disse...

Forte.De um dramatismo e lirismo marcante. Gostei.
Bom fim de semana,
abraço

Licínia Quitério disse...

Uma ode soberba a esta inÚTIL Humanidade.
Poema de um esplêndido fôlego. Com a tua marca inequívoca.

Um beijo.

M. disse...

Gostei muito.