quarta-feira, janeiro 06, 2010

Pequeno conto de Natal...

Gosto de gente! Por vezes próxima, respirando ao mesmo ritmo!.. Outras (quase sempre) apenas momentos, riscos de acaso, meteoritos intensos na solidão da cidade. Uma viagem de autocarro (ou de metro) é sempre uma revelação inesperada. Pequenos nadas que nos perseguem (momentos, horas, dias?) e que exigem que os soltemos, de tão intensos...

Gosto de gente anónima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!...

Por vezes, a cor desânimo, toma o sangue. O cepticismo cria raízes e uma ironia triste ocupa o espaço da esperança. Porém, do meio da multidão, surge tantas vezes, sem nos darmos conta, uma imagem, o resto de uma carícia, uma ternura, uma beleza inesperada que humaniza e reconforta. Que nem sempre estamos disponíveis para ver e que, outras vezes, guardamos como refrigério de alma...

Falo-vos da minha última viagem de autocarro entre o Rossio e o Cais de Sodré! Na curta distância, cenas dignas de um pintor impressionista - o melhor e o pior de um Povo concentrado no escasso espaço de um autocarro, à hora de ponta. Nada que seja diferente de outras viagens! Até que...

... Uma jovem mãe, de rosto trigueiro e olhar apaziguado, entrou, aconchegando no colo uma criança de escassos meses. Sozinha, face as intempéries e os balanços da vida, ali bem simbolizados nos apertos e balanços do autocarro. Um jovem, de brinco na orelha e crista de galo loira, cede-lhe o lugar (no meu íntimo, um sorriso freak!)

Acomodou-se a "minha" jovem Madalena (era, de certo, este o seu nome!) com o bebé nos braços, sereno que nem um anjo. E alheia a tudo que não fosse a sua novel maternidade, a jovem soltou o seio da blusa (mármore puro) e a boca da criança, em esplendor, buscou afoita o mamilo, assim exposto em dávida!

Vi então olhares brilhantes nos rostos cansados dos transeuntes. Vi ternuras caladas e inesperados silêncios. Vi orações pagãs em cada sorriso!..

E, a minha alma cansada e ateia, entoou então um cântico de vida - "Glória in excelsis Deo!..."

20 comentários:

Maria P. disse...

Que dizer?!...Magnífico!

Beijos*

Maria disse...

Comoveste-me...
Lindo o quadro que descreves, sensibilidade a sair-te do olhar...

Beijos

Mel de Carvalho disse...

"Glória in excelsis Deo!..."

em uníssono, canto. Divina a maternidade, e o canto que se eleva em sua glória.

Bem-haja
Em dias de Reis, um abraço fraterno

Mel

maré disse...

às vezes, é tão pouco o que nos faz re.acender a esperança.

_____

obrigado, também gostei muito

batista disse...

...

grato, de coração.

Marta disse...

mil sorrisos :)

Graça Pires disse...

Um conto comovente, amigo. Percebo quando dizes: "Gosto de gente anónima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!... "
Obrigada e um beijo.

lino disse...

Bela viagem de autocarro! Há momentos simples que apagam dias de pesadelo.
Abraço

Maria Clarinda disse...

(...)Vi então olhares brilhantes nos rostos cansados dos transeuntes. Vi ternuras caladas e inesperados silêncios. Vi orações pagãs em cada sorriso!..

E como eu gostei deste teu post e das tuas palavras.Jhs

Dauri Batisti disse...

os pastores e os viajantes.
a mãe e â criança,
o seio e o mundo. O natal
atualizado, parabéns.

Frioleiras disse...

tão bonito.... heretico !!!

(sensações que imensas vezes tenho e observo pois ando mt de autocarro e todo esse 'melting-pot' são evidências .... de Deus..)

casa de passe disse...

Ando muito derrotista e encontro-me sempre a pensar:

O QUE SERÁ ESTA CRIANÇA QUANDO CRESCER ?

COMO SERÁ A VIDA QUANDO CHEGAR À IDADE ADULTA ?

CHEGARÁ ?

PARA QUÊ ?

HOJE EM DIA ENCONTRO POUCA ESPERANÇA EM TUDO, ATÉ NO ROSTO TRANQUILO DAS CRIANÇAS.


Alice

~pi disse...

natal, sim,

por aí.

[ precisamente :)




beijo



~

MagyMay disse...

ai como te entendo ... ai como eu gosto de GENTE!!!
...e sabes que me apetece dizer, perante o sugar do mamilo?
... "Aleluia, nasceu o menino!!!!"

Mil abraços

Peter disse...

"Gosto de gente anónima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!..."

É isso que eu encontro nos transportes colectivos onde me desloco e que sempre utilizei na minha vida profissional aqui em Lisboa, utilizando o "passe social" que compro mensalmente.

Vieira Calado disse...

Sabe onde eu gosto de estar entre gente mais ou menos anónima?

Num bar... de copo na mão!

Sinto-me bem.

Um forte abraço.

jrd disse...

Belo texto para tão curta viagem. A carris pode fazer milagres...
Um abraço

Arabica disse...

Gostei imenso de te ler.
De facto, eu, uma utilizadora diária de transportes, não trocaria esse pulsar, esse vivenciar que nos é permitido pelo ostracismo de um carro, nestas viagens de cidade.

Um abraço.

Licínia Quitério disse...

Um pequeno grande conto. A grandeza dos pequenos gestos que brotam da multidão anónima com que nos cruzamos e que nos dão um sorriso de alguma esperança no futuro dos homens.

Um abraço. Comovido.

Oliver Pickwick disse...

Certas circunstâncias estão acima do bem, do mal, da religião, da política. Portanto, não me surpreende nem um pouco que, nesses momentos, um herético entoe: "Glória in excelsis Deo!..." O próprio Tomás de Torquemada o livraria da purificação da fogueira santa.
Este é um verdadeiro conto que clama pela reflexão. Gostei muito!
Um abraço!