segunda-feira, junho 11, 2012

O Providencial Homem de Massamá...


Manifestamente Passos Coelho anda deslumbrado. Não apenas porque o País deixou de estar “à beira do abismo”, pois que, sob a sua batuta, está a dar os fatídicos “dois passos em frente”, mas porque, embebecido, descobre agora, face à austeridade, “a extrema paciência dos portugueses”.

Como se sabe, as palavras do primeiro-ministro têm sido glosadas em diversos tons. Até um distinto clérigo, bispo da Igreja Católica, despiu seu discurso do peso das sedas e cambraias e, sem papas na língua, como que expulsando os “vendilhões do templo”, sugeriu aos portugueses para saírem à rua, não para fazerem desacatos, mas para afirmarem seu protesto.

No dizer do eminente dignatário da Igreja Católica, as considerações do primeiro-ministro lhe fazem lembrar os tempos do fascismo. E, expressivamente, assinalou que o discurso daquele “senhor que pelos vistos ocupa as funções de primeiro-ministro” lhe parecia ouvir “o discurso de uma certa pessoa, há cinquenta anos”, numa óbvia aproximação das palavras de Passos Coelho ao discurso oficial do salazarismo sobre a “mansidão” do Povo português e dos “safanões a tempo”, presume-se...

Houve logo quem quisesse cruxificar o clérigo, e – ai Jesus! – que Passos Coelho tem legitimidade democrática e o bispo não tem credibilidade política!...

Como se o problema fosse a “equipação de legitimidades”, entre ditadura e democracia, e não outro bem mais subtil, mas nem por isso menos determinante, ou seja, a equipação do “discurso”, quer dizer, da “ideologia” que, vinda do passado, ainda se mantém viva (e ao que parece actuante) no pensamento (político) do actual primeiro-ministro.

Como miasmas que inquinam a corrente da história...

Do alto do seu discurso do “Dia de Portugal”, o Presidente da República, num óbvio puxão de orelhas ao primeiro-ministro, pretende emendar o tiro. E, naquilo que Passos Coelho vê um povo paciente e resignado, Cavaco Silva encontra a “sabedoria” do (bom povo) português.

Seja como for, quer o “homem de Massamá”, quer o “homem de Boliqueime”, são expressão da mesma pulsão ideológica, em que o povo, qualificado de “paciente” ou “sábio”, é desligado da condição de obreiro da sua própria história.

O povo é, neste contexto, “mitificado” como corpo social ideal, onde se projectam apenas os “efeitos da política”, mas cujos desígnios lhe são alienados, ficando permanentemente reservados a uma restrita casta de “eleitos”.

Como se sabe, foram as concepções doutrinárias do fascismo que estabeleceram este “desdobramento” da política. Por um lado, mitificando o Povo inorgânico e afastando-o da participação política e, por outro lado, erguendo os líderes como os “autênticos intérpretes da vontade colectiva”.

Logo os consagrados (e exclusivos) intérpretes da acção política...

Dir-me-ão que, em democracia, as eleições determinam a formação de maiorias e a formação dos governos. Sem dúvida. Nem estas linhas pretendem sugerir qualquer iminente “regresso ao passado”.

Digo apenas, louvando-me nas palavras do ilustre dignatário da Igreja, que o discurso político dominante, a permanente “mitificação” do povo, enquanto lhe arrancam coiro e cabelo e uma certa cultura de casta, a quem tudo é permitido, remetem indiscutivelmente para a matriz cultural e ideológica do salazarismo.

Como escreveu Augusto da Costa Dias, noutro contexto: “O passado sofre a mesma degradação a que se submeteu o quotidiano presente. Desvendou, sob as fraldas da “aparência”, o maravilhoso oculto. E, mais fácil de mistificar, mais atraente no seu vago impreciso (...) hipertrofia-se como categoria ideológica e acaba por sobrepor-se ao presente".

Não desarmemos, pois, perante a luta.

E, assim, saibamos destruir o “ovo da serpente”...






 






  






[1] - Augusto da Costa Dias – in “Crise da Consciência Pequeno-Burguesa – Os Vivos e os Mortos

Editora Arcádia.

8 comentários:

Rogério Pereira disse...

Dia 16 estou perante um dilema... Terei que mandar uma moeda ao ar.

Entre a manifestação e a reafirmação de seareiro, vejamos o que me acontece...

Parece um despropósito, depois do teu excelente texto, mas não me ocorre outra coisa.

Lídia Borges disse...

É uma crónica que prima pela lucidez.

Detive-me aqui:

"Como se sabe, foram as concepções doutrinárias do fascismo que estabeleceram este “desdobramento” da política. Por um lado, mitificando o Povo inorgânico e afastando-o da participação política e, por outro lado, erguendo os líderes como os “autênticos intérpretes da vontade colectiva”.

Pois é!

L.B.

jrd disse...

Também no tempo do providencial homem de Santa Comba, um Bispo se atreveu a denunciar a situação. Coincidências...
Quanto ao par que agora zela por nós, a "coisa" vê-se:

http://bonstemposhein-jrd.blogspot.pt/2011/12/o-cidadao-xxxvii.html

Abraço

São disse...

Espero que a acidez provocada pelo brilhante discuso de António Nóvoa( tenho-o no "são"), tenha aberto algum buraco naqueles obtusos crânios e assim se faça luz!

Tem bom dia

folha seca disse...

Caro heretico
Li e reli o seu excelente post. Faço-o sempre em quase tudo. No caso da bloga também é para encontrar alguma achega para comentar, mas nem um virgula me deixou para acrescentar.
Pronto mais uma vez, Subscrevo.
Abraço
Rodrigo

Carlos Ramos disse...

Sejamos pois uma inumera minoria.

Abraço

jorge esteves disse...

As referências são três: o de Massamá, o de Boliqueime e o do Clero (do último fica assim dito, que não sei da terra que lhe deu nota).
Mas, cantava a Amália, os telhados de vidro é coisa que, fatalmente, os une. A estes e a tantos outros que enxameiam as vielas (sempre) obscuras do Paço.
Há muitos séculos que é assim!
abraço.

VÉU DE MAYA disse...

Não poderia estar mais de acordo. Que o povo colha a lição...E quem exerce o poder o faça pró povo...pois sem País livre e responsável para que queremos a política. Excelente a tua abordagem.

Abraço,

Véu de Maya