domingo, janeiro 13, 2013

DOZE DIAS O VALOR DE UMA VIDA DE TRABALHO?

 
Anuncia-nos o Expresso (12 de Janeiro) a toda a largura da página, que a “concertação social está por um fio”. E que o líder da UGT, rasgando as vestes e cobrindo o rosto de cinza, que não de vergonha, se vira para “os dirigentes europeus” para salvar o acordo que subscreveu com o governo e representantes patronais.
 
Serão, pois, segundo o esclarecido semanário, o senhor Durão Barroso e a senhora Lagarde – alegrem-se criaturas! – a decidirem o magno dossier das indemnizações por despedimento, que o Governo português pretende reduzir a doze dias de trabalho, como limite máximo.
 
Não ocorrem ao iluminado jornal duas ou três verdades elementares. De facto, bem poderá o líder da UGT chorar baba e ranho (passe o plebeísmo) pelo “seu” acordo de concertação social que, sejam quais forem as promessas, as angústias existenciais do senhor Proença não irão alterar a realidade. Quer o senhor Barroso, quer a senhora Lagarde, ocupam as destacadas funções internacionais que ocupam, não para defenderem os interesses dos trabalhadores portugueses, mas sim para a articulação dos interesses financeiros que servem.
 
Estamos, por isso, conversados. Imagina-se, porém, a cena – umas palavras simpáticas e umas suaves pancadinhas nas costas do senhor Proença e passemos adiante, ficando o líder da UGT a chuchar pelo dedo, saboreando coisa nenhuma, mas sem dúvida impante de auto-satisfação pelo “poderoso” contributo para a causa da “defesa dos trabalhadores portugueses”.
 
Enfim, uma vergonha... O conflito em causa diz respeito aos cidadãos e às instituições portuguesas e, que se saiba, nem Durão Barroso, nem a senhora Lagarde têm legitimidade para decidirem sobre os assuntos nacionais, ainda que subservientemente solicitados. Mas para o líder da UGT, não. Em vez de mobilizar os trabalhadores e sair para a rua em protesto vai fazer queixinhas a Bruxelas.
 
É o que se chama sindicalismo da treta, perdão, sindicalismo de alcatifa...
 
E é falacioso dizer-se que as iniciativas legislativas do governo para reduzir o montante máximo das indemnizações por despedimento, decorrem do “memorando” da tróica, ao qual o senhor Proença dá os seus améns. A verdade é que o documento (ponto 4.4) estabelece singelamente a imposição de “alinhar o nível das indemnizações ao que prevaleça, em média, na União Europeia”. Sem mais...
 
Em momento algum a “média europeia” pela qual as indemnizações em Portugal deverão “alinhar” vem referida em tempo de trabalho prestado.
 
Não se percebe por isso o afã do Governo e o fica pé em “doze dias de trabalho” como limite máximo das indemnizações. Porquê doze dias de trabalho e não fixar o limite das indemnizações pelo valor médio do montante das indemnizações no espaço comunitário? Nem por isso o alinhamento pela média europeia deixaria de ser respeitado, conforme o memorando...
 
Mas não. As nossas luminárias assentam baterias contra a dignidade do trabalho e assumem indemnizações de miséria, ou seja, definidas por dias de trabalho, bem se sabendo que os baixos salários em Portugal fixarão o valor das indemnizações em níveis bem inferiores à média europeia.
 
Temos portanto, como regra, vínculos de trabalho precários, despedimentos mais fáceis e indemnizações a pataco, quer dizer, com diminuição radical do seu valor actual.
 
E o que mais adiante se verá, se a luta dos trabalhadores o consentir, pois já há quem se perfile, como o senhor Ferraz da Costa, presidente do denominado Fórum da Competitividade, defendendo as indemnizações devem acabar.
 
E neste enredo andamos. Entre o fundamentalismo ideológico do Governo e o (des)concerto do senhor Proença.
 
Sob a batuta da sacrossanta competitividade, pois claro!...
 
Aonde nos levarão, se os deixarmos?
 
 

7 comentários:

Rogério Pereira disse...

Repito-te o título:

DOZE DIAS, O VALOR DE UMA VIDA DE TRABALHO...

jrd disse...

O Proença foi um vendilhão e agora quer fazer o acto de contrição.
Esta gentalha está toda "concertada"...

Abraço

Maria João Brito de Sousa disse...

... direitinhos à mais profunda e inimaginável das misérias. É para lá que nos empurram... se os deixarmos.

O meu abraço!

quem és, que fazes aqui? disse...


Sinceramente, nunca imaginei nada de semelhante. Estou preparada para abrir o mail e ter uma comunicação lacónica de que cesso funções. Mas também estou preparada para a luta, seja ela de que tipo for. Já nada me assusta, porque quem vive o pesadelo, consegue enfrentá-lo.

Beijo

Laura

maceta disse...

Esse sr calvo devia fazer já as malas, visto que está de saída; de facto, o homem não procurou um entendimento com quem deve e a quem deve... um vendido.

lino disse...

Isso, se os deixarmos!
Abraço

Nilson Barcelli disse...

Ladroagem organizada, da mesma estirpe do BPN, é do que se trata...
Excelente artigo de opinião.
Um abraço.