domingo, março 23, 2014

QUEM A TAL DESTINO SE ATREVE....


Quem da montanha guarda os percursos
Que os deuses trilham em sinfónica incandescência
E de tão voláteis se despenham
Na lonjura sem outra vibração ou rasto
Que os detenha...

Quem dessa memória suspensa
O fio dos dias enfeita
E se consome como água
Através da seiva...

E se mistura
Na crisálida como seda ainda pontiaguda
Bicho alado na babugem e na tensão antecipada dos afagos
Ou no registo solene dos baptismos...

Quem a palavra celebra
Como matriz de todos os nomes
E de todos apenas retém a inconformada espera
E a inominada ardência
Que ilumina todas as dores e a surpresa...

Quem a tal destino se atreve

Abre o peito ao pulsar dos dias
E no debruar das horas ainda cinza
Sopra o inquieto fogo que incendeia a sarça
E se consome na miragem como dunas ao vento
Ou sorriso de escravo antes das grilhetas.

Manuel Veiga

 

 

17 comentários:

Baila sem peso disse...

"Quem a tal destino se atreve"...

é forte, é vibrante, é como brisa
que se entrega como o tempo breve
e que desliza perfumando os dias
não importando, bastando
ser louco, nas suas poesias! :)

interessante, amigo Manuel
gostei!

beijo e boa noite

jrd disse...

Quando o fogo reacender as grilhetas hão-de derreter.

Abraço Poeta

Mar Arável disse...

Poeta amigo
tu sabes que não há destinos
mesmo que te atrevas
a recriá-los

Abraço sempre

Ana Tapadas disse...

É um poema vibrante, ave que romperá as grilhetas! Obrigação do poeta é a palavra.

Beijo

© Piedade Araújo Sol disse...

sorrisos
por vezes podem romper as grilhetas
improvável
mas não impossível...

:)

Graça Pires disse...

Celebrar a palavra. Soprar o fogo mais inquieto. Atrever-se sem grilhetas... Isto e muito mais neste poema intensamente sentido e excelente.
Um beijo, amigo.

Laços e Rendas de Nós disse...


Quem?

Beijinho

(gostei muito)

Maria do Sol disse...

Mesmo acorrentados, continuamos a sorrir...valha-nos isso.

Abraço

Anónimo disse...

Como dizia em outro lugar, chega Abril e a gente,
inquieta um pássaro, um sorriso, no fundo de nós.
Abç da bettips

Rogerio G. V. Pereira disse...

Atrevidos são os poetas
os poetas e nós

e não estaremos sós

Graça Sampaio disse...

Muito bom! Muito bonito! Isto sim é celebrar a palavra. E a Poesia.

Beijinhos poéticos.

Sónia M. disse...

Não lhe chamaria destino, mas sim caminho (há apenas um)...quem se atreverá a percorrê-lo?...

Por aqui o poeta celebra a palavra de uma forma intensa. Excelente, este poema.

Beijos

maceta disse...

secretos são os pensamentos de um poeta...às vezes indecifráveis.

Helena disse...

"...E se consome na miragem como dunas ao vento
Ou sorriso de escravo antes das grilhetas."

Quem a tal destino se atreve? Somente quem tem a alma liberta... como os escravos, como os poetas!

Deixo-te um sorriso brincando numa estrela, com meu apreço e admiração.
Helena

ॐ Shirley ॐ disse...

Somos seres viventes e, como o fogo, nos deixamos consumir nas dunas ao vento...
Estive várias vezes aqui, heretico, e não consegui abrir a página dos comentários. Ainda bem que as coisas ruins não duram para sempre.
Amigo, beijos!

lis disse...

'Celebrar a palavra' mesmo que o que tem a fazer é não a declarar já dizia Exupèry,
_ como na linda poesia ela resvala por labirintos aproxima afasta encontra-se perde-se - o destino que 'se atreve': ou nós mesmos fazendo escolhas ?
parabéns poetinha
seu poetizar é sempre um pulsar de coração.
com abraços

Pérola disse...

Poucos se atrevem...

beijo