sábado, junho 14, 2014

FRÉMITO MUDO...


No íntimo mais profundo do silêncio
Onde a distância e o espaço são os impossíveis dedos
E o tempo é a demora do olhar sobre a tela nua
Gesto inaugural apenas...

E o artista esconde a alma na matizada cor
Onde o desejo – corpo delito - se despenha
Como pétala uma a uma tombada da paleta
E vermelho e a sombra se misturam
Em dúvida antes da glória (ou da graça invocada)

Na indizível voz do poeta onde a sílaba é palato e língua
E se desprende como beijo de água a arder na boca
E se ilumina na forma pura
E o trama se macula sem saber se cor
Se morfema.

Nesse ínfimo núcleo a arder – tudo ou nada!
Onde a palavra emerge. Cúmplice.
E se ergue impoluta
E o poema se agita
Acorrentado.

Solta-se um frémito mudo
Como culto. E cume.
Ou voo de Sísifo
Rasando o lume...

(Não há musgo - macio que seja -
Que quebre o fogo no interior da pedra...)

Manuel Veiga

 

12 comentários:

Pérola disse...

A palavra e o sentir do poeta em harmonia melodiosa.
Qual frémito mudo e fogo que arrepia.

Beijinhos

Graça Sampaio disse...

«Da criação poética» - que bem mostra a força,a dureza, a dor, e por fim o nascimento do poema. E as palavras sempre muito bem escolhidas (repito-me sempre, mas é verdade...)

(Obrigada por passar a ser «meu» seguidor - nem sei se mereço...)

Beijos poéticos

ॐ Shirley ॐ disse...

Diante da tela nua, o artista arde em chamas e cores, quando o poder da palavra se solta num frêmito mudo e ao passar pelo fogo, transmuta-se em impetuoso poema...
Beijos, heretico, gostei muito!

Graça Pires disse...

"Onde a palavra emerge. Cúmplice" há um punhal de fogo a rasgar o interior da pedra e a escrever o musgo na água dos olhos...
Um beijo, meu amigo

jrd disse...

Que importa acorrentado, se o poema se desprende num frémito mudo.

Abraço fraterno

Sónia M. disse...

Sempre bem, sempre tão bom de ler.

Deixo um beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

já li e reli este poema.

queria achar defeitos, mas é perfeito.

acho que um dos melhores que já li, do Manel.

um beijo

:)

© Piedade Araújo Sol disse...

já li e reli este poema.

queria achar defeitos, mas é perfeito.

acho que um dos melhores que já li, do Manel.

um beijo

:)

Ana Tapadas disse...

Já lera este poema sem tempo para comentar (exames e afins)...é de uma verticalidade mágica. Sísifo, símbolo perfeito nos dias que correm...

Beijo

Genny Xavier disse...

Meu querido,

Seus versos metalinguísticos trouxeram uma silente reflexão à minha alma poética...
Como sempre, resta-me sorver o néctar das suas palavras.

Beijo.
Genny

Maria João Brito de Sousa disse...

Uma vénia! E outra, e outra, e outra...

Há, sem dúvida, um imenso mar dentro de nós!

O meu abraço!

Mel de Carvalho disse...

Ler o que escreve é sempre um momento alto.

( encomendei o seu livro â editora, e, só não o tenho porque no dia combinado para a entrega em mão, a minha saúde não me permitiu honrar o meu compromisso, estando presente. Mas brevemente, via ctt, o seu Poemas Cativos chegar-me-á, finalmente. Embora tardiamente, os meus sinceros parabéns pelo mesmo. Impunha-se face à qualidade da sua obra.)

Fraterno abraço