quarta-feira, novembro 26, 2014

SUBTIS INCANDESCÊNCIAS...


Sob a dominância dos escombros e dos dias gelados
Tacteiam os dedos a fina película dos muros
Em que a metamorfose da cal se desvanece
Como palavras gastas ou fomes caladas
Sem reverso...

Profusão de sombras por onde sobem nossas dores
Como larvas tecendo o casulo e a teia
Na amargura dos dias
E no degredo das paisagens.

Clarins sorvendo a alvura do silêncio
E sem mais restar que o sopro
E a inversão meteórica das vozes em polifónicos
Cânticos calcinados...

Nada sugere outra luz ou outra vibração
Que não seja o lusco-fusco e a palidez dos dias saturninos
Ou auroras de frio...

E no entanto o grito sufocado dos dedos
E os lábios gretados balbuciam inesperadas correntes
E águas soltas e margens extravasando percursos
Percorridos.

Subtis incandescências no topo das montanhas
Ou o delírio de pássaros talvez
A balancear o voo...


Manuel Veiga

8 comentários:

Lídia Borges disse...


No inverso dos dias tempestuosos haja o grito, o delírio dos pássaros ou qualquer outra coisa que quebre as paredes surdas da noite.

Bj.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Quando ouvi isto dito
Acho que te vi com olhos de espanto

Poema-clarim
sorvendo a alvura do silêncio

Mar Arável disse...

Salvem-se os pássaros

no cante Alentejano

Sónia M. disse...

Que belo momento de poesia...
Excelente!

Beijo

Helena disse...

Tão belo e tão profundo que só nos resta o sentir...

© Piedade Araújo Sol disse...

um poema alerta, com dores e sentires em cascata....

tão belo!

:)

jrd disse...

Fantástico! Os dias não escurecem quando o poema é um relâmpago.
Abraço meu Irmão Poeta

Carmem Grinheiro disse...

Simplesmente soberbo. Uma catadupa de emoções. Serão os pássaros a salvação que resta?

abç amg