sexta-feira, dezembro 12, 2014

FLAMEJANTES OS MASTROS...


Flamejantes os mastros. E as colinas.
Em nuas confluências
De abraços. E de pétalas...

Derramam-se na cidade rios e memórias.
E soltam-se os poetas. E os murais...

Em gesto largo sobre o gume dos olhares
Maiakóvski – vindo de um Futuro grisalho
De saudade e de tanta persistência! –
Abre-se no palco...

E grita em seu jeito gutural e bárbaro:
-“Este é o meu Povo. Ainda!...”

A seu lado, a Mulher de Vermelho
Solta a lágrima da fome
E a criança loira das espigas...

E
- Palavra de cristal em riste! -
Arranca os olhos e rasga-se em febre
E pitonisa inflama-se na língua e nos prenúncios  
E ergue-se na aurora dos dias que hão-de vir...

Na densa nuvem alvoroçada
A multidão ignara ri e chora...

E um velho caminheiro alquebrado -
De fadigas e da idade - sobe então ao mais alto dos mastros
E ascende em lume o rubro das bandeiras...


Manuel Veiga


9 comentários:

jrd disse...

Do alto dos (teus) mastros, veremos de novo o mundo e, como Maiakóvsky,"de ervas encheremos de novo o paraíso:uma palavra tua, -e esta mesma noite"
Grande poema!

Abraço fraterno

Mar Arável disse...

Na verdade

sempre nos mastros mais altos
Abraço amigo

Majo disse...

~ ~ Tardam os dias de Vitória a festejar com clamor de trombetas e flamejantes mastros... ~ ~

Ana Tapadas disse...

Que o grito inunde também as praças...

Beijo

Helena disse...

"Derramam-se na cidade rios e memórias/E soltam-se os poetas."
Para que possam continuar a subir "ao mais alto dos mastros" para ascender "em lume o rubro das bandeiras..."
Um poema magistral! Gritos que nunca se calam!

lis disse...

De janeiro a janeiro
... 'a multidão ignara ri e chora.'
_ e expectadores persistentes que somos ficamos a esperar que a lua entre na 7ª casa e alinhe com Marte... nesse jogo que se repete e se repete.
Com bandeiras tremulando!
Mais um poema à altura de Manuel Veiga.Gosto !
abraço e feliz domingo

Nilson Barcelli disse...

Gostei imenso da tua "palavra de cristal em riste".
Já há muito tempo que aqui não vinha (perdemo-nos), mas vejo que, por este post e pelos anteriores, continuas a fazer excelentes textos, sejam eles prosa ou poesia.
Tem um bom domingo e uma boa semana, caro amigo.
E um FELIZ NATAL.
Abraço.

Andrea Liette disse...

Maiakóvski está honrado neste poema retumbante.

Envio o meu predileto, que foi gravado por João Bosco:

E então que quereis?...

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?

O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

(1927,Maiakóvski )


Feliz Natal, grande poeta.

Graça Pires disse...

E o grito ressoa mais alto que os mastros, neste país propício a todas as tempestades...
Um belíssimo poema, meu amigo.
Um beijo e desejos de um bom Natal.