quinta-feira, dezembro 04, 2014

SÃO DE BRUMA OS TEMPOS...


São de bruma os tempos. E de barcos destroçados.
E gemidos que os escravos embandeiram
Como hinos...

São de bruma os tempos: apocalípticos...

Nas galés os cães devoram-se nos restos
E os sacerdotes queimam as vestes
E cobrem-se de cinzas
No interior das praças...

A cidade treme: são de bruma os tempos!...

No céu baralham-se as estrelas.
E as bússolas rasgam o norte no ventre das pedras
E na sede dos homens.

São de bruma os tempos!...

E nas inesperadas sarças
E no cume das montanhas
E no sol encoberto ainda desta aurora
E no vento de todas as profecias
E na insubmissão do grito
E ardor de todas as batalhas

E no azul das crianças famélicas e nuas
E na enxada de esperança
E nas torrentes da memória
E nesta safara...

São de bruma os tempos: ainda!

E planto a dor. E a bruma. E minha árvore – fio de água -
E minha palavra avara.
E celebro.
E rasgo.
E ilumino.

E proclamo da alvorada dos tempos
A fecunda claridade
Dos dias peregrinos.


Manuel Veiga


17 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não será de bruma a alvorada
proclamada

Ilumina, pois

jrd disse...

(Ainda) são de bruma os tempos, mas palavra-lâmina do poeta há-de rasgar a névoa e devolver-nos o horizonte.

Grande Poema Meu Irmão

Abraço-te com emoção

Graça Sampaio disse...

Infelizmente assim é...

lis disse...

Seu poema é como o poeta definiu _ é nevoeiro da manhã que retarda-nos em casa. Bonito Pulsante Desconcertante.
_'as brumas as sarças a insubmissão .
Faça-se silêncio_ para Manuel Veiga.
Parabéns.

Helena disse...

E quando a tua palavra se tornar pródiga e puderes celebrar, rasgar e iluminar... o tempo dissipará a bruma e restará somente a poesia no coração dos homens!

lis disse...

Oi heretico
'roubei' uma poesia sua e publiquei junto as minhas fotos .
Espero que não brigue comigo, rs
E por favor, exclua esse comentário.
É só uma observação ok?

© Piedade Araújo Sol disse...

assim é, mas os tempos estão sempre em mudança....

acabei de ler-te também no blogue da Lis

bom final de semana.
beijo
:)

Majo disse...

~ ~ Bruma densa, só para alguns... ~ ~
~ ~ ~

Mar Arável disse...

Falta atear um fósforo

no coração dos pássaros

Abraço fraterno

Carmem Grinheiro disse...

Ah, meu caro, vou lhe dizer: seus poemas, esses! nada têm de bruma. São palavras duma nitidez e força implacáveis. Soberbo.
Bradarei, mesmo que a voz me doa.
Bravo.

abç amg

O Puma disse...

Se fossem só brumas

o caminho estava aberto não
vejo nada mas tento

com a tua ajuda

O Puma disse...

A coisa não é fácil

nunca foi
Não vejo nada
mas com a tua ajuda
até as brumas são claras

Abraço

Graça Pires disse...

Neste cenário do nosso descontentamento
gostei do teu final: " E proclamo da alvorada dos tempos A fecunda claridade
Dos dias peregrinos." Assim seja, meu amigo.
Um beijo.

Olívia disse...

Já vou duvidando da circularidade do tempo. Tudo agora me parece linear, sem retorno.

"E proclamo da alvorada dos tempos
A fecunda claridade
Dos dias peregrinos"

É bom de ler!

Lídia

MARILENE disse...

Reli um de seus poemas no blog da Lis. Uma escolha dela que aplaudi.
A bruma permanece até que as consciências despertem e os próprios homens criem a sonhada alvorada. Há sempre esperança. Abraço.

jorge esteves disse...

Quais brumas, quais quês!...
A tua poesia é cristalina. E pura!
Encharquei-me com ela, Manuel!
Abraço.

G- Souto disse...

Reconheço que sim... 'são de bruma '! Mas no teu poetar, as palavras transparentes, e os conceitos peregrinos incessantes.

Beijo