sábado, fevereiro 21, 2015

SOU SOPRO DE BANDEIRA...


Sou o linho estendido sobre a pedra. (Como mesa...)
E o suor dos rostos em círculo. Como mito. Sei agora...
E o pão avaro.
E o rito das mãos de boca em boca
E as gargantas ressequidas.
Sou o vinho...

E sou a sombra. E a gota de água.
E a agitação do freixo. Sou a canícula e sou a raiva.
E a boina descaída sobre os olhos – basca.
E a precária sesta na aragem do dia.
Sou a ceifa...

Sou os tordos espantados de meus olhos.
E a voz do amo.
E o sol que já declina...

Sou os corpos debruçados sobre a terra
E o crepitar do caule e da espiga.
Sou o fio da revolta
Que não sabe ainda...

E neste horizonte de mágoa
Sou sopro de bandeira.
Sou esta linha quebrada que explode
E me incendeia...

Sou este signo vazio de tudo ou nada.
E o canto das cigarras que teima...

Manuel Veiga


19 comentários:

jrd disse...

Ser o povo que espera, não desespera, porque sabe que vai acontecer.

Abraço meu irmão poeta

Licínia Quitério disse...

Belíssimo, forte, épico.

Graça Sampaio disse...

O bom povo português - dos campos, da seara, dos Descobrimentos, do Império - o Quinto, de D. Sebastião redivivo...

ॐ Shirley ॐ disse...

Poema forte, contundente, belo...
Adorei!
Beijos!

Rogerio G. V. Pereira disse...

Sejamos sopro!

Majo disse...

~
~ ~ Assim, deveríamos todos ser. ~ ~

~ Demos as mãos numa longa cadeia. ~
~ ~

Mar Arável disse...

És como te vejo

Abraço amigo

CÉU disse...

Agradeço visita e comentário no meu blogue.
Ai, este senhor poeta é tudo e é todos, e é mesmo.
Poema de alto porte.

Bom domingo!

Graça Pires disse...

Ver tudo da cor dos olhos de quem é povo e poeta que resiste...
Belíssimo poema, meu amigo.
Um beijo.

Nilson Barcelli disse...

És tanta coisa...
Mas também és um grande poeta.
Este poema está ao nível dos melhores poetas portugueses. Parabéns pelo teu grande talento poético.
Bom domingo, caro amigo.
Abraço.

Lídia Borges disse...


O desassossego de um estar sempre alerta ao "horizonte", por ora, de "mágoa".

"[...]
O fervor prenhe de lonjura e de distância
E a palavra ousada nos lábios escarlates
Como a túnica...!
[...]

Momento(s)de poesia a não perder.

Bj.

lino disse...

Uma beleza de poema!
Abraço

Ana Tapadas disse...

Ainda bem que o és! O somos!
Ainda bem que há homens...Poetas assim!

Beijo

Andrea Liette disse...

O poeta que não escreve, mas é a poesia. Belíssimo. Um abraço.

Agostinho disse...

Um hino que se eleva
Deixai-me ser mastro
Colher o linho do lameiro

© Piedade Araújo Sol disse...

sopro de bandeira ou de um povo.

forte e seguro!

gostei!

:)

Teresa Durães disse...

belíssimo!

Teresa Durães disse...

belíssimo!

jorge esteves disse...

Quantas vezes 'cresci' depois de ser 'o tordo espantado dos meus olhos'...
Grande, Manuel!

jorge