quarta-feira, agosto 05, 2015

FRAGMENTOS VIII - Menina e Moça te Levaram ...



“Meu querido, como tu te comprazes neste mergulho no passado! Tu, Manuel, que sempre me cativaste com a tua urgência de, a cada momento, sorvermos o presente e me deixaste, lá atrás, ávida de ti, numa frequentadíssima livraria da Baixa, exposta a olhares públicos, dependurada de um beijo, suspensa de uma prova de amor, que de ti exigi, o capricho ou desafio de roubares ali, num golpe de magia, à vista de toda a gente, um livro para me ofereceres!”. E para quê? Para isto? Para te renderes, ao passado, prisioneiro, numa cena démodé de um ruralismo ultrapassado. Ou julgaste, porventura, o laureado Marcel Proust, quando não um inspirado Eça, mas olha que a tua amada Lia, não é nem um pálido assomo sequer da “piedosa” Amélia, nesta novela rural do crime do teu padre Francisco”.

Adivinho o fio da tua ironia, Maria Adelaide, que outra coisa não é senão teu jeito de sacudires lembranças, bem sabendo tu que nas minhas evocações se inscreve também o João, teu marido, ferida em ti fechada, mas não as marcas, também ele vinculado às memórias desse espaço, pois que ninguém pode sacudir dos ombros a cinza do tempo, nem o local que nos foi placenta, nem os passos que a vida nos reserva, sejam eles expressão de nossos sonhos mais cálidos ou grito de alma das mais agudas frustrações. A verdade é que o João, teu marido, sempre sonhou casar com mulher rica, como um dia, bons anos mais tarde, por mim irias saber, não sei bem se por doce malícia minha, na mira de desencadear a emoçãozinha de transgressão que te bailava nos olhos, sempre que, de teu marido, falávamos, se por livre curso de nossas conversas, quando, saciados, desvendávamos o íntimo de nós, ou então nos comprazíamos em deixar fluir o capricho de palavras e o percurso das carícias sobre os corpos nus.

Então, o João, nesse tempo de adolescência partilhada (e isto nunca até agora te revelei, talvez por pudor, talvez pelo desejo de preservar-te a mais desilusões) fazia a contabilidade minuciosa do “valor mínimo abstracto, seja lá isso o que for, que a noiva lhe deveria garantir para casarem, assim distribuído por rubricas, escatologicamente apresentadas: a) uns tantos contos de reis, correspondente à circunstância de ser homem, que, em sua máscula consideração, merecia por direito divino ou capricho da natureza; b) mais uns quantos contos de reis, por se tratar de sua augusta pessoa, rapaz fisicamente escorreito e comprovadamente apto a cumprir o sagrado dever da procriação; c) mais uma conta calada, não como valor de uso, mas como valor de troca, pelo curso superior, que se propunha alcançar.
                         
“Quem sai os seus não degenera” e, nisso o João, teu marido, não deixava seus créditos nas passadas de seu pai, o Zé Matreiro, como era conhecido, oriundo de um concelho vizinho, jogador da batota e cantador de fado por tudo que é arraial ou feira, sem nada de seu que não fosse sua desempenada figura e a poderosa lábia, que um dia decidiu assentar e, então, lançou arguto olhar de águia sobre as melhores herdeiras da região, tendo recaído a escolha na excelsa senhora, mãe do João e tua futura sogra, a mais nova de três irmãos órfãos, a mais velha dos quais, já entrada em idade e que nenhum favor devia à natureza, se consumia na administração do património da família, sem tempo, nem solicitação conhecida para se entregar a derriços, ou pensar em casamento e um irmão, o do meio, “apoucalhado” de juízo, que mais não contava que um rude criado e cuja simplória vida não ia além do cuidar dos animais e o amanho das terras, camisa lavada ao Domingo e, uma vez por outra, uma feira ou mercado, quando se tratava de vender algum vitelo ainda mamão, ou comprar uma nova junta de bois, acompanhando a irmã mais velha, a pé ele, irmão “apoucalhado” e ela, a irmã-patroa, a cavalgar poderosa égua.

De sorte que o Zé Matreiro, sabidamente, num único lance, apostou na carta certa e ganhou em triplicado, ou seja, tornou-se rei e senhor de todo o robusto património familiar, que não apenas do património da piedosa senhora que ele levou ao altar (ou terá sido o contrário?), extremosa mãe do João, meu amigo da adolescência e teu futuro marido.

Devo confessar-te que a minha amizade com o João, mais que por genuíno impulso, foi sempre ditada por força das circunstâncias, ambos o sabíamos, fazendo ambos das circunstâncias razão suficiente de convívio em férias, saltando, nos meses de Verão, de aldeia em aldeia, em busca de algum festivo arraial e outras folias, (ora vê lá tu quanta é a força das circunstâncias!...) que a circunstância, dizia, de frequentarmos ambos o Liceu, na capital do distrito, ele o João três anos mais velho, nos proporcionava manifesta vantagem do despique das preferências femininas e nos causava, com demasiada frequência, tal circunstância, (esta última) alguns incidentes de justa retaliação, quando o João, em sua arrogância, armado em “chico esperto”, ultrapassava os limites do decoro recomendável até mesmo em jovens “afogueados”, como então nós éramos. E quem acabava por ter que engolir essas “circunstâncias” todas e mais as que se perdiam, era eu, o mais novo e o mais franzino, sempre a perder, nessas sessões de pugilato e bordoada. Após as férias, cada um seguia para seu lado, no liceu, cada um no seu círculo de amigos e, mais tarde, na Universidade, onde passavam anos que mal nos víamos, sem, no entanto, desfazermos a cordialidade.

Se hoje te falo destas coisas, Maria Adelaide, e te levo a mergulhar no horizonte descarnado de outras horas, que se esfumam como sopro breve e que apenas permanecem enquanto as guardarmos no toque da vara do tempo, onde perpassa o fluir dos dias faustos ou, sendo infaustos, a cinza esvoaçante, se nessas memórias fluidas te evoco e evoco o perfume evanescente dos dias que foram, não é para me cobrir de gotículas do passado, ou de restos, e neles expiar minhas culpas ou saborear pequenas glórias, (nunca é demais assinalar que o “autor não existe”), nem sequer para evidenciar, na contraluz do cenário, a tua aparição sofisticada e o ambiente citadino em te moves, heroína volátil desta escrita e presença, mas para me fazer compreender, nesta sina de dizer, que há mais vida para além do tempo que nos consome.

E que as intersecções, as linhas e os filamentos em que as personagens se jogam e livremente se engendram na construção da narrativa, que, necessariamente, se requer literária, persiste um tempo outro, irreal, sem antes, nem depois, que se não fora o peso da palavra, diria “tempo mítico”, que outro tempo não é senão o tempo eu que te digo, no cortejo, a traço grosso, das figuras em que (me) invento.

E também para assinalar que para além do autor (se autor existisse) e para além de ti (se mais que personagem fosses) e para além dos leitores, personas reais que aqui venham, em desfastio, amizade, curiosidade ou outro qualquer legítimo interesse, nas dores do mundo e nos escassos momentos plenos, que por vezes, incautos nos visitam, nesta roda que se move sem por ela darmos conta, tão apressados ardemos, nesta engrenagem do Mundo de vencedores e vencidos, neste feérico Espectáculo que nos corrói por dentro, neste cenário opulento e frio, que a si próprio se desenha, sem razão aparente, um tempo longo e um discurso mudo se articulam e irrompem à superfície, por como drama ou tragédia, tantas vezes absurda comédia apenas, como se o Anjo da Historia apagasse finalmente toda a ideia de Futuro.

Mas, por enquanto, não. Aquele tempo, em suas dores colectivas e fecundas resistências, na clandestina resiliência de heróis sem nome, nem rosto, na ousadia de homens sem medo, aquele tempo era, como o ventre de Lia, um tempo em gestação, a subverter a ordem consagrada, como um acto de amor transgressivo, a fecundar a vida, em cada lanço.

Lia, grávida de esperanças e perdida de vergonha, calcorreando a via-sacra da expiação, primeiro, nos arredores do Porto, onde a caridade de uns afastados parentes a deixou parir, ignorada e clandestina e depois, mais longe, com o tenro rebento nos braços e o padre Francisco a tiracolo, cada vez mais roído pela tísica e pelo remorso, rumo a Angola, onde os irmãos os acolheram.

E tu, Maria Adelaide? De África de levaram, Menina e Moça, de casa de teus pais rumo à metrópole, entregue às madres Doroteias, em colégio interna, para te afeiçoarem a rebeldia e moldarem o carácter, como filha amada e temente Deus e, se assim for de sua vontade divina, um dia mulher feita, herdeira única de teu pai serás, para desafogo de teu lar e glória tua, esposa dedicada e mãe extremosa.

Voltaremos, então, a África, Maria Adelaide, onde tudo parece acabar e onde tudo se inicia.

Manuel Veiga

  


3 comentários:

Mar Arável disse...

Uma viagem pelos sentidos
memórias em espaço aberto
num piano a quatro mãos

Belo o teu próximo livro
Abraço amigo

Suzete Brainer disse...

Ah, poeta amigo, como gosto de correr os olhos
lentamente pela tua excelente narrativa e
admirar esta originalidade descritiva...

Aguardo mais, tenho fome de literatura desta
qualidade (tua); original, profunda e poética...
E sim, adoro o senso de humor, a ironia é essencial...
beijo.

Genny Xavier disse...

Há textos plenamente merecedores de uma cadeira que nos conforte para a melhor e mais prazerosa satisfação dos olhos que se concentram nas palavras...

Beijo.
Genny