quinta-feira, janeiro 21, 2016

GOTA A GOTA, O CALCÁRIO...


Gota a gota o calcário na persistência da água
Inaudível música a inundar o interior da pedra
Antes da forma...

O furor das catedrais são meus olhos
E as linhas que precedem a condensação das horas
Ainda fluídas...

E os invisíveis dedos no rosto das coisas
Que amadurecem na vibração das tempestades
Adormecidas...

Nada é eterno. Nem a voracidade das chamas.
Nem o colapso dos gelos. Nem a sedimentação dos dias.
Nem o esplendor de montanhas sagradas...

Apenas o vigor de cada forma em novas formas.
E a infinita permanência do Sol. E a precária vontade
Dos homens...

E o adejar do poeta derretendo as asas...

Manuel Veiga


10 comentários:

Majo disse...

~~~
~ ~ ~ ~ ~ «Nada é eterno.»

Acredito que o teu poemário possa ser.

Mas toma nota, Poeta, tal como Dédalo

peço-te que não te aproximes demasiado

do sol que aquece demasiado e até cega.

~~~~~~ Beijo, amigo Manuel.

Lídia Borges disse...


Nas entrelinhas, tanto que se lê!

Um beijo

Lídia

Jaime Portela disse...

As asas do poeta são mesmo para derreter.
De contrário, para quê adejar...?
Excelente, é a única coisa que me ocorre dizer depois de ter lido três vezes o poema.
Bom fim de semana, caro Veiga.
Abraço.

Suzete Brainer disse...

As vezes, penso na importância do olhar do Poeta
no registro das belezas da natureza e da vida.
Não que a beleza ritualística da natureza precisasse
deste registro, mas, mesmo assim, a poesia sublime e
magistral como a tua, se aproxima desta beleza com as
tintas das palavras no registro "gota a gota", palavra
a palavra, "do calcário", do Poema...
A tua poesia vai além, quando inscrita, ela eterniza
este teu momento do teu olhar, e, se estrutura em
palavra no paradoxo: quando "nada é eterno"
passa a Ser!...
Grata pelo privilégio de ler-te, sou fã da tua
poética, que em mim sempre se eterniza!...
beijo.

Mar Arável disse...

quando pássaro cai outro se levanta
Abraço sempre

Ana Tapadas disse...

Um poema belíssimo! Parabéns.

Beijo meu

© Piedade Araújo Sol disse...

Manel

há poemas que se entranham em mim,e que me ficam arquivados nos neurónios.
este poema e se não me falha a memória, foi um deles, eu já o li antes, talvez dois ou três anos por aí, e lembro-me que alem de me tocar profundamente, a última estrofe nunca me esqueceu.

"E o adejar do poeta derretendo as asas..."

belíssimo!

bom fim de semana.

beijo de admiração

:)

heretico disse...

é como dizes, Piedade.

o poema consta também do meu livrinho "POEMAS CATIVOS", editado pela POÉTICA EDIÇÕES.

boa memória (afectiva) a tua.

grato. beijo

AC disse...

Nesse derreter de asas leio a infinita persistência dos homens no ousar de novos horizontes...
Muito belo e profundo.

Forte abraço

luisa disse...

O poeta é persistente. Podem as asas derreter. Elas voltarão sempre a bater. :)