terça-feira, junho 28, 2016

UM CONTO FANTÁSTICO...


Caído o pano e apagadas as luzes, distendeu os músculos e ergueu-se da poltrona, onde gradualmente deixara as emoções da estreia, enquanto os ecos, aplausos e “encores” se esfumavam nas células nervosas, em ondas cada vez mais distantes.

Valera a pena! Não seriam necessárias as críticas nos jornais do dia seguinte para ter a certeza que o espectáculo fora um sucesso. Sabia, porém, que nas emoções do momento, naquela cartografia de sentimentos díspares, na osmose de sensibilidades em que durante meses se envolvera, secundária fora sua pessoa e pouco contara o seu tão proclamado talento: o apuramento de uma deixa, aqui ou ali, um acerto de luzes, um pormenor de guarda-roupa, uma leve correcção de marcação ou no registo de vozes, por vezes indispensáveis.

Porém, o teatro eram ELAS, essas duas mulheres sublimes, que por amor a elas, entrara naquele projecto, onde discretamente soubera imprimir a sua marca estética...

A ACTRIZ, vibrátil e intensa, transfigura-se no palco; e no nervo e no sangue de seu corpo, frágil e sensível, todas as culpas se redimem e todas as glórias, prazeres ou depravações mundanas, alcançam a beleza sublime do “Cântico dos Cânticos”...

A AUTORA coloca no coração da escrita a alegria fecunda da sua criatividade participativa, exposta e vulnerável, tantas vezes graciosa, onde flutuam, num jogo infinito de espelhos, heróis e vilões, sentimento calmos e funestas paixões...

Como não amar aquelas duas MULHERES? Por amor a elas, comete pequenas/grandes traições, como aquela de, na encenação da peça, alterar o “final feliz” de deixar a heroína banhada em lágrimas, coberto o corpo nu com um lençol, como se tálamo nupcial fora, ao arrepio do que o público (e autora) esperaria. Mas a verdade é que não admitiria outro final, mais púdico, pois não suportaria vê-la assim exposta nos braços de outro homem...

Ama as duas, com paixão e ternura. Receia deixar fluir, um qualquer dia, a sua loucura mansa e, com o pano caído sobre o palco, com elas ensaiar a peça única das suas vidas. Sem outro guião que não seja a expressão livre do Desejo e sem outros aplausos que não sejam a cumplicidade erótica à solta.

Depois do Teatro, a Ceia – Cena II

Possuído pela paixão, como se fora um veneno doce, que tolhe a consciência e despreza quaisquer outras emoções que não sejam o deleite de mergulhar nas suas ondas, o ENCENADOR, frente ao espelho, maquinalmente ajustou o smoking.
Olhou-se nos olhos e acendeu nos lábios o leve sorriso de ironia, que a si próprio dedica em ocasiões como aquela, em que sabendo-se embora senhor de si, não pode, contudo, deter os fios da corrente do destino e, por isso, o “sim” ou o “não” se jogam numa centelha de intuição, mais que num exercício deliberado de inteligência.

Não, não iria à faustosa ceia, que o MECENAS, no seu palacete recentemente restaurado, decidira organizar para seu gozo pessoal e em homenagem a toda a companhia. Claro que tinha boas razões para ir. ELAS lá estariam requestadas, soberbas de charme e inteligência, dominadoras nesse palco sofisticado de mundanidades e prazeres fugazes. Mas não iria...

Não lhe agradava, especialmente nessa noite de consagração, ter de sentir-se refém do seu talento, escutar cumprimentos, brandir sorrisos, responder às perguntas imbecis dos jornalistas “culturais”, que certamente estariam em peso. Mas, sobretudo, preferia evitar o espectáculo do sorriso predador do MECENAS, cobrindo de elogios e atenções aquelas duas mulheres, alfa e ómega de seus êxtases. Se havia algum sucesso a comemorar deveriam ser apenas os três: qualquer intromissão seria perturbar o divino sopro do equilíbrio perfeito...

Não iria, pois! Num gesto brusco desfez o laço e libertou-se do smoking, enquanto se dirigia para o seu recanto predilecto na biblioteca. O sangue, porém, continuava a latejar de inquietação. Bem sabia ele que o MECENAS as desejava tanto, quanto ele próprio. E que sua momentânea desistência seria pretexto suplementar para os “avanços” do adversário. Mas não contaria com ele naquele espectáculo de sedução. Ponto final!...

Sempre assim fora a estranha relação entre os dois...

Eram amigos desde sempre!... Oriundos, ambos, de uma certa aristocracia arruinada da província, percorreram meio século de vida, adivinhando-se nos caminhos, nem sempre dóceis, trilhados por um e por outro. Fora assim no liceu, na faculdade, mais tarde em Paris, partilhando estudos, gostos, aventuras e mulheres - como se vida de cada um fosse réplica da vida do outro. Melhor: como se, por um qualquer acidente do destino, a vida de cada um realizasse neles o mesmo percurso matricial!...

Apenas o rosto e a profissão os distinguia. E, evidentemente, a ostentação da riqueza material. O sucesso empresarial fizera do MECENAS um homem prodigiosamente rico...

Em vão, buscava o ENCENADOR, envolvido no turbilhão destes pensamentos, refrigério para o estado febril e para aguilhão do desejo que, em sua imaginação exacerbada, teimava em queimar-lhe a carne. Afastou, assim, com os dedos, as gotas de suor que, como orvalho matinal sobre pétalas, lhe ornavam a fronte e retirou da estante o LIVRO.

Sempre o mesmo livro quando, como agora, a alma delira e o corpo requer o calor de outro corpo. Abriu, assim, ao acaso, as páginas do “Fausto” de Goethe e soletrou, intimamente:

Fausto: -“Batem? Entre. Alguém me vem amofinar”.
Mefisto: - “Sou eu!...”
Fausto (enfadado): - “Entra lá!...”
Mefisto: - “Ora assim é que é falar, acho que vamos dar-nos bem...”

Não teve mais tempo para prosseguir a leitura. O portão da entrada ribombava de impaciência. Abriu. ELAS ali estavam, cobertas de glória. A AUTORA envolta num esplêndido vison castanho. A ACTRIZ com uma estola de arminho sobre os ombros, fazendo ressaltar o azeviche dos cabelos.

Da penumbra do hall, sem cerimónia, o MECENAS irrompeu e gargalhou, numa reprimenda fingida: - “Como não quiseste estar na minhaaaa Ceia - sublinhou – viemos nós celebrar contigo...”

Depois da Ceia o Jogo – última Cena

Entraram. O MECENAS balanceava ainda o corpo na gargalhada e ocupava todo o espaço no jeito peculiar de seus movimentos felinos. ELAS, com um brilho especial nos olhos, prenunciador das grandes explosões luminosas que, uma e outra, guardavam na subtileza e graça de seus gestos.

- “Jogamos?...” – perguntou a ACTRIZ num murmúrio, enlaçando-o. Sentiu o ENCENADOR a carícia doce de seus cabelos na face e o lume dos olhos negros devassando os seus.

Pressentiu, então, uma peça cujo alinhamento desconhecia. E a AUTORA, num sorriso de cumplicidade, entre irónica e decidida, acompanhando as palavras com um beijo: - “Viemos aqui para jogar, sabias...”

Contrariado, com o olhar interrogou o MECENAS: - “Não te vires para mim, estou tão inocente quanto tu...” – disse este, rindo com gosto, suspendendo, por momentos, o gesto de abrir o champanhe. “Mas por mim, aceito jogar!”- acrescentou, sublinhando a intensidade da gargalhada.

O ENCENADOR compreendeu que estava “cercado”. E, se pretendia dominar a cena, teria que tomar a iniciativa.

- “Seja!.. Joguemos, pois!”, concordou. E, libertando-se do abraço: - “Mas já que jogamos, façamos deste jogo uma obra de arte!...”

E, em passadas largas pela sala, frenético, em súbita iluminação, descreveu cenário e as regras do “espectáculo”. Jogariam, como se aquele jogo fosse o último acto de suas vidas. Nus e com máscaras, como se toda a vida passada se desfizesse em pó nos passos percorridos...

Portanto...

Ao centro, a mesa de jogo com pano verde cuidadosamente aberto. Apenas a luz crua da lâmpada solta reflexos doirados sobre os rostos, cobertos de máscaras barrocas: o MECENAS, com uma máscara estilizada de Dionísios; o ENCENADOR, com a ”carranca” de um velho Fauno.

ELAS, mais subtis, escondem o rosto em mascarilhas de seda... Azul, uma, sob a qual espreitam os olhos de uma luminosidade intensa. Negro e branco a outra, sugerindo, vagamente, o esboço de um Pierrô...

- “Para quê jogar se conhecemos o resultado?” – exclama, num sorriso melífico, Dionísios. – “Depois do jogo” – esclarece, misterioso – apenas sobrará o esboço ténue de nossas máscaras, flutuando no espaço...”

- “Jogaremos!...” – teima categórica a mascarilha azul, que bem conhece as subtis ironias de Dionísios e as suas blagues para lhes conceder qualquer importância. E assertiva: - “todos nós, os quatro, somos jogadores e apreciamos o jogo pelo prazer de jogar...” 

E, empolgando-se: - “Já que Deus não joga aos dados, enfeitemo-nos nós de deuses e joguemos!...”

E o velho FAUNO, que outra coisa não quer que não seja o calor dos corpos na intimidade do jogo e a colheita sinuosa das almas, em cada lance, declara, enfático: - “Joguemos, pois!... E saibamos guardar a memória do jogo, como o vinho guarda o perfume da vida...”

Toda a noite jogaram, intensos e vibrantes. Subindo mais e a parada. Como se cada lance, fosse o orgasmo primordial. Ou, como se o universo se esgotasse na energia fálica dos dedos sobre a mesa de jogo...

Raiava o dia, naquele casarão decadente nos arredores da grande urbe: -“Ficamos por aqui!... “ – declara, categórica, a mascarilha azul – “o sol não tarda a nascer e eu quero estar em casa, antes das crianças irem para o Colégio...”

Ganhara. A mascarilha azul ganhara um bom pecúlio de letras. Jogara inteligente e contida e ganhara, pois bem sabia que nunca se jogam emoções num primeiro jogo e, sobretudo, numa única jogada.

- “Saio contigo!...” – diz a mascarilha “pierrô”, alvoroçada com os preparativos de uma viagem em perspectiva. Como jogadora exímia, acumulara também emoções às emoções que trouxera!...

Restaram DIONÍSIOS, com seu riso sardónico, e o velho FAUNO, que abatido se levantou e tirou a máscara. Atravessou, com elegância o salão até ao candelabro, onde se finavam as velas. Acendeu uma cigarrilha negra, juntou o polegar com o indicador e apagou, uma a uma, as chamas com os dedos.

Liberto assim da sua condição ou destino de velho FAUNO, voltou-se o ENCENADOR, num arrepio de gelar corpos e almas. Perplexo, deparou com a máscara tombada de Dionísios. E, em vez do MECENAS, em seu lugar, o seu próprio corpo de ENCENADOR e seu rosto duplicados!..

Cumpria-se, finalmente, o drama órfico de seu destino paralelo, tantas vezes prenunciado...

Soou, então, uma voz cava, vinda de além do Tempo: -“No delírio dos corpos, quiseste colher almas!... Espero que esta derrota te ajude a compreender a tua...”

No ar pairava intenso odor a enxofre. Como espectros, AUTORA e ACTRIZ acenavam do espaço, sem bem se saber, se como chamamento ou como despedida...De um canto da sala, Mefisto, saído de uma qualquer página do “Fausto”, esguichou uma gargalhada (ihihihih) e desapareceu envolto em fumo denso...

E este pobre narrador, que não é um homem justo e que, por vezes, tem a pretensão de jogar aos dados com a vida, declara que ateia fogo, em praça pública, às palavras e cenas atrás (d)escritas, em expiação, não de seus pecados ou culpas, mas de seus exageros...

Manuel Veiga


6 comentários:

Graça Sampaio disse...

Bolas, heretico!!! Muito bom!!! Muito bom!!!

Quem escreve bem, escreve bem sempre, mas o conteúdo é aqui (e quase sempre) superior à (excelente) forma!

Parabéns!!

Beijinho.

Suzete Brainer disse...

O título faz jus ao conto.
Um conto fantástico; uma
literatura superior.
Bravo!!

Uma leitura preciosa (sempre) aqui.
Bjs.

Fê blue bird disse...

Herético, que palavras posso usar que não perturbem a fluidez e talento da tua narrativa.
Sinto-me pequena perante tamanha grandeza, isto é ARTE !

Parabéns!

Um beijinho

Agostinho disse...

Sublime jogo de deuses!
Quem escreve assim tem na mão a arte.
Parabéns!
Abraço.

Pedro Luso disse...

Caro Manoel,
O seu conto é bom para todos os leitores de contos, mas será ainda melhor para quem gosta de conto e também de teatro. Como é nesta condição que me coloco, resta-me dizer que este é um ótimo conto.
Um abraço.

AC disse...

Bravo, Manuel!

Grande abraço