sexta-feira, agosto 05, 2016

SOU SOPRO DE BANDEIRA...


Sou o linho estendido sobre a pedra. Como mesa...
E o suor dos rostos em círculo. Como mito. (Sei agora)
E o pão avaro.
E o rito das mãos de boca em boca
E as gargantas ressequidas.
Sou o vinho...
 
E sou a sombra. E a gota de água.
E a agitação do freixo. Sou a canícula e sou a raiva.
E a boina descaída sobre os olhos – basca.
E a precária sesta na aragem do dia.
Sou a ceifa...
 
Sou o tordo espantado de meus olhos
E a voz do amo
E o sol que já declina...
 
Sou os corpos debruçados sobre a terra
E o crepitar do caule e da espiga.
Sou o fio da revolta
Que não sabe ainda...

E neste horizonte de mágoa
Sou sopro de bandeira
Sou esta linha quebrada que explode
E me incendeia...

Sou este signo vazio de tudo ou nada
E o canto das cigarras que teima...

Manuel Veiga

“Do Esplendor das Coisas Possíveis” – pág. 127
Poética Edições – Lisboa – Abril 2016


 



 


10 comentários:

Majo Dutra disse...

Imensa é a tua alma, Poeta, que tanto podes representar
no teu canto perseverante e o teu sopro desfraldará tua
bandeira, enquanto respirares.
Um poema hínico e muito belo...
~~~ Beijo ~~~

José Carlos Sant Anna disse...

Caro Manuel,

Aqui o leitor encontra a respiração adequada para o sopro da cada verso se adequando à vivência que o texto traduz. Belo poema...
Abraço forte,


Eis aqui para dizer-lhe que este é o canto do vazio por preencher, o silêncio à espera de uma voz. O canto do poeta dando um novo sentido e uma nova dimensão à existência, o que sabe que cabe à palavra instaurar este mundo novo.

jrd disse...

Um poema telúrico que ressoa no apelo da terra mãe.
Abraço meu irmão poeta

Ailime disse...

Bom dia caro Poeta,
Fico-lhe muito grata pelo seu comentário e perante a sua magnífica poesia sinto-me como um grãozinho de areia a tentar desbravar o terreno das palavras.
Este poema respira de forma sublime o inconformismo de quem ama a sua terra e teima em não desistir de lutar pelo sonho ainda incompleto.
Beijinhos e bom fim de semana.
Ailime

São disse...

Eu também sou, não sei é dizê-lo com esta beleza.

Abraços

Rogerio G. V. Pereira disse...

teimemos, poeta
teimemos

Tais Luso disse...

Poema maravilhoso onde deixa-nos ver sentimentos pautados na força, na luta.
Você é o poeta da sensibilidade. Li o anterior, também.
Quanto ao vídeo... Deu vontade de chorar. Um Hino.

bjs, amigo!
Gratíssima pelo belo comentário!

graça Alves disse...

É indubitavelmente lindo!
bjs

lis disse...

Somos, poeta
se transcendermos, estaremos salvos.

© Piedade Araújo Sol disse...

e és canto sublime de Poeta que tão bem sabe poetar.
um beijo
:)