quarta-feira, março 21, 2018

MICRO-PAISAGEM


Abruptas vozes sem distância e rumor
De águas. Abrem-se matinas no regato dos olhos
E açucenas a despontar primaveras.

Sou passagem. E secreta ponte
Nesta micropaisagem
De cores intimas.

O ar freme neste hálito da memória
A escorrer vertigens. E soletro o bago
E o mel. E o minucioso insecto
Em seu rendilhado voo.

E o zumbido das coisas
A lamber o cérebro.

Canto gregoriano
Em que me quedo
E me (des)digo

E inóspito me oculto.

Arfar do poema a abrir-se
Ao Mundo.


Manuel Veiga



13 comentários:

Gil António disse...

Simplesmente um poema encantador. E assim, de forma lírica, se brinca com o glamour das palavras. Muito bonito
.
* Poema em letras virgens e palavras nunca Escritas. *
.
Deixando um abraço

Ailime disse...

Um poema muito belo para este dia Mundial da Poesia.
Parabéns!
Beijinhos,
Ailime

Pata Negra disse...

Já pus gosto lá no sítio dos gostos e aqui que mais posso eu dizer: gosto!
Um abraço e não deixes acabar a tinta na caneta

Suzete Brainer disse...

Nos olhos do Poeta a registrar a paisagem (natureza),
"de cores íntimas" pintadas pelo o afeto do sentir
vestido de Poesia, assim o Poeta respira em
"micro paisagem", como passagem livre na descritiva beleza:
"Abruptas vozes sem distância e rumor
De águas. Abrem-se matinais no regato dos olhos
E açucenas a despontar primaveras."
No todo Poeta e Poesia neste micro e macro cósmico
da paisagem mundo:
"Arfar do poema a abrir-se
Ao mundo."
Que poema admirável, grata eu fico com
esta leitura, a preencher os meus
olhos de encanto, meu caro amigo.

Bravo, Poeta.
Beijo.

Jaime Portela disse...

Depois do que a Suzete disse, e de uma forma brilhante, atrevo-me a fazer minhas as suas palavras (não sou bom comentador de poesia...).
Apesar disso, sei que este poema é excelente. Parabéns.
Continuação de boa semana, caro Veiga.
Um abraço.

Olinda Melo disse...

Gosto. Gosto deste casamento entre o escorrer do mel e a profundidade do cantochão. Parece-me que nada ficou ao acaso: matéria e espírito. Isto sou eu a dizer...

Abraço

Olinda

luisa disse...

Nasce o poema com a primavera. :)

Tais Luso disse...

"O ar freme neste hálito da memória
A escorrer vertigens. E soletro o bago
E o mel. E o minucioso insecto
Em seu rendilhado voo."

Muito bonito, Manuel, a primavera está namorando Portugal e o minucioso inseto em seu 'rendilhado voo'...

Um beijo, amigo. Gostei muito.

Acrescenta Um Ponto ao Conto disse...

Belissimo poema. Gostámos do que encontrámos por aqui.

Convidamos-vos a ler o capítulo VI do nosso conto escrito a várias mãos "Voar Sem Asas"
https://contospartilhados.blogspot.pt/2018/03/voar-sem-asas-capitulo-vi.html

Saudações literárias

Teresa Almeida disse...

Esta micropaisagem é de frementes minúcias, de cores íntimas e de rendilhados voos. Não falta o perfume das açucenas, nem o canto gregoriano e, muito menos, o arfar poético. A tua Primavera, meu amigo Manuel, é um hino que se entranha.

Meu abraço.

manuela barroso disse...

Chamas-lhe micro porque o seu lugar é recôndito. Mas este quadro onde se espraia tão intimamente todo o rumorejar das cores e dos orvalhos, também se pinta com sons serenos. Todos temos pontes secretas entre o que somos e o que pensamos ser.
Belíssimo, Manuel, como sempre
Beijinho!

Odete Ferreira disse...

As tua poesia é sempre muito intensa, quase uma prova de esforço da emoção. Arrebata e eleva as palavras a outra dimensão: a do alimento do espírito.
E eu quedo-me nelas, pois que as fazes feiticeiras...
Bjo, Manuel

Agostinho disse...

Um poema com a marca indelével do Poeta MV. Tem pontos de felicidade expressiva a tocar a sensibilidade do leitor atento. Destaco apenas dois versos que me deslumbraram pelo seu timbre de causa-efeito: "o zumbido das coisas / a lamber o cérebro". É uma brilhante imagem de uma realidade que não se explica, nem se representa em algébrica expressão da forma como as emoções são vividas por cada um do/no seu horizonte pessoal.
Abraço.