sábado, março 10, 2018

O Trabalho Humano Na Economia e Na Sociedade


“Reflectir sobre o trabalho humano envolve questionar a economia, a empresa, as relações mercantis ou o mercado como regulador supremo, mas também tomar consciência dos valores de civilização e de cultura que queremos preservar e desenvolver e bem assim inquirir como é que estes hão-de tomar corpo nas múltiplas instituições que integram as sociedades e presidem à sua organização. Com toda a razão, a Doutrina Social, que a Igreja vem desenvolvendo há mais de um século, insiste em que o trabalho é a chave da questão social.

Na sociedade contemporânea, a problemática em torno do trabalho, do seu estatuto, do lugar que assume na produção e repartição da riqueza e, de modo geral, do papel que lhe é conferido na organização da vida colectiva ganhou novos contornos, já que o trabalho assalariado e dependente se tornou num bem escasso e, do mesmo passo, a relação laboral conheceu uma acentuada perda de poder negocial dos trabalhadores, decorrente da globalização e da financeirização das economias.

Por outro lado, os governos e a administração pública viram os seus meios de regulação e de intervenção fortemente condicionados pelas regras de um mercado cada vez mais aberto, competitivo e desregulado. É neste quadro que emergem questões novas que suscitam o interesse e empenho de todos os cidadãos e cidadãs que recusam a inevitabilidade dos fenómenos sociais, sejam eles o desemprego estrutural, o trabalho precário, os baixos salários a par da cada vez maior acumulação da riqueza produzida, o abaixamento dos níveis de protecção e segurança dos trabalhadores, etc...

No contexto das novas coordenadas, ganha particular acuidade o próprio conceito de trabalho humano que não pode restringir-se apenas ao trabalho assalariado, mas há de incluir o trabalho de formação pessoal, de educação dos filhos e de prestação de cuidados na família ou na comunidade. O trabalho assalariado é apenas uma entre outras componentes do trabalho humano e do contributo que cada pessoa deve trazer à sociedade em que vive. Como integrar esta perspectiva nos mecanismos de repartição da riqueza e de organização das sociedades, quando se pode antever que irão sendo menores as oportunidades de trabalho assalariado para todos os activos que o procuram?

Com a globalização, os poderes públicos nacionais viram a sua capacidade de intervenção na regulação e desenvolvimento das suas economias consideravelmente reduzida, sendo necessário encontrar novas formas de regulação do mercado a nível supra nacional sob pena de vermos persistir as situações de grande desigualdade e exclusão social, que hoje se verificam, tanto à escala de cada país como, e sobretudo, à escala mundial.

Nem sempre o cidadão comum se dá conta destas realidades, não sabendo como lhes fazer face e como exigir dos respectivos governos actuações conducentes à construção de mecanismos de globalização da solidariedade, condição sine qua non para o desenvolvimento e a paz. De pouco vale engrossar a corrente do rio das muitas queixas e dos justíssimos descontentamentos (às vezes, protesto e actos de rebeldia), ainda que o leito de certos rios mais calmos se faz com o galgar das margens que os querem conter...”

(…)

Manuela Silva



5 comentários:

Larissa Santos disse...

Gostei do texto!!
Parabéns

Hoje:- Alma que Vagueia.
.
Bjos
Votos de uma boa noite.

Graça Pires disse...

O texto é excelente. Gostei de ler.
Uma boa semana, meu Amigo.
Um beijo.

Olinda Melo disse...


O trabalho humano. Penso que aqui se lança um olhar sobre o que será a actividade humana seja na produção de riqueza como na sua distribuição,
tanto na retribuição às escalas mais altas como aos assalariados.

Prefiro focar-me num ponto apenas. A precariedade. Uma situação que tem vindo a sofrer alterações ao nível da legislação mas que, nem por isso, tem trazido segurança às pessoas que ao fim do mês têm despesas para pagar. Se antes os chamados "precários" faziam horários normais e estavam submetidos à hierarquia, contrariamente à figura jurídica a que estavam sujeitos, hoje, depois da tal regularização, não me parece que estejam numa situação ideal, com impostos incomportáveis em relação ao seu salário.

Mas, os precários não têm os seus problemas resolvidos. Remeto para este artigo do ano passado que nos mostra a instabilidade das suas vidas: "Quando os precários nos batem à porta"
https://www.publico.pt/2017/03/12/economia/noticia/quando-os-precarios-nos-tocam-a-porta-1764865

Eles andam aí. Nos últimos quinze dias, bateram-me três deles à porta numa luta pela sobrevivência e eu sem lhes poder valer.

Manuel Veiga, passei do geral para o particular. Não terá sido o comentário ideal mas...foi o que o tema me sugeriu neste momento.

Abraço

Olinda

Teresa Almeida disse...

Nunca te passo em falso. Há sempre muita qualidade em tudo o que escreves.
Gostei.

Beijinho.

Manuel Veiga disse...

Olinda,

as suas palavras são sempre ponderadas e justas.
e ainda que não fossem, este espaço pretende ser um espaço de liberdade e responsabilidade.

abraço, grato