sexta-feira, junho 21, 2019

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI - Take 16






Regressemos, pois, a Terras do Demo e retomemos o fio das coisas ali acontecidas, desvendando outras, ainda placenta e, no corpo mártir da escrita, que tudo aguenta, projectemos outros escorregadios acasos e acontecimentos, alguns já por demais conhecidos, mas que, solicitados a subirem mais uma vez ao palco, irão abrir-se a novos olhares, que é como quem diz, a novas determinações da escrita, matéria ígnea, onde se tece a trama da narrativa e se fazem e refazem veredas, percursos e atribulações das sofridas personagens e as não menos esforçadas as dores do escrevente.

Zé Canhoto que, anos atrás, chegara aquelas terras, vindo sabe-se lá donde, sem ter onde cair morto, definhava, ano após ano, não de sonhos, que esses se reduziam ao mínimo, ou seja às urgentes determinações da sobrevivência, elevando graças a Deus por lhe conceder um dia atrás do outro, mãos fortes e corpo rijo para arrostar dificuldades, mas definhava, porém, na inclinação e no gosto para se “ajeitar”, à carga e à canga, como meeiro e homem de mão de seu amo e senhor Federico Amásio Jacinto Silvestre Campelo do Rego, gosto e inclinação que iam esmorecendo, com o passar do tempo e, como se não bastasse a quebra da sua predisposição anímica, para se ajustar à carga e à canga, na proporção aliás das soldadas prometidas e nunca pagas, vinham também somar-se as rezinguices da mulher, que neste ofício de narrar, nem sequer nome há-de ter que lhe possa conferir vida e identidade próprias, mas apenas como mulher do Zé Canhoto será reconhecida, pois que mulher para o ser, o será em cada momento e para sempre e, assim naqueles rudes tempos e para além deles, a mulher há-de “apagar-se” na sombra do homem, que dela serve para apaziguar o cio e fazer filhos, assim, também, exactamente, com aquelas duas criaturas de Deus, bastante esquecido, aliás, tal Deus, das humanas necessidades materiais do casal e da sua ranchada de filhos, assim, pois, o Zé Canhoto e sua mulher, naqueles lugares e naqueles nefandos tempos de miséria e servidão, empenhando energias e ânimo para além de suas forças, a moirejar, escravos de terra áspera e improdutiva, em que apascentavam minguado rebanho de cabras e arrancavam uns escassos alqueires de centeio, que mal matavam a fome à filharada e que, em sua servidão de meeiros de Federico Amásio Jacinto Silvestre Campelo do Rego, senhor daquelas terras e muitas outras por todo o Concelho e nos concelhos limítrofes, entregavam metade da escassa colheita, fosse ela produtos da terra ou criação de animais e a quem depois recorriam para sobreviverem, exauridos os precários meios de subsistência, acrescentando dívidas e favores, numa espiral de dependências e exploração, a que ficavam acorrentados até à morte.

Acontecia, porém que Zé Canhoto e sua mulher, noites adentro, depois de saciados os corpos e acalmado o cio, ficavam abraçados, nus e indefesos, a ruminar na vida e espreitar o céu pelas frinchas do telhado, como quem semeia estrelas na escuridão da noite. A mulher valia-se, então, desses momentos de lassidão e, rodeando-se de feminis artifícios e escolhidas palavras para não lhe soltar o génio, mansamente, passo a passo, que é como quem diz, palavra a palavra, governando o fio da conversa, amorosamente, ia levando a água ao seu moinho, dando seus conselhos sobre as preocupações diárias e insurgindo-se contra aqueles fatais laços que o prendiam ao seu senhor e amo, Federico Amásio, ó “home”, pois tu não vês que o Amásio abusa de ti? Não lhe deves nada, “os favores”, que dele recebes, saem-te bem do corpo, assim, inoculando, a sofrida mulher na alma grande do Zé Canhoto, tão grande e generosa a alma, quão fecundas suas longas mãos e seu corpo esguio, assim, a clarividente mulher, inoculando, com a sabedoria, que nas vidas sofridas se colhe, na mente embotada do companheiro, a semente da insubmissão e abrindo, como flor virgem, o sentido de justiça, que se quer acreditar habite no coração de cada homem, por mais embrutecido que esteja e enganadoras que sejam as circunstâncias da sua vida. 

Esquecia, no entanto, a mulher as afrontas pessoais, para que o seu homem não as pudesse adivinhar, já que de outra forma era desgraça certa, pois é bem mais fácil acertar um tiro na testa de um homem que numa perdiz a voar e o Federico Amásio estaria então morto e enterrado, do que não se arrependeria, por bem feito que era, mas mais que certo também era ficar viúva, com o marido vivo, mas na prisão ou no degredo para toda a vida e ela, com uma ranchada de filhos atrás, como lhes poderia acudir que não fosse entregá-los à caridade pública, pedintes, porta a porta, enxotados como cães tinhosos, dormindo ao relento, andrajosos e famintos, arrastando a sua miséria, de povoado em povoado, a desfiar jaculatórias dê-me uma esmolinha pelas almas do Purgatório …

Calava, por isso, a mulher as afrontas, não apenas afrontas antigas, jovem e garrida, como uma papoila ruiva, pastora de rebanho de ovelhas, que ao domínio da Casa Grande pertenciam quando, um dia, em lugar ermo, sem que ninguém pudesse valer-lhe, seu amo e senhor, Federico Amásio Jacinto Silvestre Campelo do Rego, regressando da caça, dela abusou, valendo-se da força bruta e ela, jovem e frágil, dos dentes e das unhas, bravia, deixando vincos e registo de unhas e de dentes no rosto do abusador, cada vez mais fremente de animalesco desejo, a cada golpe de resistência da rapariga, agora seu corpo rendido debaixo do corpo do abusador, joelho entre as coxas nuas, mãos da mulher aprisionadas pela mão possante do energúmeno que, com a outra, a filava pelo sexo e a acariciava com os dedos, até a sentir rendida e a diluir-se na humidade e a abrir-se ao membro masculino que a fendeu de um golpe e as nuvens e o céu num rodopio fantástico e a sua cabeça atordoada e seu corpo fresco e jovem a perder o tino e acompanhar ritmo e o orgasmo da mulher e do homem fundidos e o grito a ecoar na solidão do ermo e as ovelhas espavoridas e os cães a ladrar e agora a mulher a recompor-se e a ajeitar saia e a limpar o sangue virgem e a tapar as coxas e o homem a acender um cigarro e a bolsar a bestialidade assim putinhas e bravias é que eu gosto e com o dedo indicador em ameaça se dás com a língua nos dentes já sabes onde vais parar – só tens a ganhar se estiveres calada.

Calava, pois, a mulher as afrontas. Calava mas não esquecia. E muito menos perdoava ao seu verdugo. Como a si própria não perdoava aquela sina e aquele sarro, ou aquele gosto, ou aquele fogo que a consumia, aquela ardência dos seios e tremura de pernas, aquele fluxo sanguíneo a percorrer-lhe o corpo, aquele cálido estremecimento, aquele desejo, que abominava, quando seu verdugo, seu amo e senhor, Federico Amásio Jacinto Silvestre Campelo do Rego, dela se aproximava e a tomava, fazendo dela gato-sapato e toma cuidado, mantém o bico calado – aqui a puta és tu! – não vais querer que o cabrão do Zé Canhoto saiba.

O dia haveria de chegar. De sua vergonha e catarse. E de sua limpeza de alma.

Manuel Veiga



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