terça-feira, dezembro 22, 2020

UM SORRISO "FREAK"...

 

Gosto de pessoas. Por vezes próximas, respirando ao mesmo ritmo. Outras (quase sempre) apenas momentos, riscos de acaso, meteoritos intensos na solidão da cidade. Uma viagem de autocarro (ou de metro) é sempre uma revelação inesperada. Pequenos nada que nos perseguem (momentos, horas, dias?) e que exigem que os soltemos, de tão intensos…

Gosto de gente anónima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!…

Por vezes, a cor desânimo, toma o sangue. O cepticismo cria raízes e uma ironia triste ocupa o espaço da esperança. Porém, do meio da multidão, surgem tantas vezes, sem nos darmos conta, uma imagem, o resto de uma carícia, uma ternura, uma beleza inesperada que humanizam e reconfortam. Que nem sempre estamos disponíveis para ver e que, outras vezes, guardamos como refrigério de alma…

Falo-vos de uma viagem de autocarro entre o Rossio e o Cais de Sodré. Na curta distância, cenas dignas de um pintor impressionista – o melhor e o pior de um Povo concentrado no escasso espaço de um autocarro, à hora de ponta. Nada que seja diferente de outras viagens.

Até que…

Uma jovem mãe, de rosto trigueiro e olhar apaziguado, entrou, aconchegando no colo uma criança de escassos meses. Sozinha, face às intempéries e aos balanços da vida, ali bem simbolizados nos apertos e balanços do autocarro. Um jovem, de brinco na orelha e crista de galo loira, cede-lhe o lugar (no meu íntimo, um sorriso freak!)

Acomodou-se a “minha” jovem Madalena (era, certamente, este o seu nome!) com o bebé nos braços, sereno que nem um anjo. E alheia a tudo que não fosse a sua novel maternidade, a jovem soltou o seio da blusa (mármore puro) e a boca da criança, em esplendor, buscou afoita o mamilo, assim exposto em dádiva …

Um inesperado silêncio no interior do autocarro.

Vi então olhares brilhantes nos rostos cansados dos transeuntes. Vi ternuras caladas e embebecidos sorrisos. Vi orações pagãs em cada sorriso!…

E, numa emoção cálida, em época natalícia, a minha alma ateia, entoou, então, um cântico de vida – “Glória in excelsis Deo!…

Manuel Veiga

Seara Nova – nº 1749

                                     

 FELIZ NATAL ! ...



13 comentários:

" R y k @ r d o " disse...

Associando-me ao seu gosto. Gostei muito de ler este seu texto
.
Deixando votos de um SANTO E FELIZ NATAL,
extensivo a toda a sua família e amigos/as.

Cidália Ferreira disse...

Cada vez mais precisamos de sorrisos. Adorei a publicação. Obrigada:))
.
Desejo um Natal tranquilo sem sobressaltos...extensivo aos vossos familiares e amigos. Que todos tenhamos a noção de que o perigo nos prossegue e espreita em cada esquina. Voltarei dia 27.

.
É OUTRA VEZ NATAL...
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Beijo. Uma excelente semana. Boas Festas

Pedro Luso de Carvalho disse...

Caro poeta Manuel Veiga, gostei muito dessa inspirada crônica, que além de sua beleza e humanidade fez-me lembrar do que mais gosto: as pessoas e o andar pelas ruas de minha cidade, principalmente as do bairro em que moro.
Desejo ao amigo e a sua família, um Natal de paz e alegria e um Ano Novo com esperança e muita saúde!
Grande abraço, amigo Manuel!

Teresa Durães disse...

Um excelente Natal, pagão ou cristão ou outra religião. Teresa Durães

Teresa Almeida disse...

E ficamos cheios de graça com uma leitura destas. Inundados do verdadeiro espírito natalício. Importa que aconteça e se renove. Escreves tão bem, meu amigo Manuel!
Gosto de sentir o pulsar da vida e a melodia da palavra.

Que o teu Natal seja aconchegante.

Abraço arrochado. Saúde!

Emília Simões disse...

Bom dia Manuel,
Que texto tão belo e profundo!
Tantas expressões, olhares, gestos que comovem e enternecem!
Isso é Natal!
Votos de santo e feliz Natal com saúde e harmonia.
Que 2021 seja melhor para todos nós.
Beijinhos,
Ailime

Tais Luso de Carvalho disse...

Que linda crônica, meu amigo! Você trouxe todo esplendor da vida.
Crônica de muita beleza e sensibilidade, trazendo o simples da vida, para mim o cotidiano dos mais felizes.

"Gosto de gente anónima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!…"

Deixo aqui meus votos de um Feliz Natal e um Ano Novo com muita saúde, paz e esperança a você e sua linda família, deverá ser um Ano melhor, é o único presente que aguardo nesse momento tão ruim de nossas vidas. Mas tudo passa.

Beijo, querido amigo.

Elvira Carvalho disse...

Que texto maravilhoso, Manuel.
Adorei.

Sei que este ano não foi fácil para ninguém, apesar disso desejo-lhe que o seu Natal seja festejado com Amor, Saúde e Paz.
Abraço e saúde

Olinda Melo disse...


Texto que nos emociona, escrito
com alma e que vai buscar ao mais
fundo de nós sentimentos
fraternos e de solidariedade, que
muitas vezes não deixamos transparecer.

Excelente em poesia e em prosa,
amigo Manuel Veiga.

Os meus parabéns
e votos de Natal Feliz.

Beijo
Olinda


José Carlos Sant Anna disse...

E belo sorriso, e crônica, e texto.
E a solidariedade no olhar, fitando sempre além das coisas!
E solidariedade nas palavras nos prende!
E dizer mais o quê?
Imitando um amigo português "chapeau"!
Fraternal abraço.

teresadias disse...

Olá, Manuel!
Venho desejar-lhe um Feliz e Santo Natal.
Que 2021 lhe traga tudo o que deseja.
Abraço natalício, muita saúde.
(Também eu gosto de pessoas. E de palavras!)

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

MV

Que texto mágico, tão puro e natural, mas que deve ter levantando muitas críticas.

Adorei o texto.

Aproveito w desejo um Natal o mais feliz possível.

Sei que este ano não foi fácil para ninguém, mas ainda assim que possam passar este Natal com Amor, Saúde e Paz.

Que a magia do Natal aqueça os corações saudosos de outros tempos, outros Natais.

beijinhos
:)

SOL da Esteva disse...

Sublime (quase mágico) este reportar da Vida vivida.
A Natureza e a naturalidade agregam-se e "pintam" imagens que edificam.
Belo "contar" a espécie de Natal em que todos somos figurantes.
Que o mesmo te haja sido favorável e transporte ao desejo de um Novo.

Abraço
SOL

PERTÉRIT0 IMPERFEITO

No roteiro de teus passos e no fervor Dos laços me entardeço. E me derramo E me desfaço. E (bem) te digo Seda fina e xaile antigo Debruado n...