segunda-feira, janeiro 05, 2015

DE NOVO A MONTANHA...


De novo a montanha e o gesto amável de colhe-la.
Gregoriano o canto. E a ave o abismo. E meus olhos
A flutuação da brisa. Cegos na imensidão da cor
Em que se despenham...

Estendo os braços. E o sol desbotado é eco
Que devolve o prodígio. E os inaudíveis sons
São o bailado da memória. Fio de água a desenhar
A paisagem cá por dentro.

E a pedra-parideira e o teixo. E o tempo destilado
Gota a gota. Ruínas e calcário que se negam.
E se condensam. Fogo que circula
No interior da pedra...

E a poeira líquida – fios de prata por onde escapa
A flor sem nome.
Tão frágil
Que hesita
E se verga
Como se a hora
Fora plena.

E a gloriosa tarde fosse eterna...


Manuel Veiga




9 comentários:

Lídia Borges disse...


Sei desse lugar de indizíveis encantos...

Indízíveis, digo, para poetas menores, que o dizer aqui é alto e claro como a mais alta montanha inundada de sol.

Lídia

Rogerio G. V. Pereira disse...

Poesia líquida
Montanha?
Ou a persistência da água
sobre a pedra?

AC disse...

Nem todos têm o condão de saber ler a montanha...
Tão envolvente!

Abraço

Nilson Barcelli disse...

Gostei do teu poema.
Excelente, como sempre.
BOM ANO, caro amigo.
Abraço.

© Piedade Araújo Sol disse...

poesia que transborda sentires....

tão bela!

beijo

:)

Mar Arável disse...

No espelho dos sentidos

lá no alto da tua escarpa
e na minha
há sempre uma flor
à flor da pele
na sereníssima vertigem do fogo
que nos ateia

Abraço sempre

jrd disse...

Escorrega liquida a palavra do poeta que nos chega do alto.

Abraço fraterno

Graça Sampaio disse...

Sempre presente a dura beleza transmontana - mas muito bem posta, muito bem dita. Como sempre.

Beijinho

jorge esteves disse...

É nisso que (a Poesia) se torna e nos torna: eternos!
Leio-te à tarde...
Abraço, amigo.

jorge