quarta-feira, outubro 07, 2015

FRAGMENTOS XII - "Entre, Senhor Alferes, esta casa é sua..."

A tarde abafava. Os corpos eram exaustos. A coluna militar, à chegada, fora envolvida, nos gritos da criançada, que suspendeu o jogo com uma bola de trapos (as brincadeiras das crianças pobres são as mesmas em toda a parte) no largo da Tabanca, que tanto servia como campo de brincadeiras, como de “parada” militar. A ladear o espaço, descaindo para o lado da fronteira, um frondoso embondeiro, rodeado, por bancos toscos de pedra, servia, com sua sombra, de plateau, nas decisões colectivas e ócios (permanentes) dos homens grandes da Tabanca. Esguia uma cana de bambu, mal ultrapassando a copa do embondeiro, arvorando a bandeira nacional, em posição invertida, como o Alferes nunca imaginara e era antevisão, décadas depois, de umas presidenciais comemorações da implantação da República, nos Paços do Concelho de Lisboa e do zelo do futuro cavaquismo pelos símbolos e valores pátrios e também prenúncio eloquente de nova(s) decadência(s), em que o “cravo e canela” se devolve “em apagada e vil tristeza”, já não cinza de míticos impérios, mas antes da “Europa connosco” e seus desenvolvimentos futuros e da Ilusão europeia que para “Sonho” sempre lhe faltou o “o Azul e a Asa”.

Electrizante a atmosfera. O ar denso oprimia o peito e mal deixava respirar. Apeados das viaturas, os homens, em formação militar, aguardavam, enquadrados pelos respectivos comandantes de secção. A uns metros de distância, alguns militares da pequena guarnição, desgrenhados, seminus ou de camisa aberta, barbudos e sebentos, olhavam os camaradas de armas recém-chegados, briosamente fardados em fato de combate e em impecável formação, como extraterrestres. Do interior da Tabanca, pachorrento, de alpergatas nos pés e tronco nu, cabeça descoberta e cabelos raros, com uma sedentária barriga, qual barril de cerveja pronto a explodir, saguim empoleirado no ombro, surgiu, finalmente, o esperado sargento Fernandes, comandante da secção de militares, a quem a honra da Nação e os desígnios do Império fora confiada naquelas paragens e que, agora, o Alferes aguardava, não para cerimónia formal de transmissão de poderes, que as circunstâncias dispensavam, mas para prestar os esclarecimentos necessários em vista à instalação dos camaradas de armas acabados de chegar.

Próximo da exaustão, pela viagem e pela electricidade estática, que provinda da atmosfera, empapava o solo e se infiltrava nos poros, com um peso obsessivo nos órgãos vitais, pressentia-se a ansiedade pelotão em ver terminada a formatura. No entanto, bem sabiam os militares sob seu comando, que o Alferes, cúmplice e amigo em horas de lazer e descontracção, não tolerava “baldas” em serviço, nem desleixos. Assim, o rosto dos homens em formatura animou-se, num sorriso aberto, face à “aparição” clownesca do sargento Fernandes, antecipando o gozo pela “pissalhada” que o Alferes lhe tinha certamente reservado e que se adivinhava em explosão, como fulminante tempestade.

De facto, o Alferes, com o desagrado estampado no rosto, coçava “as partes baixas”, como em ocasiões de maior tensão sempre acontecia, num tique nervoso que ganhava foros de hábito e se prestava a desbragados dichotes na caserna, numa camaradagem impoluta entre homens acorrentados ao mesmo destino. Sabia de antemão o Alferes que o desenrolar da cena, em público, à vista de toda a Tabanca, poderia ser fatal para a consideração em que era tido pelos homens que comandava – bastaria, por exemplo, que o Sargento “lateiro”, homem com largos anos de tarimba militar, tivesse recalcitrado, face às circunstâncias públicas da admoestação ou ao exagero do tom e da forma em que foi admoestado. Porém, mais que a exigível ponderação das circunstâncias, na voz do Alferes sou mais alto a sua natureza, ou seja, sua atávica repulsa contra a autocomiseração e os comportamentos moles e atitudes desleixadas, pois que aprendera, com o leite materno, que “na vida se pode perder tudo, mas nunca se pode perder a dignidade”, postulado ético que lhe servia de imperativo categórico a modelar os comportamentos humanos, quer individuais, quer colectivos.   

Assim, a voz do Alferes soou, com o vigor de uma chibata, face a mão descuidada que o Sargento lhe estendia, ignorando a devida continência militar: “Nosso Sargento, que rebaldaria é esta? O que o leva a supor que dispenso a sua apresentação formal? Mas nessa “figurinha” carnavalesca, nem pensar! Tem dez minutos para, devidamente fardados, se apresentar com os seus homens em parada...” E dirigindo-se ao furriel mais antigo, comandante da 1ª Secção: ”Furriel Dias, mande os soldados ensarilhar armas e aguardarem em formatura...”

Abafava-se. Mas a reprimenda parece ter gelado os ares. E próprio o sorriso cúmplice dos militares se perdeu, na ansiedade dos corpos suados, que exigiam a libertação da asfixiante farda de combate. O espaço, deserto agora da criançada e com militares da guarnição correndo atrás do Sargento rumo à caserna, foi pouco a pouco rodeado pela população, que seguia o aparato militar, com estranheza e viva curiosidade.

Do solo, levantava-se uma poeira quente, insuflada por insistentes redemoinhos, que em turbilhão, subiam aos céus carregados de negro e electricidade, quais tufos e cornucópias desgrenhadas em alvoroço telúrico.

O alvo de todos os olhares, era agora o Alferes. No centro da parada, em rigorosa posição de sentido, recebia a continência do Sargento Fernandes e dos militares guarnição que por ele desfilaram em passo de “ordem unida” e se foram colocar, em formação, no início da coluna militar recém-chegada, como lhe fora determinado. À voz de comando do Alferes, toda a coluna reunida num só corpo militar, desfilou em, em “ordem unida”, até ao do embondeiro dos homens grandes da Tabanca e à arvorada bandeira nacional. Ordenou o Alferes, perante a sua estranheza do Sargento, que arriasse a bandeira nacional em vista a ser hasteada, devidamente colocada no improvisado mastro. E, num aparte sibilado, apenas pelos dois audível: “Se o nosso Sargento não sabe ou esqueceu qual a posição correcta da bandeira no mastro, chamo um dos meus soldados mais básicos!...”.

Visivelmente constrangido, mas sem esboçar qualquer palavra ou gesto de contrariedade, fixou o Sargento novamente bandeira na extremidade da cana, agora, sim devidamente, com o pano verde junto da haste e o vermelho ondulante, ao vento...

Os homens grandes, primeiro indiferentes, olhavam intrigados. Mais distantes, à entrada do pequeno edifício alfandegário, que com a guerra passou servia de posto da Pide, o chefe Antunes e o “Cámenino” calaram o miserável sorriso de hienas, à voz de comando do Alferes e os militares perfilados, apresentando armas em rigorosa formatura e bandeira nacional subindo, na medida em que a cana bambu se desdobrava, lentamente, nas mãos do Sargento até ficar fixa no improvisado suporte, a dardejar sobre o embondeiro.

“Mas que fervor patriótico, Manuel!... Admirável este teu eclectismo. Depois da recaída neo-realista, páginas atrás, descai agora o teu pé literário para a chinela do romantismo de pendor nacionalista. Com uns acordes de fado e teríamos então um filme de propaganda nacionalista, digno do cineasta maior do regime, chamado António Lopes Ribeiro. Ou, sabe-se lá – acentuas a ironia e o sorriso – se tua empolgante descrição não daria uma crónica actualizada do próprio António Ferro!...”

O que aí vai, Maria Adelaide. Cada vez mais acutilante esta queda para comigo implicares e que tão bem cultivas, mas que a mim não engana, pois esse teu jeito, que terás que reconhecer, por vezes, um pouco excessivo, outra coisa não é, senão uma forma de chamares a atenção, como criança o regaço materno, requerendo, uma carícia ou um beijo, que noutros tempos seria acendalha do fogo que nos consumia que agora é cinza que nos aquece. De resto, como gazela ciosa, pressentes “competição” feminina e advinhas que, para lá do palco e dos cenários em que nos dissimulamos e mesmo para além do trama em que o texto se engendra, se perfila Dona Rosalinda a reivindicar os seus direitos na narrativa. E isso, mais que a inquietação com meu destino literário, provoca-te ansiedade e espicaça a tua curiosidade feminina e assim perdes de vista o que verdadeiramente está presente na briosa performance militar do Alferes. Porém, se te desses ao trabalho de escavar “o ruído da escrita”, bem se sabendo que “o autor não existe” e, assim, também não o sujeito de um qualquer discurso moral, em que te possas apoiar e estivesse um pouco mais atenta à linguagem das coisas e ao sentido dos comportamentos, compreenderias então que o corpo físico da escrita, em que o Alferes se desenha, no espaço mítico da Tabanca, é a enunciação de um “discurso de poder”, cujo sentido faz explodir o mero jogo das aparências. O que pretendo sublinhar é que do “outro lado” do Alferes, tal como é apresentado, permanece uma realidade outra, possibilidade apenas, que fica oculta no limbo da escrita e, no limite de um frágil acaso, estabelece a diferenciação entre o “herói” e a vítima. Qual deles te mereceria mais cuidado?

Mas bem intuiu o Alferes a subtil diferença e as ocultas “determinações” da sua acção, ou a fundas razões das suas escolhas que, podendo a Tabanca marcá-lo com o anátema da “negatividade” o afirmou como “fiat lux” promissor na saga em que se joga seu destino e que outra coisa não é senão a clarividência de ter compreendido, antes de verdadeiramente o saber, que “não existe poder, sem exercício do poder” e que todo o poder, seja qual for a sua natureza, sobretudo o poder militar, se reveste de sinais, ritos e símbolos, numa liturgia cujo exercício é a marca visível de “autoridade” e de domínio. Porque, minha querida, as relações sociais, sejam elas expressão do microcosmos da Tabanca ou do vasto Mundo, são relações de poder, em que uns quantos (poucos) o exercem e os restantes (muitos) são sujeitos e que alguns, bem conhecendo a tramóia em que o(s) poder(es) se desenrola(m), lhe(s) resistem e, ao resistir-lhes, os liames de um poder-outro vão tecendo.  De que serviriam ao Alferes os seus doirados galões de oficial do Exército se não fora a sabedoria e a oportunidade de colocar “em sentido”, no sentido literal do termo, o Sargento Fernandes em manifesta abjuração, pelo desleixo, da ideologia militar de que era enformado? E sem resistência, obviamente, que a ideologia militar é “totalitária”, quer dizer, não admite, sobretudo, em teatro de guerra, linhas de transigência, nem fissuras de dissidência. Ao “vigiar e punir” um comportamento desviante, o Alferes redimiu o poder militar de que provisoriamente era investido no escalão mais elevado e, por momentos, precários que fossem, foi sumo-sacerdote da sua ideologia. Ámen!...

Finalmente a ordem para destroçar. Os militares acossados pela ventania, cada vez mais forte, corriam dos veículos militares com as bagagens para o velho armazém de mancarra, agora deserto, que lhe iria servir de abrigo e dormitório. Bruscamente, a escuridão total, absurda, apenas cortada pelos relâmpagos, luminosos, brutais, insistentes, rasgando os céus, de alto a baixo, ou nascendo debaixo dos pés, como se todas as portas do inferno fossem abertas e o apagamento da Tabanca e da floresta num silêncio opressivo, rasgado por um urro da natureza, um trovão medonho, provindo dos confins do Universo, como se toda Terra tremesse e abrisse comportas do Céu em cordas de água, que fustigavam homens, árvores, animais, telhados ou palhotas de mistura com os detritos que voavam, como fantasmas, impulsionados pela ciclónica ventania. O Alferes, que aguardou, firme, que o último homem estivesse a resguardo, de um momento para o outro, viu-se solitário no espaço da parada, com a farda encharcada e escorrendo água, paralisado e absorto, como que fulminado pela grandeza belo-horrível do espectáculo a que assistia ao vivo. Acordou do torpor com ruido uma folha de zinco a bater a seus pés e que vinda pelos ares quase lhe ceifava o pescoço e, então, correu, desalmado, para o alpendre mais próximo, dominando a ansiedade e a sacudir a água.

- “Entre, senhor oficial. O senhor não precisa pedir licença – esta casa é sua!...” – murmurou uma voz de mulher do interior da casa.



10 comentários:

Janita disse...

Não sou o senhor Alferes mas vou entrando, cada vez com mais agrado, nesta casa onde tenho sido gentil e amigavelmente recebida.

Apreciei, sobremaneira, a forte personalidade do Alferes e gostei imenso de mais este 'Fragmento'.
Apraz-me ter lido aqui, uma frase que repeti aos meus filhos, vezes sem conta, e penso ter-lhes transmitido o significado desse valor:
"Podemos perder tudo na vida, mas nunca a dignidade".

Obrigada, por nos proporcionar estas leituras tão agradáveis e interessantes, senhor Alferes(?)...:)

Beijinho

maceta disse...

Um abraço pela ausência dos teus escritos...
e valeu mesmo ler este excerto que traduz exactamente a essência do saber assumir...realmente,não pode ser um tarimbeiro o representante do "exemplo", que não é...
valha-nos que o tarimbeiro a quem nunca o fato assentou bem, está de saída, sem saudades...
abraço

jrd disse...

Uma metáfora de excelência. Mais um grande fragmento de um todo que é uma pérola feita escrita.

(não menciono o lateiro, faz parte dele mas nele não tem "lugar"),
Grande abraço meu irmão

CÉU disse...

"Bué da texto, meu"!!!!!!!!!!!!! Estive quase uma hora a ler, e com muito agrado, o que escreveu. Gosto da mudança do tipo de letra, assunto que parece diferente, mas está tudo no mesmo "saco".
África "Tua", lembranças, k só os homens sabem contar, a sagrada e necessária tropa, o tradicional e convencional coçar dos órgãos sexuais masculinos (acho horrível e desprezível), sem saberem e sentirem o k estão a fazer, a política antiga e a atual, Cavaco Silva, mais uma vez, tipo saco de box ou bombo de festa (pra próxima, vamos ter um Marcelo, k já está um tanto tantã, assim lhe diz a filha, mas em quem votarei, sem problemas. La "gôche, em geral, não "vocês" gostam dele, pke ele fala na TVI, canal k não vejo e k deveria desaparecer, bate no "filho", sempre k necessário, e dá presentinhos aos apresentadores, é tipo "tu cá, tu lá", mas na boa, yah, segue), a Maria Adelaide, k antes proporcionava e fazia arder o "fogo", mas agora a meno e o PSA já não permitem. Ok! as cinzas tb aquecem, pouco, acho eu.
Alferes é Alferes, é um posto, ou seja, é um homem igual aos outros homens.

História das Mentalidades foi uma cadeira que fiz na Faculdade, dois anos, e que aconselho vivamente.

Vesta é a denominação que melhor me assenta, até pke é "realidade". Eu e as minhas amigas, Diana e Minerva, formamos um trio, quero dizer, temos três, disparate, somos três, queria eu escrever.

Baisers pour tout le monde, et pour Antoine, un gros et special bisous.

À la prochainne, chéri ami!

PS: "quê dezer", o "SÓTOR" deixa no meu blogue um comentário de uma mísera linha, e eu escrevo um tratado. Essa "coisa" das desigualdades, tem de acabar. Tem! Tem!

ॐ Shirley ॐ disse...

Suas crônicas, Manuel, revestem-se sempre de completa elegância.
Beijos!!!

Graça Pires disse...

As tuas memórias... Que interessante ler-te neste registo. Gosto da Maria Adelaide...
Um beijo, meu Amigo.

Mar Arável disse...

Estou a ver-te

em memórias vivas
publicadas em tantos outros apeadeiros
recriados

Que não te doam os dedos
Abraço sempre

AC disse...

Meu amigo,
A tua escrita cola-se a nós, entra-nos pelos poros...
Excelente momento!

Um abraço

Suzete Brainer disse...

Poeta amigo,

A excelência da tua escrita navega por onde
as palavras inscrevem significados, cenas,
perfis de personagens no espaço contextual
que nos hipnotiza...
Fazendo com que nós (leitores) fiquemos a
desejar a história mais e mais...
E agora outra personagem feminina?
Fiquei curiosíssima...rsrs
beijo.

Agostinho disse...

A natureza reequilibra as intermitências da razão. Não fora a voz de comando, o trovão viria, como veio, apaziguar os espíritos relaxados de desânimo. E virá.

Bela prosa como prova de um tempo que foi nosso. Que ainda é o nosso.

Abraço