sexta-feira, janeiro 29, 2016

Encobre-se o Poeta em Seu Nome...


Encobre-se o poeta em seu nome
E assim emboscado
Recolhe a graça
E se faz Mar
E barco...
E se unge
E se alcança
Marinheiro...

Torna-viagem de si próprio arde.
E na amurada do sonho funde as rotas.
E todos os mapas. E em todas as praias
Aporta. Peregrino...

Em cada enseada se derrama.
E em todas as ilhas cativo.
E é mastro altaneiro. E gávea.
E é o alvoroço inaugural das ondas.
E o corpo em flor de Nereide.
E o canto enfeitiçado...

Tece em seu diário a ortografia da viagem.
E o assombro. E a vertigem.
E em registo cifrado
Tabelião de desacertos
Resguarda-se.

E desdizendo-se se faz rota.
E do sangue incendiado
Se faz Grito.

É companheiro de brumas
E Argonauta de todas as demandas.

E na Âncora em que se acolhe
O prodigioso dia!...


Manuel Veiga


11 comentários:

Mar Arável disse...

Quase todos os poemas são autobiográficos
mas os teus não
Abraço sempre

heretico disse...

queres dizer na tua, meu caro MarArável, que sou um poeta "fingidor"? favores de amigo, certamente...

abraço.

ॐ Shirley ॐ disse...

Um super-homem... por ela?
Linda melodia, letra e voz...
Beijos, Manuel!!!

Janita disse...

Encobre-se o Poeta de disfarces mil
desnudando a Alma...Perfeita viagem.
Gostei muito, Poeta.

Abraço
Janita

AC disse...

Intensidades mil, dum poeta em que as palavras respiram à flor da pele, sem qualquer resguardo...

Forte abraço

luisa disse...

Em cada poema, um prodígio. :)

Suzete Brainer disse...

Começando com o título ("Encobre-se o Poeta em seu nome..."),
belíssima metáfora, em que o Poeta confessa a sua capacidade
de se renunciar no seu brilho, diante do brilho em seu nome (o dela)!...
Em uma viagem (interior), desnuda a paixão no canto sensual,
belo (enigmático) e poético. Numa rota única de mistérios do
(A)Mar, o Poeta na sua grandiosidade já se descobre e o poema
acolhe a imensidão inscrita em "Prodigioso dia", em vida
que corre se eternizando em (tua) poesia!...
Amei ler!!
beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

e não é que o Poeta também pode ser marinheiro...

e assim se faz mar (a)mar de palavras...

um beijo

:)

Genny Xavier disse...

Se a metáfora do verso nos lembra outros poemas ou outros poetas... além dele, múltiplo de tantos, teus versos, neste poema de entrelinhas, também me reportaram ao instantâneo das minhas repetidas leituras para uns versos já tão conhecidos deste outro português que, tanto quanto a ti, admiro:
"É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.(...)"
(Eugénio de Andrade)

Deste lado de cá, meu beijo
Genny

Agostinho disse...

"Encobre-se o poeta em seu nome" no modesto fingimento... o que importa é saber-se da enseada onde lança ao fundo a sua âncora.
Muito bela a sequência de faces que toma o poeta ao longo do poema na superaçao da condição redutora do nome.

Carmem Grinheiro disse...

Bom dia, Herético.
Tão belo poema.
Sem que me restasse dúvida, poderia fazer deste poema um relato de mim, ainda que não seja poeta mas sendo peregrino. Peregrino na própria terra peregrino em outras terras. Marinheiro sem leme, e de âncora perdida algures no alvoroço das ondas.
Magistral.

abç amg