domingo, janeiro 17, 2016

FRAGMENTOS XVI - A Saga do Assobio (ainda)


Pois é, Maria Adelaide, no parto da escrita, nem sempre o óbvio é certeza, nem o percurso das palavras segue o carreiro, antes é voo desgarrado, despenhadeiro de águas desconhecidas, ou aguilhão inesperado ou gota de suor a encavalitar-se na fronte, de que não há maneira de fugir. Deixemos, por isso, que as palavras fluam, sigam seu registo volátil, marcas desamparadas e ténues que não resistem ao mais leve torpor, e nos encaminhemos, sem resistência, conforme os desígnios ocultos desta “mão invisível” (não dos mercados – hélas!) mas a mão que nos guia no entendimento das coisas e nos desvenda, sob os diáfanos véus da palavra, o mais íntimo de nossas pulsões.

Aceitarás, por isso, embora a contragosto, que, em vez da anunciada e crepitosa “Papa Alferes” e de sua tia, a narrativa siga seu desordenado percurso e, em vez da virginal menina e da solicitude extremosa de sua devota tia, ou de seus “afrontamentos” estampados no rosto, que vinham à superfície, rompendo os cremes no ímpeto da empolgante missão de defesa do “tesouro” familiar, trancado no mais intimo e secreto cofre, alvoroçado, porém, tal tesouro, pelos “calores” húmidos da trigueira menina que, diga-se, o mesmo secreto “tesouro” ficava um tanto ou quanto desguarnecido pelas suas curtíssimas mini-saias e os opulentos seios, aceitarás, dizíamos, que em lugar da menina Gertrudes, famosa “Papa Alferes” e sua tia, a narrativa venha desembocar no “Bonanza”, cuja presença e desastrado equivoco na pastelaria da Rua da Escola Politécnica, aliás, ao arrepio de tua nódoa negra e da decisão de teu divórcio, tanto te perturbaram, bem assim como a familiaridade a que se permitiu, sabendo nós que as distâncias sociais se medem pela sobranceria e pela frieza de trato e não por aquele abraço de quebrar ossos de dois velhos camaradas de armas, ainda que ele Alferes, na disponibilidade militar, e o “outro” cabo radiotelegrafista “na peluda”, operário e “reguila alfacinha” que, qual “samurai” dedicado, não apenas baptizou, como “adoptou” o nosso conhecido “Assobio” e, quotidianamente, perante o mal disfarçado entusiasmo do Alferes, então ainda “Aspirante”, e o monóculo caído de espanto do capitão Mascarenhas velou, com desvelo fraterno, pela recuperação, como recruta, do “apoucalhado” amigo, agora irmão de armas.

Sem a resiliente acção do “Bonanza” e de seu grupo de reguilas alfacinha do Bairro de Alcântara, jamais o “pobre de espírito”, que chegou à recruta militar, com três dias de atraso, como encomenda extraviada e agora ostentando o garboso nome de “Assobio” teria alcançado a suprema distinção de servir na messe de oficiais, emoldurado, como um envelope lacrado, num libré branca e dragonas vermelhas. Foram eles, o “Bonanza” e seus compinchas, que abriram a gazua do desabrochar do “Assobio”, numa genuína troca de serviços, resgatada da fatalidade dos Mercados e na qual a opinião dos economistas nada conta, ele, pastor de ovelhas desde a mais tenra idade, esmerando-se no melhor de seu talento de assobiador, imitando a passarada da Serra da Gardunha, na fruste tentativa de constituir com os seus camaradas um naipe de brilhantes assobios e eles, grupinho de reguilas alfacinhas, ensinado e treinando, treinado e repetindo sempre, no tempo livre, ou à noite na caserna, como se a “construção” do “Assobio” fora minuciosa execução de uma nova “composição tipográfica”, tentando e repetindo, ensinando a mão esquerda e a mão direita, efectuando vezes sem conta a “meia volta, volver!”, com toda a “cagança” da Cavalaria, o “apresentar armas” ou a marcha em “ordem unida”, a aplicação da “solarina” no brilho dos metais, a limpeza da velha Mauser e o afinar das correias na farda, o brilho das botas e o uso do pente e do garfo e da colher, pois que militar de cavalaria pode apresentar-se com mãos sujas, mas as botas e arreios devem brilhar e cabelo, sem um milímetro que seja, fora do bivaque.

De tal ordem foi profícua a acção resiliente do grupo de reguilas alfacinhas que, a breve trecho, o “Assobio” enfileirava no pelotão como peça de um relógio devidamente afinado.

Porém, não há “bela sem senão”! E em toda a humana criação há sempre um “quid”, um quase-nada, um grão de areia, um sopro maligno, um inesperado movimento, um capricho de Deus omnipresente e criador de todas as coisas, uma falha da Natureza ou um amuo na fermentação do barro de que somos feitos e o esplendor da obra perfeita decai no absurdo da mácula e da impureza das formas! Que o diga o grupo de reguilas recrutas de Alcântara, com o "Bonanza" à cabeça, que na realização da sua obra-prima e a fecunda transformação de um “apoucalhado” pastor de ovelhas da Serra da Gardunha, que chegou ao quartel com três dias de atraso como encomenda extraviada, claudicou como uma estátua sem forma. Para que serve um soldado, carne para canhão na guerra colonial, se não consegue dar um tiro?...

Assim o “Assobio”!... Finalmente, tão bom como os melhores, por obra e graça do “Bonanza” e de seu séquito, na marcha, na parada, ou na ginástica de “aplicação militar”, ou em quaisquer outras performances militares, o “Assobio” revelou-se um colossal desastre na carreira de tiro. A cada “coice” da velha Mausar no ombro, o “Assobio”, em cada disparo, largava a arma para tapar, com as mãos, os ouvidos e, em cada estampido de bala, a espingarda para um lado e ele, “apoucalhado” arvorado em “Assobio”, tombava para o outro, a tremer e espumar como um danado, acometido de inesperada agitação física.

De nada valia, nem os apelos angustiados do “Bonanza” e sua camarilha de reguilas, nem as palavras de estímulo do Alferes, “aspirante” a oficial que então era, nem a infinita solicitude dos “cabos milicianos”, futuros “furriéis”, posto em que seriam arvorados, a dois dias de embarcarem para a Guiné, nem o monóculo caído e as sobrancelhas franzidas, de dúvida, do capitão Mascarenhas, comandante da Companhia. Nada, absolutamente nada, nem ameaças, nem promessas conseguiram resolver o conflito íntimo e visceral do “Assobio” com as armas de fogo!

O “Assobio” era verdadeiramente incapaz de dar um tiro!...
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Mas que as Barcas façam seu curso! Deixemos o “Assobio” e sua saga. E regressemos a África. Breve que seja!...


9 comentários:

AC disse...

Ah, a saga do Assobio parece fadada em encontrar obstáculos, que nem mesmo um Bonanza parece resolver...
(Já tinha saudades do Assobio, confesso. A personagem está muito bem construída)

Forte abraço

Olívia disse...


Começo a temer pela vida do Assobio. Lançado, desse modo ingrato, aos leões.
Veremos como descalça a bota.

Bj.

O Puma disse...

Nesta África branca das Europas

que nas próximas urnas tudo fique mais claro

Abraço e venha o livro

Graça Pires disse...

Pois é, Maria Adelaide, desta vez tiveste de estar calada para que pudéssemos saber que o "Assobio" era incapaz de dar um tiro, o que eu pessoalmente achei uma qualidade... E concordo que "no parto da escrita, nem sempre o óbvio é certeza, nem o percurso das palavras segue o carreiro, antes é voo desgarrado"...
Um beijo, meu Amigo.

Jaime Portela disse...

Uma história deliciosa, num narrativa soberba.
Excelente, meu amigo.
Boa semana.
Abraço.

Agostinho disse...

Objector ou pastor de rebanhos?
Onde irá parar o assobio? Desconfio que ainda irá "disparar" uns tiros com precisão. Depende da pena e da tinta que lá puser a Maria Adelaide que irá exigir tudo tim por timtim.
A coisa promete...

Abraço

heretico disse...

O mundo é grande, meu caro! como tu bem sabes...
sabe-se lá, por isso, até onde poderá chegar o "Assobio"!...

porventura até alcançar o invejado status de "blogueiro" afamado!...

abraço

Suzete Brainer disse...

O início é a pura poesia descrita sobre
"no parto da escrita":
"Nem o percurso das palavras segue o carreiro,
antes é voo desgarrado, ou despenhadeiro de águas
desconhecidas, ou aguilhão inesperado ou gota de
suor a encalvitar-se na fronte, de que não há
maneira de fugir."
A Maria Adelaide como espelho da crítica,
reivindica o poeta na veia do escritor e
levando a narrativa para os caminhos dos sentires...
Ela é muito importante, serei uma defensora feminina
da sua voz feminina na viagem!...rss
O "Assobio" com certeza era o mais especial
da tropa, nesta sua incapacidade de dar um tiro,
existia toda uma singularidade e humanidade no
seu gesto de incompatibilidade com a violência!...
Meu passaporte carimbado para a viagem, Escritor (dos
Grandes) que se diz que não é escritor!...rss
beijo.

Jorge Castro (OrCa) disse...

Olá... há um discurso espiralado a recordar-me alguém... ainda que o «Assobio» se manifeste autónomo e bem pintado; um «Assobio» que se atira mas não atira tem de ser um ser de complexas vivências... ;-)»
Abraço.