quinta-feira, janeiro 14, 2016

MORDENDO A CAUDA...


No pórtico da Lonjura e da Distância
Onde a Palavra germina – febre e fio de água!
E o grão de areia explode – quase-nada!

E as esferas se movem. Surdas.
Frias e eternas. E absurdas em sua eternidade...

Nesse indefinido lugar onde todos os possíveis
Se resgatam. E outros tantos colapsam. Sem memória
Que nos diga. Nem sobressalto que nos valha...

Nessa tensão desesperada entre a euforia do Ser
E a neutra alvura do Nada...

Nessa oculta razão das coisas
Em que – dizem-me – os deuses se recriam
Em interminável jogo de dados...

Nessa tatuagem dos dias
Em que apenas os nomes são árvore...  

Aí nesse fogo sem lume
Esculpo minha circunstância - de palavras e cinza!
E me digo. E desdigo - mordendo a cauda!...


Manuel Veiga   

11 comentários:

Batista Filho disse...

Tenho encontrado dificuldade para comentar. Estou numa região sem energia elétrica convencional. Normalmente uma vez por semana ligo o gerador para carregar baterias...
Os teus dois últimos poemas me tocaram por demais.
Um abraço fraterno. batista filho

Janita disse...

Um mundo ardente e explosivo, germinou na sua mente e deu vida a este belo Poema.
Quem me dera conseguir, nem que fora numa imitação tosca, desdizendo-me na tentativa frustrada (certamente) de morder a própria cauda!...:)

Beijinhos, Poeta!

mixtu disse...

entre o ser e o nada
há que esculpir...

Agostinho disse...

Perfeitamente dito, Poeta.

Palavras cinza palavras cinza...
O movimento dos astros erode
o espaço nosso em permanência.
É nele que a chama acende
a esperança de liberdade.
E quem não morde nesta vida circular
no ciclo interminável das esferas?

BFS

Suzete Brainer disse...

Pois, Poeta. A vida é esta incerteza circulando nos dias,
em horas ("neutra alvura do Nada...") ou a entrega ("a euforia do Ser)...
As vezes, uma longa falta de neutralidade, mesmo no preto e branco
das certezas feitas de rotinas e caminhos retos. Acredito nas curvas,
elas exigem o voo da não desistência de Ser e neste sentir
pleno e instantâneo da Poesia:

"Nessa tatuagem dos dias
Em que apenas os nomes são árvores..."
Na tua Poesia, as palavras vão mais além,
quem sabe (?), além do Poeta (?), além da cinza (onde
morre os sentidos) e transcende para uma beleza da Arte!!

Mar Arável disse...

Sopro as cinzas
para melhor ver as tuas pedras
esculpidas
numa folha de papel

Abraço poeta das amplas claridades

© Piedade Araújo Sol disse...

a euforia
a não memória
e o nada

tantos trilhos, tanta cinza que o que se diz, por vezes se desdiz e no final nem o nada resiste

muito bom!

;)

um bom fim de semana.

beijo

AC disse...

Que dizer, meu amigo, perante o fulgor das palavras? Leio e fruo, apenas fruo...

Forte abraço

Jorge Castro (OrCa) disse...

Mais uma belíssima «malha» que lanças com mestria...

jorge esteves disse...

Afinal, é 'entre a euforia do Ser e a neutra alvura do Nada', que se escreve uma Vida.
Só me é mistério a justeza dos adjectivos...
(e olha que se este teu escrever não é feito de tinta permanente, não sei o que então será)
Abraço, amigo!

jorge

Salete disse...

entre a euforia do Ser
E a neutra alvura do Nada, há um caminho longo para percorrer...

Um poema inquietante e uma bela reflexão sobre a vida e a escrita.

Beijinho.