quinta-feira, abril 21, 2016

A MULHER DE VERMELHO...


“Rasgam-se as cortinas e sob o foco a Mulher
Esguia como o tempo liberto como o  punho
Erguido ao céu da praça cheia e às canções!
Maiakovski grita em métricas guturais

“Abram alas ao futuro que perpassa nas dobras
 Do manto vermelho!...”

A Mulher inclina-se em dignidade soberba
Segura nas mãos a flor dos dias e nos olhos
O fervor prenhe de lonjura e de distância
E a palavra ousada nos lábios escarlate
Como a túnica...

Em baixo uma criança negra soletra liberdade
Nas pétalas desfolhadas do cravo rubro
Que a mãe lhe dera com o leite...

E o pai sorri com os imaculados dentes
Da fome! Com o grito! Com a guerra!
E ergue o punho à mulher de vermelho
Que o acolhe no seu seio de cristal...

E o devolve ao Povo acumulado na praça
Num gesto de febre
E luta...

Viva a Liberdade!”

Manuel Veiga

POEMAS CATIVOS – Poética Edições – Lisboa 2014



11 comentários:

Majo disse...

~~~
Nem tudo que parece, é autenticamente Liberdade.

Um soberbo poema de memórias, muito pertinente...

~~~ Beijo, Poeta. ~~~

© Piedade Araújo Sol disse...

um poema a lembrar memórias
uma música que fica no tempo
e logo será Abril
e logo será Maio

muito belo Poeta

bom fim de semana.

beijo

:)

José Lopes disse...

A Liberdade é um bem a que já poucos dão a devida importância, espero que não seja necessário perdê-la para que se passe a dar o devido valor...
Cumps

Luis lourenço disse...

Um abraço, Meu caro herético.
Apreciei a música e a profundidade do poema...

Viva a Vida e a Liberdade que a fortalece e a força do trabalho que a alimenta e a poesia que lhe renova a esperança.

Suzete Brainer disse...

Que belo poema louvando a liberdade,
uma bela imagética para a liberdade:
"A mulher de vermelho..."

Sem liberdade não há uma construção evoluída e
nem uma construção de um alicerce de igualdade!...

A música belíssima e tocante neste momento do
meu País tão triste no sufoco de uma liberdade (democrática).

Muito grata por esta partilha, Poeta!

Jaime Portela disse...

Viva a Liberdade.
Sempre.
Grande poema, parabéns.
Bom fim de semana, caro amigo Veiga.
Abraço.

José Carlos Sant Anna disse...

É não deixar a liberdade dissolver-se...
É nela que desejamos adormecer e sonhar.
Um excelente mote para saudar o Dia dos Cravos!
Um abraço, poeta!

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Herético.
Mais uma bela criação. "O fervor prenhe de lonjura e de distância" - tantos lutaram e morreram sem esta liberdade que tanto custou. Hoje custa o esquecimento, não merecer a glória, não a de medalhas e faixas condecorativas, mas a memória do homem comum, que não sabe o que é viver na sua ausência.

abç amg

MARILENE disse...

Liberdade... o sonho, o objetivo de tantas lutas, o romper de correntes. Em todas as partes do mundo é desejada e não se pode perder o que, com sangue, já foi conquistado. Não é algo que se guarde por se julgar ter, eis que sempre será ameaçada. Belíssima escolha musical. Abraço.

Laura Santos disse...

Bela referência ao Maiakovski.
A palavra ousou, o ideal ousou. O ideal não morreu, mas a palavra enquanto espelho do real, acomodou-se. Mas continua viva na voz de alguns poetas. E os cravos precisam ser regados.
Viva a Liberdade!
Excelente poema.
xx

Agostinho disse...

... "o que eu passei para aqui chegar"!
Soberba mulher, soberba cor.
E já Maio aí vem.

Abraço