domingo, abril 03, 2016

FRAGMENTOS XIV - Quem Pediu a Maria Adelaide?


“Como tu te comprazes, Manuel, a compor as imagens a que te afeiçoas, como artesão que molda no barro as figuras canhestras a que dá forma bem sabendo ambos, tu e eu, que a Memória não é retracto, nem figurino que se encomende, nem ordem a que se vergue o pulsar da escrita, nem o Tempo é uma lanterna mágica, que tudo ilumine na luz crua da vida, mas antes matiz ou caleidoscópio, onde, cada vez que se espreita, as cores se cingem a novas empatias e novas linhas lhe definem o desenho, sempre imponderáveis. Como sei que tu sabes, porque tu me disseste, ou ajudaste a ver, surpreendo-me ainda mais, com este teu remoer circular, de tempos e modos tão diversos, pois que afastada a ideia mesquinha que muitos dos teus leitores (“se leitores houver”, dirás tu) irão alimentar que este teu exercício de memórias, mais não é que auto contemplação narcísica de teus “egrégios avós” – perdoa a ironia – e de teus “heroísmos” precoces, o que afinal mais não representa que as normais “passas do Algarve” que cada um de nós passa na adolescência, no processo de crescimento e afirmação social; não se encontra, por isso, explicação para este teu ruminar lento e redondo de folhas mortas de um calendário que jaz amarelecido.

E depois este apego teu a uma escrita sem forma, volátil, que despejas sobre quem ousa o segundo parágrafo, com o pretexto da banalidade literária, de uma “narrativa sem sujeito”, que certas vanguardas, em devido tempo, proclamaram como “salvação” da literatura, quiçá do Mundo, torna-se entediante. O Mundo não quer salvar-se e a literatura, que procuras é quase tão frustre como o passado em que teimas a matriz.

Já não há inocência no Mundo, meu querido.  Cada um por si e pela glória de cada prazer desfrutado e, de imediato, descartado, na pulsão devoradora do insaciável momento. Quem pois terá pachorra para te ler a sério, neste mundo feérico de mil escolhas e tão sugestivos prazeres ao alcance de um passo, ou até de um clic?

Cuida-te, meu querido amigo.

“Atalho o teu discurso, Maria Adelaide, no mesmo tom de ironia, de mim tão bem conhecido, pois sei, como ninguém, que essas “pérolas” de sabedoria com que dardejas os meus escritos, aliás - reconheça-se! – sempre em teu gracioso dizer, afinal mais não são que pretextos para desdenhares, gostando, como se meus textos fossem guloseimas coloridas que destapas e te seduzem, mas que preferes não saborear, num gesto de menina traquina que se faz rogada, mas que passado o momento da provocaçãozinha, come com gula pecaminosa.

Que queres que te diga, minha querida? Que me desdiga? Que bata com a mão no peito e me cubra de cinzas, lamentando o mau passo de escrita e reconheça, publicamente, antes de arder em auto de fé, a autoridade da senhora Dr.ª Maria Adelaide, licenciada em Línguas e Literatura Moderna na análise literária? Mas tu sabes muito bem, minha querida, que as nossas divergências são de superfície e que toda a minha narrativa, por mais desordenada que se apresente, nos tempos e modos percorridos, ou por mais voláteis que te sejam as palavras e a “irrealidade” dos sentimentos e comportamentos, tu sabes, Maria Adelaide, que és o veio e a seiva que alimentam a minha escrita e esta narrativa que, sem rebuço, dizes entediante.

Pois dir-te-ei que se autor houvesse tu serias ficção, personagem privilegiada, naturalmente, pois que, sendo única, ocuparias, no plano da narrativa, o lugar nobre da figuração do coro, como acontece nas encenação das tragédias gregas, que para além de dares “passagem” aos diversos quadros em que desenvolvem a dramatologia funcionarias também como “um espectador ideal que se responsabiliza pelo equilíbrio das emoções e pela moderação do discurso”. Então sim, brilharias como o teu pezinho de cetim e bailado, tantas vezes te requer...

E, minha querida, mesmo que “tambolho da escrita” – ainda que lúcido, hélas! – seria fácil ensaiar uma narrativa, como deve ser, com sujeito, predicado e complemento directo e o tempo e modo bem alinhadinhos, (primeiro, o “antes” e o “depois” ... depois!), na qual encenássemos os momentos mais quentes da tua casa de praia em cenas tórridas e houvessem cenas de traição e vingança e ciúme e crime, está bem de ver, e até droga, porque não? e então tu serias vedeta a sério, sabe-se lá se como direito a entrevista em todos os suplementos culturais (ainda existem?) ou capa de um jornal de referência. Mas assim alinhadinhos, basta-nos as narrativas de telejornal (e as telenovelas também, Maria Adelaide, onde espreitas de vez em quando), ou a filas paradas na AE 5, ou nas linhas de montagem da fábricas falidas, ou nas filas para o subsidio de desemprego e a sopra dos pobres, ou , ou...

Ou então poderíamos, fazendo bom uso do “pendor neo-realista” que dizes este teu amigo possuir, fazer-te personagem de uma causa nobre e grandiosa, não direi Madre Teresa, porque te faria lembrar o colégio de freiras, nem a Catarina Furtado, está bom de ver, porque naturalmente é um “icon” da portugalidade moderna, mas deixa lá ver, talvez Embaixadora para a Erradicação da Net do Insulto Anónimo Cobarde e Soez - uns valentões na sombra (ou valentonas, ou talvez nem carne, nem peixe, que isto de sexo, anda por aí muita promiscuidade).

Mas considerando bem, nem isso. O teu belo narizinho arrebitado não aguentaria tamanha miséria moral, nem o fedor a pocilga, por “montanhas” do “teu” Fabergé que despejasses sobre o corpo. 

Não tiveste pois sorte, minha querida Maria Adelaide. Nem nos amores ou desamores de que te não salvei. Nem na figuração que te calhou nesta mal cerzida narrativa com “passada mais longa que a perna” (onde já se disse isto?), narrativa circular, redonda, obtusa, assumidamente narcísica. Se autor houvesse e o tempo fosse, tu serias vedeta...

Assim somos, tu e eu, aquilo que (não) somos. Ou a persona em que encenamos as nossas vidas, que não sendo, são e não sendo, se dizem. Não para se comprazerem ou para se lamentarem, mas como testemunho livre da escrita, ainda com odor a placenta, por vezes doendo, outras com o rosto inocente das palavras inesperadas ou das veredas que se rasgam, quando se julgava apenas atalho. Assim se querem estas “estórias”, sem ponto de equilíbrio, navegando pelas palavras, que vidas foram, como quem caminha sobre um fio-de-prumo a ligar os diversos tempos”.


Voltemos a África, Maria Adelaide em busca de espaços amplos. E respiremos... 

8 comentários:

AC disse...

Maria Adelaide em contraponto. E o escritor, a tudo sensível, ousa albergar, no seu bornal, a complexidade humana. E que bem o faz!

Abraço

Suzete Brainer disse...

Não concordo com a doutora Maria Adelaide (personagem)
sobre a literatura, sou uma apreciadora de um estilo
literário, claro que aprofundado nas raízes dos
conhecimentos linguísticos.
Agora, ela, é um personagem superior e essencial
no espaço que ocupa na história da tua viagem.

O teu estilo, Grande Escritor, fico a ser repetida,
as palavras gastas diante do meu encantamento da
construção da tua original narrativa.

Por isso, sempre grata de poder, aqui, continuar
nesta tua viagem, fragmentada e ao mesmo
tempo tão inteira no cenário da tua história.

Graça Pires disse...

"Já não há inocência no Mundo, meu querido. Cada um por si e pela glória de cada prazer desfrutado e, de imediato, descartado, na pulsão devoradora do insaciável momento."
Fui eu que pedi a Maria Adelaide. Tornei-me cúmplice dela... Gosto do que ela diz...
Quanto a ti, meu amigo, fazes bem em nos trazeres a tua escrita lúcida com memórias que são tuas mas podem ser nossas...
Um beijo.

heretico disse...

Suzete,

A tua presença amiga e os teus comentários sempre atenciosos e argutos são um privilégio.

Desejo e espero, por isso, que sempre te sintas bem neste blog . a Maria Adelaide, que me consta serem "intimas", ficará certamente também muito feliz ...

beijo
......................................................

Graça,

com a amizade de muitos anos, um beijo pela "cumplicidade" com a Maria Adelaide.

Jaime Portela disse...

Haverá quem desdenhe e goste da tua narrativa. Eu não desdenho, mas gosto muito.
Boa semana, caro amigo.
Abraço.

Mar Arável disse...

... e assim ... ao correr da pena
vais desenhando memórias vivas
recriando com engenho e arte
numa escrita original que partilhas
para meu agrado em todos os apeadeiros.

Abraço meu caro amigo

Graça Sampaio disse...

Muito bem escrito, com a ironia certa (ou seta?) - não consigo, porém, a empresa ingente de ler toda a saga... Sorry...

Agostinho disse...

O autor é exímio a contrapor de forma ardilosa extensa e densa argumentação no confronto com a dr.a Adelaide. Veremos como se desenvolvem ou quebram os laços entre os dois.
Abraço.