domingo, maio 22, 2016

MEU AMIGO ZECA, EMPRESÁRIO..


O meu amigo Zeca, solteirão impenitente, alentejano de Beja, economista do Quelhas e protector de donzelas desvalidas, esteve, no início da carreira, em risco de “ter uma vida boa”, não fora a atracção desmedida pelo sexo fraco, ou talvez mais exactamente, não fora o irresistível fascínio que derrama sobre tudo que é saias. Ironicamente, foram o sapato apertado de uma octogenária senhora e seus sofridos joanetes a causa da sua desgraça, como noutra ocasião vos irei contar, se vier ao caso.

Posto no “olho da rua” da empresa pública, onde, com rasgada visão de futuro, era assessor da administração, o Zeca teve que se virar... Viveu uns tempos dos rendimentos familiares, mas um homem não pode ficar parado toda a vida. Como bem se sabe, a evolução da espécie humana tem sido caprichosa e injusta: o homo faber acabou por dominar o homo eroticus, até mesmo nas naturezas mais refractárias, como é o caso do meu amigo Zeca...

Enfim, depois de uns tempos “à vara”, que é como quem diz, sem outras responsabilidades que não fosse apascentar suas pulsões predadoras, decidiu o Zeca voltar ao trabalho, agora por conta própria, pois era para meu amigo ponto assente, em laudas de juramento lavrado, que “filho de puta nenhum lhe daria mais ordens, nem teria tomates para o despedir...” (sic).

Foi assim que nasceu a pródiga empresa de consultadoria, de que o meu amigo Zeca é sócio fundador e gerente único e cujo volume de negócios está em proporção inversa à respeitabilidade da barriguinha do meu amigo. Quer dizer, agora com o pendor femeeiro mais amaciado, quando a liquidez da empresa o permite, o Zeca relaxa na culinária e na borga e, então, a barriga entra em espiral inflacionária ou, em momentos de crise, com o stress do trabalho, o arredondado da barriga reduz-se à expressão de normalidade mais simples...

Foi, num desses momentos de gloriosa euforia, a última vez que estivemos juntos, no seu espaçoso apartamento debruçado sobre o Tejo, com mais uns pândegos da trupe da Universidade. À volta da mesa, como se deduz, trucidando uns borrachos, que o Zeca sabe estufar como ninguém...

Então, já na fase dos charutos e do conhaque, o Zeca saiu-se com uma das suas hilariantes “estórias”, de que vos dou conta, bem sabendo eu que a cor e o tom se irão perder no percurso entre viva loquacidade do Zeca e a escrita sensaborona a que me acorrento...

Um certo grupo empresarial, a que a empresa do meu amigo Zeca presta apoio na área de auditoria e da fiscalidade, decidiu dedicar-se às energias renováveis, na mira dos propalados apoios comunitários. Feitos os estudos e avaliado o projecto, a que o Zeca esmeradamente se dedicou, foi decido que a fábrica seria instalada no norte do País, por razões óbvias do preço da mão-de-obra e outras vantagens. Escolhido o local, havia que negociar com o Município apoios e contrapartidas. Na data acordada, depois de contactos prévios, luzidia comitiva, ida de Lisboa, deslocou-se ao município em causa, chefiada pelo “chairman” do grupo, um vulto destacado da política e dos negócios...

Dispenso-vos da colorida discrição que o Zeca fez do roliço presidente da Câmara, afiambrado no casaco azul com botões de metal e o inevitável lenço de seda, a aconchegar a dupla papeira. Digo-vos, porém, que antipatia foi fulminante, uma espécie de “coup de feu” invertido, a roçar o verdete da náusea...

Feitas as apresentações, perante o acentuado sotaque alentejano (que aliás o Zeca cultiva com prazer), o Presidente da Câmara, numa prosápia de gelar o amplo salão, fez uma qualquer alusão de mau gosto a moiros e ciganos, que ainda infestam o sul do País. Ora, o Zeca não é homem para se conter, mas não teve tempo para espingardear a resposta adequada. O chairman, com um sorriso felino a rasgar-lhe a face, antecipou-se. Dirigindo-se ao Presidente da Câmara:

- “Mas olhe, senhor Presidente, que aqui, pelo seu Concelho, não faltaram moiros; e, se bem observar, ainda é capaz de encontrar algum por aí disfarçado...”

- “Moiros aqui? No meu concelho? Nunca!... onde raio o senhor foi desencantar semelhante ideia?!"...- apavorou-se o Presidente.

Nessa altura, já o ambiente estava mais distendido. E o chairman, apontado para a bandeira do Município, imponentemente exibida, entre a bandeira da República e a bandeira da União Europeia:

- “Basta olhar para a bandeira do Município...” – sublinhou, alargando o sorriso...

E o outro, a ficar apopléctico:

- “A bandeira do Município? Mas que tem a bandeira?

- “Não tem nada que não deva, senhor Presidente! É aliás – acrescentou diplomático – uma bonita bandeira! Mas não deixa por isso de ostentar, no brasão, o crescente muçulmano!...”

E, com a gargalhada a estender-se pela sala, rematou:

- “Ora, se os moiros não andaram por este concelho que faz o crescente muçulmano nas suas nobres insígnias?"...

Aquilo era demais, convenhamos - virem, assim uns bárbaros sulistas a dar lições de história local!... Suprema humilhação!

O distinto Presidente, como quem apanha um murro no estômago, titubeou, mas não se deu por vencido. Saiu da cadeira, sibilando – “essa agora, essa agora!”. Fez minuciosa análise à bandeira e, perante a contrariedade da evidência, saltou para o telefone e, ante a perplexidade dos circunstantes, exclamou:

- “E eu que nunca tinha dado por isso!...Mas já vou tirar tudo a limpo”...

Bamboleando as nádegas, tal odalisca fora de prazo, o Presidente atravessou a sala em direcção ao telefone. Do outro lado, titubeante, o vereador da Cultura replicando à pergunta inesperada:

- “Moiros?!... Se houve moiros no concelho?!”- titubeia o vereador.
- “Sim. Moiros no concelho!... Que sabes tu disso?!...” – insistiu ansioso o Presidente.

E tapando o telefone, enquanto aguardava, expectante, a resposta que se adivinhava frustrada, o Presidente alargou o olhar aos circunstantes e, em desabafo contido:

- “Tanto que me bati para nomear este gajo como vereador da Cultura e querem ver que não sabe se existiram moiros no Concelho...”

E, de facto, depois de uns momentos de silêncio constrangedor, pressentindo-se em ebulição os (parcos) neurónios do vereador, chegou a resposta, embrulhada em titubeantes desculpas: que não, que não sabia! e nem nunca lhe constara terem havido moiros no Concelho... Mas se ele, Presidente, assim o desejasse, dentro de momentos a Dr.ª Filomena, directora dos Serviços Culturais, estaria na sua presença para completa elucidação do assunto.

- “Manda-me cá essa gaja... “ - ordenou o Presidente, em voz de falsete e tom desabrido, suspeitando-se pelo esgar a enorme contrariedade que a presença da Directora lhe provocava.

Ainda o charmain insistiu, cerimoniosamente, ansioso seguramente por entrar no assunto que ali os trazia para o "Presidente não se incomodasse..., que não valia a pena... que por certo a Presidente tinha toda a razão e que nunca por ali houvera moiros... que a sua leitura das insígnias municipais assentava, por certo, nalgum equívoco de alguém que não era especialista...”:

Mas o Presidente foi peremptório:

- “Não! Agora faço questão! Este assunto tem que ficar esclarecido. Eu não sou homem para deixar para depois o que pode ser resolvido já!... “

Entreolharam-se os circunstantes, aceitando o destino com bonomia, bem sabendo eles que se “Paris vale bem uma missa” também os interesses económicos em jogo justificavam os desconchavos de um Presidente da Câmara...

O silêncio, cortado pelos olhares cruzados e os sorrisos contidos dos visitantes, foi entretanto interrompido por um discreto toque na porta e a entrada triunfal da Dr.ª Filomena, uma balzaquiana espampanante, emoldurada em tailleur laranja, sobre o qual se derramava uma opulenta cascata de cabelos negros, longos e encaracolados.

Afogueada e empenhadíssima, no alto de seus tacões, lançou sobre a sala, povoada de ilustres forasteiros, soberbo olhar famélico, em jeito de leoa que, na floresta, tivesse detectado, plena de lascívia felina, a novidade da caça... “Uma lua crepitosa em noite quente e plena de Agosto”, como o Zeca, em arroubo poético, distinguiu a aparição!...

Porém, sobre “quarto crescente” nas insígnias municipais, a Dr.ª Filomena prestou uns esclarecimentos confusos. Que talvez sim, ou talvez não, que a única hipótese admissível era a de que os cruzados, nos tempos da reconquista, terão atravessado o concelho; ora, como se sabe, onde há cruzado há moiro, logo é possível que ...

Nesta fase da erudita explicação, quiçá prolixa, o Presidente pigarreou e, sardónico, soltou o chicote de seu falsete, zurzindo, impiedoso, o denodado esforço da Dr.ª Filomena que, com manifesto prazer, exibia seu charme e sua erudição...

- “Ó doutora, deixe lá essa treta dos cruzados!... A questão e simples e clara: houve ou não moiros no concelho? É que se não esclarece esta magna questão, a mim e aos nossos visitantes, terei de concluir que não passa de uma burra com saias...”

O silêncio, até então oscilando entre o divertido e o enfado, gelou. A “pobre” doutora ainda ensaiou uma desculpa qualquer e, em sua fragilidade de vítima de um mais que evidente erro de casting, teve a ousadia de invocar a penúria do orçamento municipal para actividades culturais.

Antes o não fizera:

- “Ó sua... ó sua... incompetente! Pois atreve-se?!...” - casquinou o Presidente, qual cascavel cuspindo veneno - “eu não lhe admito, ouviu?! ... As minhas ordens são para cumprir, não para discutir!...”

E, colérico, com o dedinho roliço espetado:

- “Trate de saber imediatamente se houve moiros no concelho, antes que a reunião termine e estes senhores partam. Era o que me faltava!...”

E, descorçoado, atirando-se para o presidencial cadeirão: - “Estou rodeando de incompetentes!...”

Era demais!... Como poderia o Zeca, fulminado que fora pelos "crepitosos prenúncios" do vulcão pronto a explodir, aceitar o vexame aquele soberbo exemplar do “sexo fraco”?

Reagiu, portanto...

E perante a surpresa dos presentes e a apreensão do chairman, que sobretudo velava pelo bom resultado da diligência que ali os trazia, o Zeca insinuou-se .

- “Ó senhor Presidente, tenho uma sugestão para resolver as preocupações, que nós inadvertidamente provocámos: o senhor presidente coloca no estandarte do Concelho o imponente menir que daqui se avista e nós levamos connosco a malfadada meia lua dos mouros.”

Referia-se o meu amigo Zeca a um desse monumentais falos pré-históricos apontados ao Céus, que abundam no país rural e que, no caso, decorava a entrada dos Paços do Concelho, ao alcance do olhar através da janela aberta.

A insólita proposta apanhou todos de surpresa. E intrigados entreolhavam-se. Apenas as longas pestanas da Dr.ª Filomena se moveram para o Zeca, num doce e cúmplice pestanejar, prenhe de promessas...

Entretanto, os sorrisos abriam-se, no rosto dos “bárbaros” visitantes sulistas. E, após fecunda ponderação, para pasmo dos presentes, o Presidente, confiando o queixo, exclamou em exaltada anuência.

- “Ora aí está uma sugestão a ter em conta...”

Depois de firmado o contrato, já de regresso a Lisboa, o chairman para o Zeca:

- “Francamente, Zeca! Você é um exagerado! Um menir, hã? Não lhe bastaria um bom boneco do Bordallo?! ...
.................................................
 Num encontro recente o Zeca anunciando-me que, no concelho em causa, as últimas eleições autárquicas foram ganhas mais uma vez pelo presidente de sempre. Que o contrato vai de vento em pompa. E que, assim, as suas visitas ao norte irão continuar.

Para proveito próprio e alegria da “competentíssima” Dr.ª Filomena que tem dado sobejas provas de seu talento...

Um sortudo, meu amigo Zeca, não acham?



4 comentários:

Odete Ferreira disse...

Uma pérola, esta narrativa! Com todos os ingredientes!
Eça, na atualidade e no contexto atual, não escreveria melhor...
Deliciei-me.
:) :)

José Carlos Sant Anna disse...

Sobeja a tua prosa. Primorosa. Como diz a Odete, nada faltou, todos os ingredientes estão postos.
Ler, reler e treler, pois vale a pena. É assim conhecemos os caminhos da pedra.
Forte abraço,

Suzete Brainer disse...

Uma Narrativa envolvente e na tua excelência
de Escritor que sabe o domínio do encanto
das palavras em cada respiração e o que
provocas no leitor.

Parabéns!

Agostinho disse...

Aliciante narrativa com abundância de personagens onde se destacam uma pestanuda cristã e um desencravador mouro. O presidente é um simples acessório que, mais dia menos dia, vai ser sacrificado no altar do menir.
Este Zeca dava um filme, pelo que já foi recitado...

Abraço