sexta-feira, julho 01, 2016

Um Pardalito Desajeitado ...


Há uns anos atrás tinha um "cliente" especial à minha janela, com quem mantinha um cumplicidade estranha...

Um pardalito desajeitado e ladino teimava em fazer-me negaças!... Com uma regularidade de fazer inveja, saltava para o parapeito e aprimorava-se a olhar-me em desafio. Se me levantava ou lhe falava arrancava de lá um grosso manguito e desandava...

Se me concentrava e fingia não lhe ligar, tratava de me provocar com um atrevimento inaudito!...
 
Suspendia então as teclas e os códigos e, de olhar bovino, impávido, fixava-me nas suas cabriolas; olhava-me então (pressentia-o terno) de cabeça inclinada, dava uma bicadas imaginárias, "amandava" uma substancial borradela e asas para que vos quero!... Como um risco de fogo, atravessava então a poalha doirada de um sol outonal, e entre guindastes e fios lá ia ele perdendo-se sobre o Mar da Palha!...
 
Depois desapareceu. Pensei eu que para sempre, embrulhado numa daquelas saudades maiores, que duram eternamente.
 
Estive, assim, anos seguidos sem mais o ver...
 
Apareceu esta manhã, novamente, à minha janela. Fazendo negaças, está claro. E deixando a monumental borradela.
 
Pareceu-me feliz. E juro que deixou tombar um sorriso na minha alma de poeta – seca e fria. Talvez para me lembrar que há amores eternos, que nunca se perdem...
 
E ainda por cima, com todo o desplante, deixou o poema que se segue:
 
Descem as águas em rios secos
Até à raiz de nada.

Apenas a enrugada terra
E a sequiosa greta
E a viçosa flor
Encantada
A espreitar
Lesta
Como
Se nada
Fora...

Ou sacrário
De vida
Resguardada:
Cópula de sol
Com gota de água...

E ansiada espera
Que a chuva
Cai-a
Agora.

Ma vie? Ça vá!...”
..........................................

Então não é que o sacana do pássaro sabe francês? Quem diria...
M.V.

 
 

 
 

10 comentários:

Jaime Portela disse...

Um post bem-humorado.
Com um pardal que sabe francês... voila...
Caro Veiga, tem um bom fim de semana.
Abraço.

© Piedade Araújo Sol disse...

Manel

que originalidade...gostei do texto e fechando com um poema tão belo.

e nem interessa se ele sabe francês ou não

:)

Suzete Brainer disse...

Bela e criativa prosa poética, uma encantadora narrativa.
Não fiquei surpresa do pardalito desajeitado falar francês,
agora ser poeta? Acho que ele fez o poema por telepatia
contigo, um grande poema dos grandes poetas.
Poeta pássaro? Acho que sim!

Adorei, meu Amigo.
Beijo.

Fê blue bird disse...

Um pardalito poeta, será que é meu parente (afastado), pois a sua poesia (francesa ou não) é bem melhor que a minha :))

Gostei bastante da originalidade desta apresentação.

Um beijinho com o desejo de um excelente fim de semana.



José Carlos Sant Anna disse...

Dizer o que, meu cara poeta?
Ainda bem que o pardalito não é um sol efêmero, é como "os amores eternos que não nunca se perdem".
Forte abraço, caro amigo!

luisa disse...

Nem fale em monumentais borradelas...
Por aqui, tenho dezenas de pardais que escolheram o meu telheiro para fazer ninho, escondidos nas canas. Como vê, é só fazer as contas de multiplicar para perceber o estado em que fica o meu pátio. É que se ainda me deixassem algum poema... :))

AC disse...

:))
Gostei da forma, desanuviadora, gostei do conteúdo.

Abraço

Tais Luso disse...

Com sua bela prosa retornei ao passado, onde um desses pássaros pousava em minha janela diariamente. Tive a infeliz ideia em alimentá-lo, pois achei que estava pegando amizade por mim. E fui comprar comida, seria alimentado diariamente, a vida lhe seria mais fácil. Seria meu filho adotado!
Pois não é que o bichinho nunca mais apareceu!? Até hoje cobro uma explicação... Talvez se eu tivesse escrito um poema teria ficado...rs
bj.

Parapeito disse...

Adorei...
Um pardalito que parla frances :)
Gostei do texto e do belo poema.
Abraço *

Benó disse...

O pardal faz poemas talvez por telepatia. Gostei de ler. Também tenho dessas visitas mas nunca me deixaram nem poemas nem prosa.Nem os melros, estes oferecem-me ninhos.