sábado, dezembro 03, 2016

Da Metáfora do Mundo


Bem no alto, no topo mais alto de todos os topos
Onde todas as bandeiras se desenham e os ventos
Flutuam abrindo espaço aos hinos e as espadas
São o faiscante sol das batalhas e as gloriosas
Demandas de todos os destinos e os passos dos homens
O pulsar ainda magma das cidades futuras e os mares
São o sonho líquido das montanhas e as caravelas
Um punho fechado de utopias desertas. Nevoeiro
E visionário rasgo de profecias alvoroçadas
E as pátrias são iniciático gesto e o ombro de escravos
E os dias se contam por mistérios.

E a música é planície
Sem topo e infinito silêncio maturado de mil ecos
E respiração das estátuas.

E todas as coisas falam
Do seu destino na linguagem primordial dos afectos
E das recusas e se moldam qual partitura de uma sinfonia
Sem maestro. E as palavras e as coisas se incendeiam
No mesmo fogo. E se dizem numa geografia de territórios
Íntimos. Verso e reverso da mesma fala. Trama de luz
E sombra a desenhar os invisíveis fios da memória
E as brumas da História.

Então o poeta demiúrgico embora é aprendiz de feiticeiro
E o poema não mais que desmaiado reflexo
Da grande metáfora do Mundo.

Manuel Veiga


11 comentários:

Jaime Portela disse...

E como seria o Mundo sem metáforas?
Eu não faço ideia...
Apenas sei que o teu poema é excelente.
Bom fim de semana, caro amigo Veiga.
Abraço.

LuísM Castanheira disse...

dos campos de batalha nasce a memorial memória...
e na geografia do poeta só as estátuas dos mortos, choram.
há toda uma envolvência no desenhar do tempo.
e o futuro é uma permanente incerteza.
fica esta sublime metáfora...
abraço, e bom fim-de-semana.
p.s. - obrigado pelo elogioso comentário.

LuísM Castanheira disse...

*Épico

SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e Outras disse...

Demiurgo de um universo
O poeta é um criador
Que não cria, mas por dor
Ou por amor faz seu verso

Que por caminho transverso,
Sem criar seja o que for
Transforma dor em amor,
Feio em bonito ou ao inverso

Faz o bonito tão veio
Tal Bocage - o receio
De poetas e da Arcada.

Sem criar, por algum meio
É capaz que em seu seio
Haja um deus que cria o nada.

Grande abraço. Laerte.

SILO LÍRICO - Poemas, Contos, Crônicas e Outras disse...

Demiurgo de um universo
O poeta é um criador
Que não cria, mas por dor
Ou por amor faz seu verso

Que por caminho transverso,
Sem criar seja o que for
Transforma dor em amor,
Feio em bonito ou ao inverso

Faz o bonito tão veio
Tal Bocage o receio
De poetas e da Arcada

Sem criar, por algum meio
É capaz que em seu seio
Haja um deus que cria o nada.

Grande abraço. Laerte.

jrd disse...

Grande e bela a metáfora que criaste Poeta.
Abraço fraterno

Tais Luso disse...

E a música é planície
Sem topo e infinito silêncio maturado de mil ecos
E respiração das estátuas.


Meu amigo Manuel, depois dos brasileiros viverem com tanta tristeza a tragédia na Colômbia, e ler esse lindo poema, tudo mistura-se num só sentimento de desolação, de solidariedade, de consternação. E por fim tudo se mostra tão triste. Inclusive um belo poema.

Beijos, amigo.

Ana Freire disse...

Uma vibrante e apaixonante metáfora...
E quem dera que o mundo, se fizesse entender na sua linguagem primordial de entendimento e solidariedade...
Felizmente temos os poetas... que ainda nos vão descodificando o mundo nas suas metáforas... apelando à nossa sensibilidade, para o entendermos...
Magnifico e inspirado trabalho, Manuel!
Abraço! Bom domingo!
Ana

Lune Fragmentos da noite com flores disse...

Tinha saudades de te ler... E que poema tão sensível vim aqui ler. A música suporte da tua imensa inspiração. Belíssimo.

"To send light into the darkness of men's hearts - such is the duty of the artist."

Robert Schumann

É o que levo...

beijo
(tentei agradecer tuas palavras em 'fragmentos' mas há uma anomalia que não permite publicar comentários)

Odete Ferreira disse...

Na transcendência do que nos é interdito, só as palavras são quase chave para dela nos aproximarmos. Mas só em poemas como este!
BJ, amigo 👐

graça Alves disse...

Novamente à volta da criação poética.
Parabéns por saber metaforizar o mundo!
bj