sexta-feira, outubro 27, 2017

FRAGMENTOS L


Apressemos então os passos, Maria Adelaide e desembaracemos de África, que a narrativa, em que nos fingimos vida, por nós reclama e pelas veredas da escrita havemos de chegar ao afago que fomos, reviver ainda alguns momentos colhidos em contramão e cujo eco ainda vibra, como acordes longínquas de uma sonata e a dolência do violoncelo, a desenhar, no íntimo, as emoções que foram e que ambos sabemos memória reinventada.

De resto, que fazemos em Africa? Temos nossas contas ajustadas com África, tu que a vida narrada de Dona Rosalinda te permitiu espreitar para a tua própria vida e resolver o enigma de teu nascimento, pacificando a tua angústia, permitindo-te sublimar o amor de mãe, que não tiveste, no amor de mãe que te preenche. E, de facto, que te importa a ti, Maria Adelaide, a Tabanca, a degradação da situação militar, os bombardeamentos cada vez mais frequentes e intensos, as operações de patrulhamento, os dias contados pelos dedos dos militares da Companhia de Cavalaria, a dois meses da “peluda”? Um universo de causar tédio, sem qualquer claridade que possa acrescentar entendimento aos lances desta narrativa, que já de si, dizes entediante. 

Deixemos pois África e evoquemos nossos passos, num tempo outro, de refluxo de promessas revolucionárias, ali à mão de colher, “um pouco azul e seria Céu”, tempos que se finaram “capelas imperfeitas”, e “revolução inacabada”, tempos assim, então, de refluxo e apascentação de ócios, num anódino Departamento da Administração Central do Estado, tu eras quem eras, que dizer, mulher de teu marido, a enfileirar, com algum sucesso, nas hostes do novo poder político e o Alferes, que alferes já não era, mas um jovem licenciado em Direito, comunista, a que o zelo apostólico-político do Director Geral, nem um papel na secretária lhe consentia que justificasse o horário e o vencimento e que, por isso, tal secretária e tais ócios, os meus e os teus, melhor foram ocupados, em vez dos burocráticos papéis, pela graciosidade da exibição de tuas pernas, quando, num gesto de distraída “coquetterie”, sobre a mesa te sentavas, inflamando o olhar e os sentidos de teu novel amigo, pária que fosse para o Director Geral, no entanto, para ti um “must”, que nunca conheceras um comunista “assim tão perto”, de tal jeito que se, de África e da guerra colonial houvera traumas, nessa tua dádiva e no encruzamento de nossas vidas (e descruzamento de pernas), tais traumas se evaporariam.

Sim, é verdade, por África nossa, de guerra e batalhas outras, travadas na luta corpo a corpo pela sobrevivência física e de superação anímica, forjando o carácter e arrostando riscos maiores que os medos, calando fundo afectos, rostos, lugares, pedras, cheiros e sons que eram os seus e ainda hoje permanecem como uma segunda pele, nessa dialéctica entre o que somos a aquilo em que nos transformamos, nesse indizível tempo de todas as esperanças, dele e dos outros, algumas bem mais largas que seus ombros, nesse fruste lugar da guerra e vidas roubadas, por essa África, Terra-Mãe ubérrima e madrasta de seus filhos, nessa macabra dança dos homens e seu destino, nesse acaso ou nesse acinte da sorte, nessa generosidade imaculada e nessa amizade impoluta, o Alferes perdeu o seu irmão de armas, que irmão de sangue nunca teve e cuja morte, a dois de dias de regresso, ficará para sempre como eco de uma balada (nunca cantada) e o gesto tão eloquente de “acender no seu, o meu cigarro”.

Adivinho-te, Maria Adelaide, sei que te escalda a pergunta nos lábios “mas para que serve agora, num momento em que é suposto abandonarmos África e a Tabanca este repisar de uma amizade, dita e redita, com o Valentim? Apenas o teu gosto de remoer, como serpente mordendo a cauda, numa insensatez amarga que te consome sem que nada possas fazer para alterar os dias ardidos. Há mais vida para além da vida vivida, apressa-te por isso, antes que fiques prisioneiro de ti próprio, dentro desse redemoinho em que te comprazes, quando a tua lucidez fica embotada na morbidez de uma culpa sem motivo. O Valentim morreu por que assim estava escrito, não por que, em teu lugar, se ofereceu a evitar-te uma situação, que ambos sabiam ser-te incómoda, sendo que tu próprio farias o mesmo, no caso de uma situação inversa. Esquece por isso esses momentos dramáticos da morte de teu amigo, que nada, nem ninguém pode desfazer, pois que vida é para sorver nos momentos bons e cuidar, sem amargura, os momentos maus! Anima-te, meu amigo, há um tempo, lá atrás, de um beijo suspenso e um livro roubado que exijo, nessa ardência de corpos, que então éramos.”

“Sim, sim, Maria Adelaide, voltaremos, breve que seja, aos lugares onde fomos felizes, a essa impetuosa entrega, a essa dádiva pagã de nossos corpos, a esse tempo sem tempo que fingimos e, fingido somos, no milagre das palavras em que nos inventamos. Mas antes deixa que escorra a ferida, como punção dolorosa, mas tão necessária, para sarar o sofrimento e, por escassos momentos, reinventemos, nas palavras em que nos jogamos, os últimos dias da Companhia de Cavalaria, em Bissau, de regresso a Lisboa.
Sem esses momentos de escrita, toda a narrativa seria maculada de traição a uma amizade e não seriam dignas de nós, nem palavras em que nos jogamos, nem os reflexos de vida, que nunca seremos”.

O “Quartel da Amura”, instalado na fortaleza com o mesmo nome, à entrada do Rio Geba, em Bissau, que, outrora fora entreposto do comércio de escravos, era agora entreposto de chegada e partida de tropas, mistura de insígnias e militares em trânsito, ostentando fardamentos diversos, conforme o destino de cada unidade militar, de “camuflado” os militares na eminência de seguirem para o mato, invejando, por antecipação, os que estavam de partida, outros, com farda de caqui, amarelo-torrado, ou seja, os militares em gozo de férias ou em trânsito para embarcarem rumo à “peluda”, misturados com o traje civil dos oficiais e sargentos, em regime de fim-de-semana, ou em gozo de férias, pontuada a diversidade de fardamentos, aqui e ali, por uma farda branca de algum marinheiro em qualquer diligência, ou, até mesmo, um ou outro oficial do Exército, envergando a farda branca, por uma qualquer razão protocolar.

Um verdadeiro bric-à-brac de fardas e atitudes militares, pois que, como bem se sabe, conforme uma paisaníssima regra, o que nos cobre o corpo, de cada um “fala”, regra de tal forma verdadeira que contamina o próprio status militar, certos de que na sociedade civil ou na sociedade militar, tal regra deslassa na exacta medida em que se sobe na hierarquia, no estatuto e no “lugar social”, em que cada um se veste (ou despe, também).

A dois dias de embarcar para Lisboa, a Companhia era pois viva excitação. Os Oficiais e Sargentos, libertos de obrigações militares que não fossem as de rotina e reduzidas ao mínimo, passavam as horas fora do quartel, vestidos à civil, apascentando as horas, bebendo cerveja e aqueles outros mais dados a fixar recordações, fazendo fotos e comprado souvenires. As praças, está bom de ver, seguiam percurso paralelo aos oficiais e sargentos, limitados, como é certo, à sua condição básica, isto é, obrigadas à autorização de saída e ao recolher obrigatório.

Também o Alferes, adjunto do Comandante da Companhia de Cavalaria, por acaso de graduação militar e herói a contragosto desta narrativa a fazer que anda mas não anda, qual cavalo em trote em picadeiro, conforme as judiciosas opiniões de Maria Adelaide, licenciada em Línguas e Literatura Modernas, também o Alferes, Adjunto do Comandante da Companhia de Cavalaria estava desejoso por se libertar da farda e apressar os dias da “peluda”, mas ossos de ofício são mesmo ossos, quer dizer, não há forma de os evitar que não seja roê-los, de tal sorte que o Alferes, enquanto seus camaradas de armas “queimavam os últimos cartuchos” quer dizer, despendiam os últimos “pesos” e as últimas horas, na moleza descontraída, das ruas de Bissau, colhendo as últimas imagens e arrecadando as últimas emoções de África, o Alferes, herói a contragosto desta narrativa, estava amarrado à sua condição e múnus de Adjunto do Comandante da Companhia, sobre quem impendia, em primeira instância, a elaboração de relatórios diversos, descrevendo a situação militar na Tabanca, que, depois de ler, reler e assinar o Capitão Mascarenhas levaria ao Comando de Batalhão e daí para o Quartel-general e também garantir a adequada apresentação das contas e espólio de equipamento e armamento, a cargo do 1º Sargento, Chefe de Secretaria, adjuvado pelo Furriel Miliciano amanuense, pois já se sabe que, subsidiários à carreira militar de Oficiais e Sargentos do “quadro permanente”, os milicianos, fossem eles graduados em Alferes, na classe dos oficiais, ou Furriéis, na classe de sargentos, seriam eles a roer os ossos de ofício, para glória do Exército e lustro da Pátria.

Não havia pois maneira do Alferes apressar a “peluda,” agarrado que estava, por dever de ofício e ordens expressas do Capitão Mascarenhas, aos exigentes trâmites e tarefas administrativo-militares, que o regresso da Companhia de Cavalaria a Lisboa, finda a comissão de serviço, requeriam com a força e a urgência das marés e das águas do rio Geba a marcarem a hora de embarque. E, no entanto, bem sabia o Alferes que, algures na cidade, passado o eixo de pouco mais que um quilómetro de via alcatroada, nas bermas do qual se erguiam umas moradias de tipo europeu, passada a Praça do Império, espaço ajardinado, dominado pelo Palácio do Governador, nessa zona de transição, metros adiante, onde a dominância branca acaba e o crioulo começa, se erguia, em sólida arquitectura europeia, a Pensão Estrela de que Dona Rosalinda, era proprietária e gestora única e que bem poderia ser graduada em “instituição de serviço público e quiçá condecorada com a Cruz de Guerra, tão relevantes os serviços prestados à Pátria, como depósito de ejaculações e sofá psiquiátrico que, qual penso rápido, se não cura, pelo menos conforta e esconde a ferida. Enfim, desejava ardentemente o Alferes despedir-se de Dona Rosalinda, não por qualquer apetite de suas carnes flácidas, mas por que o jovem Alferes não podia esquecer que a milhares de quilómetros do gineceu familiar, em que fora criado e dos cuidados e bênçãos de sua Mãe e de suas santas Tias, ambas solteiras e virgens e zeladoras do Santíssimo Sacramento, não podia o Alferes esquecer, que algures no Mundo, num buraco negro de sua vida, uma outra Mulher sofrida, mundana e generosa, amaciou seus dias, com desvelo e carinho, e o protegeu com suas devoções e saciou seu corpo e apaziguou seu sangue, e lhe deu ânimo e afectuosos conselhos, sem os quais os primeiros tempos na Tabanca seriam porventura marcados pelo registo da Derrota. Como poderá, pois, o Alferes, mesmo em memória calcinada e de recriação do tempo vivido, num tempo, que sem rebuço, se quer literário, como poderá assim, dessas mulheres, fazer escolha de afectos, se todas elas o quiseram como filho? “Que lindo és meu filho!...” assim o quisera Dona Rosalinda, na mesma maternal ternura de passar os dedos nos seus cabelos. Julguem o Alferes, todos aqueles que, do amor de Mulher, lhe espartilham as águas …

Andava, por isso, o Alferes descorçoado. Ainda tentou uma abordagem ao Capitão Mascarenhas, que cortou cerce “nem pensar nisso, nem duas horas nem cinco minutos, você Alferes Viegas, sabe muito bem que é aqui indispensável…”. O máximo que arrancou ao Capitão Mascarenhas foi autorização para o Valentim ir em seu lugar e poder utilizar o jeep, atribuído ao Comando de Companhia. “Se ele que ir que vá e pode levar o jeep, sim”, rematou o capitão Mascarenhas, remetendo-se de imediato a outro qualquer assunto.

E o Valentim, foi. Por razões de fraterna amizade e por outras bem suas, a que não eram estranhas, certamente as notícias de que Dona Rosalinda renovara o elenco de meninas residentes.

(Continua)


Manuel Veiga

6 comentários:

José Carlos Sant Anna disse...

Caro amigo Manuel,

Vim conferir as marcas deste percurso narrativo. Boa prosa, ecos do longínquo tão próximo... de quem conhece bem Rosalinda!

Forte abraço, caríssimo amigo,

LuísM Castanheira disse...

Fico 'ansioso', caro amigo Manuel, por vir a ler em livro, do princípio ao fim e não perder o fio à meada, nestas já cinquenta crónicas de amores e 'amores', em ambiente muito especial e escrito de uma forma avassaladora, nas personagens e nas suas caracterizações.
Gosto imenso da construção narrativa, entre os diálogos com a Maria Adelaide, num tempo 'à postriori' e, em seguida, fazeres um fachebeck na descrição, levando-nos ao ambiente, como se fosse presente.(ainda bem que não é...).
A memória, aliada à riqueza literária (nem as músicas, letras, passam em claro), aos costumes e ambientes africanos, a um tempo, tal qual era, faz-me recuar a essa vivência.
Gosto de mais, Manuel Veiga.
Um abraço e bom fim-de-semana

Teresa Almeida disse...

Ah, escritor! A guerra, nas tuas páginas, tem contornos que prendem o leitor. E quem não esteve na Guiné vai gostando de saber como foi. E quem lá esteve ainda mais. Grata por partilhares.

Beijo.

Maria Silva disse...

Por vezes as sugestões de riqueza literária perturbam o andamento da narrativa, não lhe toldando, a meu ver, todo o interesse.
Gosto do que escreve, eu que só tenho de África imagens de fotógrafos ou de pintores.
Boa semana.

Manuel Veiga disse...


Maria Silva,

muito obrigado pelo comentário. bem vinda!
estou certo de que também gosto daquilo que escreve

como poderei comprovar? onde escreve?

Ana Freire disse...

Vinha comentar este post... mas por limitações de tempo, de momento... quero saborear este texto, devidamente... pelo que o deixarei para mais logo, ou o mais tardar para amanhã, com mais tempo...
Beijinho, Manuel!
Feliz dia!
Ana