terça-feira, novembro 22, 2016

FRAGMENTOS XXXVIII


Mal raiava o dia. No horizonte, por cima da savana, espalhava-se o vermelhão, anunciando o sol, intenso na origem que se esbatia, elevando-se até quase metade do Céu, em tons cada vez mais suaves, prenúncio da canícula que aguardava os corpos. Mas, por enquanto, a majestade preanunciada do deus-sol espraiava-se apenas num azul fosco, a espantar a humidade da noite, que aqui e ali esvoaçava ainda, em nuvens a desfazerem-se, como algodão doce. O Alferes embebecia-se nesses momentos de indefinição de atmosferas, nessa subtil metamorfose de cores e ambientes e, por vezes, sentia-se fora do tempo, como se fora apenas um elemento a mais na paisagem ou testemunha privilegiada, ante o pasmo de seus olhos, do “diálogo” veemente da natureza consigo própria, procurando decifrar essa escrita maior e os seus sinais, que por todo o lado o interpelavam. Guerra e paz e a sua condição de militar e as inevitáveis preocupações e tarefas de provisório comandante militar da Tabanca, nesses momentos de evasão da alma, eram como que uma espécie de teatro de marionetas, em que a si próprio se encenava, como se tudo fosse irreal na sua vida na Tabanca, pois que a verdadeira vida ficara em trânsito, suspensa onde fora feliz. E, nesses momentos, os olhos baços derretiam-se numa emoção breve a percorrer o assomo de sua vida e o percurso de paisagens-outras que alimentavam a solidão dos dias, como bálsamo. E então era a desfilada de nomes, nuvens fantasmagóricas, em que se embalava. A Lia, dulcíssima recordação de infância, sua companheira de precoces descobertas do corpo, a arrostar sua solidão e pecado, com um filho nos braços para vergonha sua e do padre Francisco, a expiar remorsos e a sua larvar doença em terras ignoradas de Angola, também em guerra. Eram as orações das tias piedosas. O regaço da mãe e as açucenas e terna carícia nos caracóis loiros. O ti Zé Fardela a espicaçá-lo e um melro cantador. E a autoridade do Pai, em passada larga: “O rapaz vai para Coimbra e será juiz, acabou-se a discussão!”

Eu sei bem, Maria Adelaide, que é este tom e o registo que te seduzem e te mantêm presa, por vezes a contragosto, desta narrativa sem tempo, em que o autor se nega e modo é um capricho de areia, que tanto se faz como se  desfaz, conforme a “mão invisível” que percorre a narrativa e determina o respirar das palavras, quase sempre em desarmonia, e, que apenas na instância última em que o leitor as requer, vivas ou dispensáveis, se envolvem em jogo afectos, galgando a realidade e a ficção, no equilíbrio instável entre o(s) sentido(s) recreado(s) e a(s) memória(s) inventada(s), que alguns dirão Literatura e outros encolher de ombros, num despeito de raposa perante uvas que não alcança. E sabes muito bem tu que o autor, (se autor houvesse), nada mais prossegue que não seja sua teima e o gosto de desenhar este simulacro de vida, que vida não sendo, como vida se afirma.

Poderíamos, assim, Maria Adelaide, continuar a percorrer este universo de artifícios coloridos (literários, está bom de ver) em que o Alferes (momentaneamente) mergulha e testemunha, deixando a pairar no ar certo perfume estético-poético, ou umas vigorosas metáforas para onde, por momentos, breves que sejam, te descai a chinela e o pezinho, uma escrita, portanto, escorreita, com sujeito, predicado e complemento directo nos lugares certos e continuar deliciar-te, como quem oferece um licor raro, “com pasmo de seus olhos, do “diálogo” veemente da natureza consigo própria” (diz lá que não uma frase bonita!).

Eu sei, Maria Adelaide, o que te inflamaria, a ti, alfa e ómega desta narrativa, que ficaste, lá atrás, suspensa de um beijo e a tua deliciosa perversidade de um livro roubado nas mãos. Eu sei, mas hoje não. Outras são as exigências da narrativa, a requer, - quiçá! -  verdadeira reportagem de guerra.

Vai abrir-se a “a caixa de Pandora” e soltarem-se as maldições da guerra. Não será espectáculo recomendável – talvez seja preferível, Maria Adelaide, ficares afastada uns tempos. Ou talvez não. Porventura possas, talvez, aparecer, mais tarde, trasvestida de senhora de impoluta conduta, temente a Deus e amante dos pobrezinhos, qual dedicada activista do Movimento Nacional Feminino e de sua corte de “madrinhas de guerra”. Quem o poderá jurar, se o autor não existe?

Manuel Veiga


1 comentário:

LuísM Castanheira disse...

Ai, Adelaide, Adelaide !
Se tu soubesses, quanto prazer há na leitura desta escrita...
Releio-te na insondavel memória do autor, que o não sendo, o será.
E da tua vida, nestes retalhos espalhados, fica-nos um tempo de guerra, no olhar perdido:
...ficaste, lá atrás, suspensa de um beijo ...
És musa que não cabe num simples aerograma.
Por isso, espero-te mais tarde, em qualquer esquina do poema, onde o poeta deixará, porventura, a beleza do aroma, e a escrita literária tão rica e tão pujante.
Até logo...