domingo, setembro 17, 2017

SERENAS VÃO AS BARCAS ...


Correm límpidas as águas e leve brisa
Se anuncia nos ramos dos salgueiros.
Deslassemos os dedos, Lydia, e soltemos velas
Que serenas vão as barcas!...

De rosas coroemos a fronte
E o cais de pétalas e lírios.

Sopremos, Lydia, as barcas.
E arrostemos, sem mágoa, o destino.
Pagãos e puros.

Evoquemos os deuses. E partamos, Lydia.
Abraçados. Que serenas vão as barcas
E as águas cristalinas.

Para trás ficam despojos. E o tabuleiro tombado
E os dados. E o viciado jogo. E o tributo pago.
Cativos, fomos! Que assim, Lydia,
O quiseram os fados.

Nunca escravos.
Que poder algum reconhecemos.
Apenas o capricho dos céus e os ventos
Que nos guiam…

Provámos insidiosos frutos. E seus enganos.
E os venenos. E em sua perfídia nos jogámos.
Inteiros. E perdemos. E tudo pagámos.
Que nada devemos
Nem tememos.

Louvemos, Lydia, os deuses
Que nos quiseram lúcidos.

Mergulhemos nas cristalinas águas
E partámos, Lydia. De corpos perfumados
Amemo-nos!

Antes que a noite aconteça
E as Parcas venham…

Serenas vão as barcas
E as águas cristalinas.

Manuel Veiga

Nota: Lydia é uma criação literária de Ricardo dos Reis






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