sábado, outubro 20, 2018

De Regresso à CASA - Epílogo - Do Amor e da Guerra


 (…) e a extensa fila de almas, fora do tempo e do espaço, a agitarem-se e a protestarem o respectivo lugar na ordem de chegada, pois apenas entram no Céu aqueles que nele acreditam e o Soldado Assobio, misto de Arcanjo S. Miguel e de bobo, saído de qualquer página de Gil Vicente, sem mãos a medir, a registar e a pesar a almas e gritar “ó da barca!” e a encaminhá-las, as almas, para a barca do Céu ou para a barca do Inferno, conforme o respectivo peso, e agora neste tempo fora do tempo, o glorioso Padre Manuel, tio e padrinho de Raquel, por sua santidade nomeado Prior-mor do Reino dos Céus, a chegar à porta para serenar o chinfrim do dito Manoel Caetano. avô paterno do Alferes de Cavalaria, que alferes foi, oficial adjunto do Comandante de Companhia, por acaso de graduação militar e seu padrinho de baptismo, algures numa aldeia ignorada no norte do País, bem como o Padre Casimiro, que de padre tinha o direito de rezar missa, mas ele a rezava quando muito bem entendia, que outros afazeres e prazeres o corpo lhe pedia, unha com carne, Padre Casimiro e Manoel Caetano, que ambos se negavam a entrar no Céu sem as pipas de vinho e os presuntos que com eles traziam, pois Céu não concebiam sem boa pinga e uma boa lasca, mais a mais o Assobio descobrira na nesga do registo de almas, serem ambos putanheiros e brigões, de tal forma que o Arcanjo Assobio lhes negava a entrada no Céu, não fossem eles, brigões e putanheiros, a desfazer o equilíbrio perfeito da Santíssima Trindade, o que seria o verdadeiro Caos, com o Céu e o Inferno a confundirem-se e misturarem-se e, daí então, a alma piedosa do Padre Manuel, Prior-mor do Reino dos Céus, a garantir ao atarantado Arcanjo Assobio que conhecia aquelas almas há mais de uma Eternidade e que eram, apesar dos seus exageros, almas generosas e pias e que aquilo escrito nas laudas do registo de serem brigões e putanheiros eram calúnias levantadas pelos “talassas” do Paiva Couceiro, que nos tempos idos da “traulitada monárquica” no norte do País, apenas os dois, Padre Casimiro e Manoel Caetano, valentes e feros, à força de bordoada, correram com a secção de “talassas”, aboletados na sede do Concelho e arriaram a bandeira monárquica do edifício da Câmara Municipal e, em seu lugar, como era devido, colocaram a bandeira da República, removendo assim um inesperado obstáculo ao livre curso dos desígnios da Divina Providência, sendo de levar também a julgamento, como atenuante dos dois amigos, brigões e putanheiros, a circunstância do Padre Casimiro, com sua imensa Sabedoria das coisas do Mundo, ter salvo o jovem Aspirante a oficial miliciano, tenro ainda, em primeira recruta, que aliás exibe o nome honrado de seu avô, Manoel Caetano, das garras e da cobiça da menina Gertrudes, mais conhecida por “Papa alferes” e de sua tia Dona Miquelina, que a imensa Misericórdia e Bondade de Deus as levou para o seu Santo Regaço e fez delas as faxineiras do Céu e, assim, disse, ao atarantado Arcanjo Assobio, a alma do santo e piedoso Padre Manuel, que morreu, como bom pastor, no exercício de seu múnus sacerdotal, rodeado de suas ovelhas, que nunca lhe faltaram com a côngrua e, louvado seja Deus, nem com a assistência à missa, roído por uma ferida ruim que lhe corroeu a garganta e agora por mercê de Deus, Todo Poderoso, Prior-mor do Reino dos Céus e, assim dito, se aprestou, ainda que contrariado, o atarantado Arcanjo Assobio, que “apoucalhado” fora e agora, neste tempo sem tempo, zeloso pesador de almas, a deixar passar para a Glória dos Céus os dois amigos brigões e putanheiros, as pipas de vinho e os presuntos, sem que S. Pedro, em breve (ou propositada) soneca, tivesse dado por conta. Assim se abriram as portas do Céus, aos dois amigos, feros e brigões, mas capazes de darem a camisa, a quem, dos seus, dela precisasse e, em cortejo celeste, guiados pela alma tísica do Padre Francisco, a quem as humaníssimas dores e o amor de Raquel haviam resgatado das chamas do Inferno (…)


Manuel Veiga
“Do Amor e da Guerra” – Epílogo
Romance – edição Modocromia 



Fecha-se o ciclo em beleza!
"DO AMOR E DA GUERRA" na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro - Lisboa

No final será servido Moscatel do Douro acompanhado de Folar de Trás-os-Montes e, para aqueles/as de gostos mais "substanciais", pasteis de bacalhau e vinho tinto da região.

Seja Bem Vindo/a
Quem Vier Por  Bem! ...




9 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Por bem iria, se me fosse possível ir.

Muito sucesso, Manuel!

Jaime Portela disse...

Gosto imenso da narrativa, que possui um estilo inconfundível.
Ou seja, originalidade e qualidade literária não lhe faltam para ser um livro de sucesso. Que é o que eu muito desejo.
Caro Veiga, uma boa semana.
Abraço.

Graça Sampaio disse...

Muito êxito!!!! Desejo-o sinceramente.

Beijinho.

Teresa Almeida disse...

E tudo me soa tão familiar! Transmontana que sou.
Vai ser mais um sucesso, estou certa.

Beijo, meu amigo Manuel.

Graça Pires disse...

Disse-te o que penso deste teu livro. E desejo que os teus leitores o apreciem tanto como eu.
Um grande beijo, meu Amigo.

Agostinho disse...

Não irei ao moscatel (generoso) nem ao folar que me estão interditos. Mas vou procurar a obra e lê-la por inteiro. Aprecio a forma como dás ordem às palavras e ideias que requer uma leitura atenta. Entre saias e botas, entre urbe, campo e cera, a tua narrativa denuncia uma formação que vai para além do estudo na academia, nela espelham-se vivências repartidas por diferentes palcos.
Os maiores êxitos, MV.

Suzete Brainer disse...

Meu caro amigo,

Que amanhã seja mais um momento feliz e de sucesso
na partilha deste teu magnífico livro.

Este pastel de bacalhau, acompanhado de vinho tinto
da região é irrecusável, viu?!...rss

Adorei a música escolhida e seja um dia inesquecível
para o poeta-escritor na partilha da apresentação
do livro, com muita harmonia, alegria e paz!
Bjos.

José Carlos Sant Anna disse...

Caro amigo Manuel,

Iria por bem pelo livro, sobretudo. Mas também pelo pastéis de bacalhau, (no Brasil, bolinho de bacalhau), e pelo vinho tinto da região. E pela confraternização com os amigo(s), amiga(s).
Com amigos e um bom vinho, não há dignidade que se corrompa, rss!
Espero que tenha sido um grande sucesso a festa ontem, meu caro Manuel!
Forte abraço,
José Carlos

P.S.: Será no próximo dia 28 o dia da virada nas eleições do Brasil?
Tomara que sim e possamos cantar como o fez Thiago de Melo: "Faz escuro mas eu canto/ porque o amanhã já vai chegar!"

José Carlos Sant Anna disse...

Leia-se na primeira linha "pelos pastéis,,,"