domingo, março 12, 2017

"Não Será Teu Mestre Aquele a Quem Escutes..."


O Mestre Lao Chang tinha um discípulo muito amado, de nome Lie Tsé.

Lie Tsé procurava aprender a arte de julgar. Durante três penosos anos, Lie Tsé leu todas as leis do Império, consultou todos os mandarins, visitou todas as prisões. E regressou junto do seu Mestre, apto a qualquer exame.

Este não o recebeu.

Então Lie Tsé fechou-se no seu jardim, ignorando todos. Meditou e orou. Ao cabo de três anos, bateu novamente à porta de Lao Chang.

Esta permaneceu cerrada.

Lie Tsé compreendeu então que não tinha estudado, nem meditado o suficiente. Despediu-se dos pais e recolheu-se numa montanha, onde viveu asceticamente, entre êxtase e pergaminhos, durante mais cinco longos anos.

Quando desceu da Montanha (...) não foi sequer abraçar os pais: correu logo à casa de Lao Chang.

Não obteve senão silêncio.

Sem desânimo, Lie Tsé saiu e passou à terra dos bárbaros. Aí permaneceu mais quatro anos, estudando e aprendendo outros costumes de julgar. Regressou trazendo na sacola novidades e presentes para Lao Chang.

Os portões da habitação deste permaneceram frios e impenetráveis.

Então, Lie Tsé passou a comportar-se como homem normal, relembrando o ensinamento de Lao Tsé:

“Se estudar renunciares/cuidados deixas de ter/pois que diferença há-de haver/entre negares e afirmares?/ (...) pois o estudo é imenso/ e fica sempre suspenso”.

Com estes versos consolou a sua assumida leviandade. E um dia, quando houvera já esquecido as leis e os julgados e as masmorras, passou pelo jardim de Lao Chang. Foi aí que este pela primeira vez o honrou com um olhar.

Lie Tsé começou a compreender.

Cinco anos mais tarde, Lie Tsé limitava-se a considerar os actos humanos em silêncio, timidamente, quase com pudor. Foi nesse estado que voltou à casa do Mestre.

Aí pela primeira vez o viu ao de leve sorrir.

Entusiasmado, Lie Tsé levou sete anos a procurar olvidar o negro e o branco, o avesso e o direito, como preparação para a maior tarefa: esquecer o bem e o mal.
(...)
Ainda não preparado, apresentou-se arquejante na sala do Mestre, o qual, num gesto vago, pela primeira vez lhe indicou um assento.

Voltou Li Tsé a vaguear pela sua terra natal e a correr mundo, tido como louco, pois já não distinguia nenhuma cor, não mostrava preferência por nenhum sabor, não proferia nenhum juízo. Ou fazendo-o, baralhava-os. Ora chamava amarelo ao verde, ora pérfido ao amável. Os pais choravam-lhe o juízo perdido.

Quando em si passou a ser frequente encolher os ombros a tudo e tudo aceitar como possível, sem sequer trocar “o em cima” pelo “o em baixo” nem recto pelo torto, tomou o caminho do jardim de Lao Chang.

Lao Chang não o reconheceu, mas venerou-o como a um Mestre. Ao ouvi-lo sobre as artes de julgar, pensou em recomendá-lo ao seu velho discípulo Lie Tsé ausente já nove anos.

E Lie Tsé, (...) recordou então intimamente, saboreando o seu triunfo :

- “Não será teu Mestre aquele a quem escutes, mas aquele de quem aprendas; nem será aquele que te dê lições, mas o que deixe no teu coração o sinal dos seus ensinamentos; (...); nem o que te brinde com as suas palavras, mas antes o que te excite em ti os seus próprios estados espirituais.”

In “O Verdadeiro Clássico da Vida Perfeita” – Lie-Tseu – Philosofies Taoiste.

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Mas por que raio me lembrei deste conto antigo, aprendido há anos na obra de um velho Mestre de Direito?

Vá lá saber-se...

Manuel Veiga





9 comentários:

LuísM Castanheira disse...

Nada melhor que um domingo de manhã para 'mergulhar' na metafísica do Nada.
Ainda bem que te lembraste, Manuel, deste texto milenar, sobre o sentido da vida e a condição humana.
Graças a ele, pesquisei o Vazio Perfeito - do qual nada sabia e do Autor, o mesmo e deparei-me com um tratado em:
http://textosdemetafisica.blogspot.pt/2014/04/lie-tzu-tratado-do-vazio-perfeito.html?m=1
que, não o tendo lido ainda na íntegra, me deixou mto interessado.
Um bom dia, Amigo e um forte abraço.

luisa disse...

Não saberei julgar...

Suzete Brainer disse...

O Taoismo é uma filosofia existencialista de Sabedoria espiritualista
que nunca incorporou uma doutrina dogmática religiosa e esta pureza
filosófica me encanta e gostei de saber que o Poeta aprecia também.
Tenho dois livros essenciais da filosofia Taoista que eu recomendo e
tenho como preciosidades que são: A Vida De Chuang Tzu e Tao Te Ching.

Bom domingo, Manuel!

Adorei a partilha do texto junto com a música.

Bj.

Teresa Durães disse...

Foi bem lembrado. Uma história que ensina muito e que gostei de conhecer

Rogerio G. V. Pereira disse...

Ocorre-me, não sei se a despropósito, que tendo percorrido muitos lugares por essa África, que já foi Império, não havia um único soba que entregasse um qualquer caso à autoridade colonial (Chefe do Posto)sem que antes reunisse o Conselho dos Mais Velhos a fim de produzir juízo. Não sei se o direito angolano "bebeu" esses saberes... ou se antes os foi beber à Pátria colonizadora*...

(*acabo de confirmar que assim foi http://www.fd.ulisboa.pt/wp-content/uploads/2014/12/Vicente-Dario-O-lugar-dos-sistemas-juridicos-lusofonos-entre-as-familias-juridicas.pdf )

Teresa Almeida disse...

Só pela melodia já valeu a pena. E o conto é fantástico. Um percurso sem desânimo. Retenho:
“Não será teu Mestre aquele a quem escutes, mas aquele de quem aprendas; nem será aquele que te dê lições, mas o que deixe no teu coração o sinal dos seus ensinamentos; (...); nem o que te brinde com as suas palavras, mas antes o que te excite em ti os seus próprios estados espirituais.”
Grata, Manuel.
Beijinho.

Graça Pires disse...

A arte de julgar. Que arte mais difícil...
"“Não será teu Mestre aquele a quem escutes, mas aquele de quem aprendas".
Fantástico como foste desenterrar a sabedoria oriental. É porque precisaste de a recordar e de nos fazer recordar a nós...
Uma boa semana, meu Amigo.
Um beijo.

Agostinho disse...

-Não julgues para não seres julgado". E o julgava o Lie Tsé!
Há textos que foram arrumados nas prateleiras do subconsciente e, de repente, saltam-nos aos olhos. Um bom texto para pôr a mona a pensar.
Abraço.

Odete Ferreira disse...

Esse teu "velho Mestre de Direito" também apreendeu o sentido do último parágrafo do conto. E tu também, por isso te veio à memória (e certamente que não foi a única vez). É que, hoje em dia, não há paciência para "ensinar a pescar", dá-se logo o peixe, não há tempo para formar (dá muito trabalho); daí que também não haja tempo para pensar; e que dizer do ato de julgar? Assistimos a julgamentos diário na praça pública...
Grata pela partilha.
Bjo, Manuel