segunda-feira, agosto 27, 2018

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI - Take 6



Manuel Maria era agora uma esfera de fogo, a percorrer o Universo de sua vida, relâmpago efémero que, em sua absoluta luminosidade, deglutia, como magma absoluto, todos os resquícios da memória fossem eles a majestosa paisagem do corpo de Flávia, fossem as gargalhadas do amigo Quim Remédios, subindo o Chiado, rumo à Brasileira, saboreando as inarráveis cenas da sua última (a)ventura cómico-erótica, ou até mesmo o registo indelével de todos os outros momentos silentes que, para bem e para o mal, determinam o curso e o percurso dos passos e emergem, no desamparo dos dias, como bálsamo ou ariete, a espicaçar energias e resiliências, ou amaciar os inóspitos caminhos.

Manuel Maria era, assim, nessa evocação dos tempos da Agência, explosão em carne viva, ou abalo telúrico, no confronto sistémico entre a clausura da Instituição a que fora entregue, tenro de anos e minguado de afagos e onde ele, menino, cedo aprendeu que a vida se ganha todos os dias com o suor do rosto, biblicamente falando, está claro, e na renúncia aos prazeres, que amolecem a alma e a vontade, enfim, maquinações do Maligno, desde o início do Tempo, para arrelia e castigo dos homens e sua soberba.

Fustigava-se, pois, mentalmente, Manuel Maria, nesse confronto retrospectivo de tempos e mundos, da austeridade do Colégio e os votos de castidade e as frustradas esperanças da Mãe e daqueles poucos que na aldeia, em que por pecaminosos desígnios, viera ao mundo, acompanhavam, de longe, a sua vida e que gostariam de o ver padre para descargo de suas consciências e o tempo desse agora literário em que ardia, consumido pelo balzaquiano corpo de Dona Ludovina e outras seduções e experiências que estava longe de imaginar na aridez da sua vida, mas que o sopro de liberdade, fora de murros e amarras, precipitava, em pletórica sedução, no seu sangue e na sua viva curiosidade pelas coisas do mundo.

É verdade que essa metamorfose da consciência de si não se fazia sem dor e a realidade da vida e suas seduções que, em girandola festiva, se abriam em sua paisagem de possibilidades, como jardim de delícias, que importava provar, traziam um preço amargo. Valiam-lhe, então nesses lances mais acesos e perturbadores, as longas conversas com o tolerante padre Telmo, fervoroso padre-operário, serralheiro mecânico, numa grande empresa industrial, nos arredores de Lisboa, das quais saía, quase sempre, gratificado e robustecido e mais apto para os embates da vida e das suas escolhas fundamentais.

Este, portanto, “ o drama de Manuel Maria”, quase émulo de “Jean Barrois”, personagem de Roger Martin du Gard, no conhecido romance “O Drama de Jean Barrois”, quando Dona Ludovina, paralelamente à iniciação sexual, levou também muito a sério o robustecimento do seu espírito e o introduziu, numa “selecta tertúlia”, com rasgados encómios ao seu, dele, Manuel Maria, talento, não apenas artista plástico, mas também poeta, cuja qualidade ela, Ludovina, estava apta a garantir.

Acontece que pontificava no grupinho um casal, recentemente regressado de Paris, onde no rescaldo de todos os Maios, proclamava, em beatitude, que a História estivera ali mesmo, na polpa de seus dedos... Era um homenzinho enfezado, a rondar os cinquenta anos, de luzidia careca e pêlos indiscretos no nariz e nas orelhas. A barriga empinada e as pernas curtas emprestavam-lhe um ar de aranhiço prestes a armar a teia. O olhar líquido e redondo, por detrás de uns óculos de tartaruga, acentuavam-lhe a famélica postura da aranha à espera da presa.

O homem, porém, quando a cerveja escorria, de tudo falava. Nem era necessária plateia. Conhecia todos os argumentos. Entre os existencialistas e marxistas (peleja fora de moda, dixit...) tomava naturalmente partido pelos primeiros. Discorria com ardor sobre o “nouvau roman”. O cinema e a “nouvelle vague” não tinham segredos. E também os estruturalismos de todos os matizes: tratava por tu Althusser, Lacan, Foucault,  Derrida e tutti quanti!...

O homem era nitidamente um “semiótico”!...

A rapariga, - Cléo para os amigos - bastante mais nova, vivia em permanente devoção. Acendia-lhe os cigarros. Colocava o açúcar no café. Mexia e remexia. Carregava os jornais. Assinalava os artigos de interesse. Sacudia-lhe a caspa dos ombros. Enfim, sabe-se lá o que mais não lhe faria... A moça, era engraçadota, mas fisicamente desleixada, como era chic na sua condição de intelectual. Num caderno, de folhas azuis e linhas, escrevia seus poemas, onde quase sempre “a alma se rebelava contra as torpezas do poder”.

Aconteceu que um dia, passado algum tempo, já com as agruras metafísicas apaziguadas, Manuel Maria, depois da Agência, na sua passagem pela Leitaria, deparou com a Cléo sozinha, na mesa habitual. Explicadas as razões e, depois de minutos de conversa, palavra puxa palavra, olhar pede olhar, a ocasião faz o ladrão e estavam os dois falando de sexo!... E ela categórica “não me importava de fazer amor contigo, mas não te vale a pena, não presto na cama” e ele a dar-lhe, num arroubo desenfreado, próprio dos tímidos e das noites recalcadas, “não há como experimentar”, patati...patati...patatá e ela a não se fazer mais rogada e ele que havia semanas que não pensava noutra coisa e meu dito meu feito, passados escassos minutos estavam os dois na cama.

Manuel Maria, que passara com distinção no estágio de Dona Ludovina, usou de todo arsenal de recursos aprendidos e inventou outros. A Cléo, porém, nada!... Nem um gemido, nem um movimento, nem uma carícia, nem um esgar, nem uma palavra de estímulo, nem um fingimento... Nada, literalmente nada!... Um corpo inerte, amorfo. Apenas os olhos se reviravam nas pálpebras, em cada assalto. Naturalmente, frustrado...

Digam-me lá, se por mais esforçado, alguém naquela situação poderia resistir e completar a função!... Pois bem, o Manuel Maria desistiu. Desistiu e nunca mais apareceu na Leitaria e naquele cenáculo de cultura...

Apenas soube da Cléo, tempos mais tarde, no fervor da Revolução, Manuel Maria, novel arquitecto, embrenhado e empenhado no projecto SAAL e no propósito revolucionário de resolver os problemas habitacionais da área metropolitana, acabando com a vergonha das “barracas”, à entrada de Lisboa e que tanto desfeavam a cidade. Nessa emergência, a boa e disponível Cléo, aparecia enfileirada num barulhento grupelho esquerdista, exigindo, aguerrida, o socialismo “Já!...” e a resolução dos complexos problemas da habitação para o dia seguinte. Nem a velha amizade com o jovem arquitecto Manuel Maria, que insistentemente evocava, lhe domava a urgência revolucionária.

Passado anos, já no refluxo do sangue e da Revolução, com a Cléo, novamente, fora de circuito, em França, Manuel Maria é surpreendido pelo Quim Remédios exibindo um exemplar da revista “Cahiers du Cinema” a apontar a foto de capa “esta não é tua amiga Cléo?” – indagava. Pelos vistos, a Cléo triunfava no cinema em França. E, perante a surpresa e genuíno prazer de Manuel Maria, o Quim Remédios, com um sorriso matreiro, rematou “imagino as “cambalhotas” que a Cléo teve que dar para conseguir esta foto”. E Manuel Maria, num sorriso irónico “não sejas maldoso, o triunfo da Cléo deve ser mesmo talento, porque, nas “cambalhotas”, a Cléo é um desastre…”

E, então, Manuel Maria contou ao amigo, expert em mulherio e cambalhotas, a cena da sua despedida da Leitaria e da “selecta tertúlia”, em que, ao tempo, a Cléo e seu amigo semiótico pontoavam. Foi muito bem feito! Quem te manda andares com intelectuais?!” - soltou numa gargalhada, o Quim Remédios e sentenciou: “Nunca ouviste dizer que as mulheres burrinhas são as melhores na cama”?

Manuel Maria embatocou. Mas passados momentos, já recomposto, meio a sério, meio a rir: - “E se forem intelectuais e burras?”

-  “Então é a desgraça completa. Não te invejo a sorte!...” – rebolou-se Quim Remédios, babando-se de gozo... Digam lá se não é reconfortante ter um amigo assim conhecedor das subtilezas da alma feminina e de seus mistérios!...

Manuel Veiga

6 comentários:

Olinda Melo disse...

Olá, Amigo M.Veiga

Um percurso muito interessante esse de Manuel Maria, com passagens por caminhos culturais e revolucionários de grande peso.
Os ensinamentos da Dona Ludovina não lhe terão servido de muito mas ao menos lá está o Quim Remédios que com o seu saber sobre a alma feminina vai preenchendo algumas lacunas.

Abraço

Olinda

LuísM Castanheira disse...

(para mais tarde seguir o 'fio 'a meada')

José Carlos Sant Anna disse...

Vou pacientemente confinado no tempo juntando os pedaços... Mas posso garantir que a prosa é boa!
Um abraço, caro amigo!

Ana Tapadas disse...

Que bom que os comentários foram reabertos!
Excelente narrativa.

Beijo

Teresa Almeida disse...

"...pois que, sem o suor e sangue e as vísceras das personagens, a narrativa não será mais que pauta sem música, palco deserto, pura forma ..."

A reflexão de José Maria é uma excelente lição para quem se queira aventurar nos caminhos do romance. Toca-me este afeto a Maria Adelaide, personagem que o autor construiu e trouxe do romance anterior. Creio que nunca a abandonará, apesar de Flávia ter o fascínio de uma flor selvagem.

Beijo, meu amigo Manuel.

José Carlos Sant Anna disse...

Por um momento parecia que ficaria mais tórrida, mas a Cléo fustigou o cavalo e não deu conta das rédeas... E o emaranhado da teia já é um sortilégio...
Nada como juntar para desfrutar...
Um abraço, caro amigo!

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