quinta-feira, maio 16, 2019

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI – Take 14


Subia, pois, Manuel Maria a escadaria do edifício da Câmara Municipal, conjunto arquitectónico de linhas sóbrias, com duas colunas embutidas, rematadas por frontispício triangular, a enquadrar o portão de entrada, depois de alcançados três degraus exteriores e plataforma em granito e, depois, vencido o portão, lá dentro, amplo pátio, ladeado por portas e guichets de serviços camarários e ao centro, em sequência da entrada, mais um lanço de sete degraus e novo patamar, agora a abrir-se, de cada lado, em dois novos lanços de cinco degraus, que, no primeiro andar, desembocam num varandim interior, a toda a largura do edifício, e um conjunto harmónico de três portas largas, a abrirem para o Salão Nobre, engalanado, nas paredes, em toda a extensão por retractos de insignes vultos da República e ao centro do salão, a debruçar-se para o largo exterior, uma ampla varanda, lugar onde, por exigência do povo, a abarrotar no largo, a República Portuguesa foi proclamada a 4 de Outubro de 1910, antecipando assim num dia o “5 de Outubro”. Derramava-se, pois, Manuel Maria nessa evocação dos vultos republicanos, que muito o seduziam e dos episódios da revolução republicana, que muito o inflamavam, procurando nas linhas do edifício e na organização do espaço, os sinais, veios e acontecimentos em que a história pátria se condensa e se consagra em suas euforias e também nos seus desmandos, tragédias e recuos, que a História não é linha de montagem, a somar sempre em frente até obra acabada, mas antes esteio de imprevisibilidade, tecida de diversos fios e ritmos e, quando maduro o tempo e acesa a vontade dos homens, então pode acontecer uma explosão de energia inesperada, que se expanda e projecte o presente rumo ao Futuro e, assim, dê sequência e clareza ao fluxo dos tempos, na cadeia ininterrupta do devir social.

Desta forma, Manuel Maria o compreendia, a espreitar agora, discretamente, a rua, assomando ao varandim do Salão Nobre, onde fora mandado aguardar que o Camarada-Presidente o iria receber dentro de momentos, e, nesse intervalo, a recriar, na sua mente, o bruáaaaa da Praça apinhada, ante o discurso inflamado da antecipada proclamação da República. Enfim, tempo passado de raízes fundas, a fecundar um tempo outro, em todas as laudas da história pátria jurado tempo de fascismo nunca mais, tempo de agora, tempo de cerejas e grávido de promessas e de exaltantes momentos da instituição do Poder Local Democrático e de aprofundamento da democracia, introduzindo nas fórmulas e formas de representação democrática a indeclinável natureza participativa da práxis democrática e a “retirar o fascismo dentro da cabeça das pessoas”, mediante activa participação cívica e política,
                                          
Manuel Maria não conhecia, ou julgava não conhecer, pessoalmente, José Augusto Esquerdino, que teve papel destacado nas eleições presidenciais de 1958, como promotor e apoiante da candidatura de Dr.º Arlindo Vicente e, posteriormente, no processo de unidade antifascista que levou a desistência desta candidatura a favor do General Humberto Delgado, conhecido por General sem Medo, depois do seu desassombrado Obviamente, demito-o!... referindo-se o General (obviamente) ao todo poderoso Salazar, o que empolgou o País de lés a lés, numa das jornadas mais fecundas da história pátria, sendo bem verdade que o General pagou com o exilio e a morte a afronta feita ao ditador e ter sacudido as honrarias com que o regime o cumulava para passar, de corpo e alma, para as incertezas e agruras da oposição.

Não se dirá que o envolvimento de José Augusto Esquerdino, na campanha eleitoral de Humberto Delgado constituísse o seu baptismo de fogo na luta política, mas, de qualquer forma, a sua decidida e corajosa participação e a sua forte personalidade granjearam-lhe papel relevante em futuras lutas e fez dele um verdadeiro herói para os jovens estudantes a borbulhar revoluções, nas discussões permanentes do selecto grupinho da Avenida de Roma.

A auréola revolucionária de José Augusto que se agigantava perante os jovens estudantes, filhos da burguesia que abominavam, decorria imediatamente da circunstância de estarem perante um representante da classe operária e, pour cause, ungido na gloriosa missão de fomentar a unidade de “Operários e Camponeses” e guiar as massas no assalto aos céus da Revolução Proletária, que a mente escaldante dos jovens vislumbrava ali ao dobrar da esquina, sentados nas cadeiras da Pasteleira Roma. Verdade seja dita que, nem Manuel Maria, nem o circulo seus amigos mais próximos embarcavam nesse delírio revolucionário, do qual ostensivamente se demarcavam, arcando com epiteto “revisionistas” com que eram, depreciativamente, mimoseados, pois que, nesse núcleo restrito de amizade sólida, mais que explicações teóricas sobre a inevitabilidade da Revolução, ansiava-se, sobretudo, por “molhar a sopa”, quer dizer, juntar a sua insipiente acção política ao fluxo geral da resistência, com umas pinchagens nos muros do Bairro, a altas horas da madrugada, ou uma ou outra de distribuição de panfletos nas caixas o correio, acções que o Artur Fontes enquadrava, com zelo conspirativo e a meticulosidade que o haveria de caracterizar, ao longo da vida, no impoluto exercício da profissão de advogado.

Porém, foi pelo Quim Remédios e não pelo Artur Fontes, que detinha os fios da insipiente organização e as ligações políticas, que Manuel Maria conheceu a verdadeira identidade de José Augusto Esquerdino e os laços de proximidade que os ligavam, em virtude das circunstâncias do respectivo nascimento, algures em Terras do Demo, numa aldeia ignorada, onde entroncam tantos fios desta narrativa que requer literária. Lembrava-se Manuel Maria, como se fosse hoje, dos aconecimentos que, como uma fatalidade inscrita na linha da vida, lhe troxeram o conhecimento dessa feliz e honrosa coincidência.

Era uma tarde quente de Junho. O Quim Remédios, chegou lívido de raiva e de indignação, soltando roucos insultos contra os filhos da puta e toda raça de cabrões, mais nojentos que ratazanas, que não têm pingo de honra ou vergonha e são capazes de destruir um homem e o despejam, depois, como lixo, às portas de um hospital, enquanto do alto do seu metro e noventa, as lágrimas lhe tombavam dos olhos, qual criança indefesa, que no grupo de amigos buscava lenitivo do seio acolhedor. Foi o Artur Fontes quem acalmou o Quim Remédios e o puxou para a rua, visivelmente inquieto com o descontrole emocional do amigo e o burburinho que começava a levantar-se nas mesas próximas, povoadas de balzaquianas oxigenadas e cavalheiros de meia-idade, pois que, por mais que uma vez, apesar da manifesta simpatia, o gerente ameaçara por o grupo no olho da rua - “se não tivessem juízo”. Apanhado de surpresa e, adivinhando, no desespero do Quim, coisa séria, o grupo de jovens permaneceu em pesado mutismo, até ao regresso dos amigos, mais calmo agora o Quim Remédios e o Artur Fontes a pagar as “bicas” e a ordenar uma saída discreta até ao parque de estacionamento do Cinema Roma.

Foi no interior do automóvel, onde os jovens se amontonaram, ansiosos e expectantes, que o Quim Remédios deu a conhecer aos amigos a gravidade dos factos, que presenciara, narrados na primeira pessoa, intercalando com poderosos insultos contra os esbirros do regime e a policia política, crescendo, de momento a momento, a indignação dos jovens e a revolta do jovem médico, nesse tempo literário, a fazer tirocínio profissional no Hospital Júlio de Matos, célebre instituição médica, destinada a doenças mentais, cenário trágico de mais uma brutalidade do regime e dos métodos criminosos de que se se servia para destruir os lutadores pela libertação da Pátria mais aguerridos e combativos.

(continua) 

Manuel Veiga


5 comentários:

Larissa Santos disse...

Adorei a leitura. Obrigada :))

Hoje :-[Poetizando e Encantando ] Um ilusório mundo feito de nada.

Bjos
Votos de uma óptima Sexta - Feira.

Olinda Melo disse...

E aqui temos o Manuel Maria em mais uma passagem da "carta que nunca escreverá", tendo tardado é certo, mas com tanto para fazer é natural. Para um encontro com o Esquerdino, vimo-lo a subir as escadarias da Câmara Municipal, com tantos pormenores arquitectónicos interessantes, há que prestar atenção a tudo, e agora no varandim do Salão Nobre, recordando tempos passados de outra revolução.

Que o "tempo de agora" é "tempo de cerejas e grávido de promessas e de exaltantes momentos da instituição do Poder Local Democrático e de aprofundamento da democracia".

Reparei em Quim Remédios, revoltado e em lágrimas, confortado por Artur Fontes. E, também, nas referências ao Hospital Júlio de Matos que extrapolava as suas funções,"cenário trágico de mais uma brutalidade do regime".

E aqui se fala de História, no jeito saboroso do criador de Manuel Maria.

Desejo-lhe Felicidades, Manuel Veiga, amanhã, na apresentação do seu livro "Perfil dos Dias".

Abraço

Olinda

Jaime Portela disse...

Mais um capítulo onde a narrativa é de excelente recorte literário.
Para além das peripécias e enredos da história, que é deliciosa.
Caro Veiga, um bom fim de semana.
Abraço.

José Carlos Sant Anna disse...

O primeiro impulso foi reler tudo outra vez para restabelecer os fios. No entanto, achei que em momento oportuno reatarei os fios do enredo. Por isso, contentei-me ficar numa atitude estática e contemplativa observando os passos de Manuel Maria e a técnica narrativa que se espraia em mais uma carta...
Um forte abraço, caro Manuel!

Teresa Almeida disse...

Já tinha passado com Manuel Maria na entrada da Câmara Municipal, mas sabia que voltaria a passar. Apetece rever os passos que nos levam à varanda onde foi proclamada a República Portuguesa. Fascinante descrição de todo o enquadramento! Até te vejo, Manuel Veiga, a subir os degraus de tão imponente edifício, levando na mão "A carta que nunca te escreverei" em mui digna cerimónia de apresentação.

Beijos.

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