domingo, março 01, 2020

ACRE LUCIDEZ DE CINZA...


Nego-me à estética do Horrível. E ao tamanho
Do vírus. E à dimensão da Pandemia.

E à música de Wagner como se a cavalgada
Das Valquírias fosse enfeite a enquadrar o telejornal
Ou nauseabunda esteticização do Desastre
A celebrar o Espectáculo dos corpos esventrados
E as labaredas a lamber os impassíveis olhos
Não refeitos ainda da voragem do Pânico.

Nego-me ao microfone em riste a invadir as bocas
E a colher a baba das palavras. E a espremer
O pormenor da Lágrima. E a dobra da Agonia
Como se viver ou morrer fossem noção certeira
Perante a iminência da Morte.

Nego-me a doutas opiniões e ao grande Debate
E ao arroto da Sabedoria ao serviço da Ganância
A desenhar manobras e as invisíveis rotas
Do Lucro e a permanente encenação do Mesmo.
                                                                      
Nego-me ao leilão das alvas consciências
A pingarem gordurosas a beatitude da Banca
E a arrotarem sobre os altos muros
Da Instituição.

Nego-me aos faiscantes cibernantropos
A salivarem tweets e likes e o rabinho eletrónico
A dar a dar e a babarem-se sem sequer saberem
Que nada são ou dizem – apenas ridícula imitação
Dos Donos e a macaquearem os seus gestos

Nego-me à obscena exasperação dos lugares
E da Dor compulsiva. Que sendo também minha
É apenas Simulacro.

Palavra que não redime. Nem me salva.
E que, no entanto, teima –
Acre lucidez de cinza.

Manuel Veiga



12 comentários:

" R y k @ r d o " disse...

Lendo, remeto-me à minha ignorância e, em silêncio, bebeo cada verso deste FABULOSO poema. Aplaudo de pé.

Feliz domingo

Emília Simões disse...

Boa tarde Manuel,
Um poema de excelência que, de forma sublime, reflete a negação das diversas "pandemias" que cada vez mais proliferam e nos vão tirando o viço fazendo-nos acreditar que a sociedade está deveras doente.
Um beijinho e uma boa semana.
Ailimw

Graça Pires disse...

Também me nego, meu Amigo. Afinal só as palavras dos poetas e dos sonhadores podem redimir e nos fazem abeirar de um silêncio que nos salva…
Magnífico o teu poema!
Uma boa semana.
Um beijo.

Olinda Melo disse...


Repúdio do sensacionalismo e da grandiloquência do absurdo
em que se transformou a sociedade. Pior ainda porque se
tornou global. Não há fronteiras, nem bom senso.

Tudo nos entra pela casa dentro e se não nos ativermos activando
a nossa própria carapaça, para nos protegermos de tanta banalidade
e ressaibos de sabedoria, cairemos doentes de corpo e alma.

Magnífico Poema, meu amigo.

Abraço

Olinda

Maria Rodrigues disse...

Palavras sentidas e pertinentes nem poema magistral.
Um grande abraço.

Elvira Carvalho disse...

De regresso, ainda devagarinho, mas já com autorização médica, para curtos períodos.
Um belo poema que é um grito de revolta contra esta sociedade ávida de crises que nos rodeia.
Abraço e uma boa semana

Tais Luso de Carvalho disse...

Belíssmo poema que nos leva a pensar muito na dimensão desse assunto, dessa pandemia. Vários programas jornalísticos estão trazendo muitos pontos de vista, e dá o que pensar.
Entendo bem o que você diz, mesmo com tanta poesia envolta, o que serve para suavizar nossa leitura.
Poema forte... Aplausos dobrados!
Beijo, meu amigo, uma ótima semana!

Teresa Almeida disse...

Vou ouvindo, deliciada, a cavalgada das Valquírias e matutando no desnorte do coronavírus que pelo mundo anda cavalgando.

Tomemos, então, os cuidados necessários!

Quanto ao teu poema é de uma força notável ... e no entanto ... " a acre lucidez da cinza".

Beijos, meu amigo Manuel

Pedro Luso de Carvalho disse...

Neste seu lúcido poema, ACRE LUCIDEZ DE CINZA..., o Poeta não aceita o que dizem, em muitos países, do mal que a todos ameaça: o coronavírus, que por trás dos horrores divulgados pela mídia há muita gente engordando a sua conta bancária. Então, pergunto ao Poeta: posso eu discordar dessa sóbria posição? Respondo que não. Filio-me, pois, a essa posição defendida pelo Poeta, o meu caro amigo Manuel.

Gostei muito do seu poema, amigo Manuel.

Uma boa quarta-feira.

Um abraço.

Ana Freire disse...

Não me nego, à qualidade poética, deste magnifico trabalho, Manuel... mas permita-me não negar... as inquietantes notícias, que chegam de Inglaterra e Itália... onde este vírus foi desvalorizado!...
Aprendamos com o exemplo chinês... o problema foi reconhecido (com mais de dois meses de atraso, e tal permitiu que chegasse aos 4 quantos do mundo)... mas sendo finalmente reconhecido... foi combatido!... Com muitos sacrifícios pessoais de toda a gente, por lá... Aqui ainda não nos caiu a ficha, de que temos de agir da mesma forma... controlar fronteiras... cidades... ficar em casa duas ou três semanas... enquanto isso... será ver os hospitais a encher... e os mais vulneráveis a morrer... que poderiam continuar vivos...
Uma coisa é certa... o mundo mudou depois do 11 de Setembro... e mudará de novo, com as lições que irá tirar... do que ainda estará para acontecer, nos próximos 2 a 3 meses... Não admira pois que o director da OMS, tivesse dito, com todas as letras... que o mundo não está preparado para esta pandemia... qualquer problema respiratório... mata uma pessoa em menos de uma semana, ou em horas... apercebi-me de tal... quando no ano passado a minha mãe teve uma crise de insuficiência respiratória, e ia morrendo de pneumonia, em poucos dias!... Em menos de uma semana... não há medidas que se tomem atempadamente, nem infraestruturas que cheguem, nem mentalidades que mudem... por cá, o tal vírus só foi reconhecido, depois da Convenção literária em que Sepulveda participou, e não teve como se negar o óbvio, quando deu positivo em Espanha!... fizemos como os chineses... reconhecer o problema com atraso... para tentarmos improvisar condições... e no processo um considerável número de vitimas, irá haver... enquanto não for imposto um forçado recolher colectivo, para não serem ainda mais!... Tão simples, como isso! Em Inglaterra já se consideram 2 meses!...
Beijinho
Ana

Majo Dutra disse...

~~~
Eu componho uma sinfonia de espirros, espalhando virus pela casa...
Com um bravo resfriado...
Nega-te peremptoriamente, mas cuida-te bem.

Um modo muito original de demarcares-te contra o capitalismo...
O meu abraço amigo.
~~~~~~~~~

Agostinho disse...

A maldita lucidez que incomoda,
contraria o guião: cinza tua e minha.

Abraço.

PERTÉRIT0 IMPERFEITO

No roteiro de teus passos e no fervor Dos laços me entardeço. E me derramo E me desfaço. E (bem) te digo Seda fina e xaile antigo Debruado n...