quarta-feira, maio 06, 2020

POEMA HIPERMODERNO



Retomo o discurso no ponto em que estávamos!

Nada do que ficou dito merece outro registo
A não ser o vácuo aceso das palavras
Que se alinham irrestritas.

Na verdade que importa o tempo e o modo
Em que as palavras foram ditas? Depois de escritas nada
Nas palavras ditas permanece noutras palavras
Que jazem mortas. Antes de serem escritas…

Desditas as palavras continuam ditas!...

E na verdade inscritas noutras palavras
Que embora ainda não ditas serão logo desditas.
Cacofonia das palavras ditas. Tempo e Modo e o vazio
Das palavras que uma vez ditas serão logo escritas
No som das palavras que embora desditas
Serão sempre ditas…

… Retomo o discurso no ponto em que estávamos!

Manuel Veiga
In PERFIL dos DIAS – Pág. 104
Edição MODOCROMIA



14 comentários:

" R y k @ r d o " disse...

Palavras ditas e/ou escritas em versos sublimes.
.
Cumprimentos
Cuide-se

Cidália Ferreira disse...

Muito interessante, este poema!

-
Uma estrada vazia, um silêncio no ar

Beijo e um excelente dia! :)

Elvira Carvalho disse...

Palavras ditas num poema de difícil interpretação. Pelo menos para a minha ignorância.
Abraço

Graça Sampaio disse...

Adoro textos - poéticos ou não sobre - as palavras. E este está muito bom! Diferente do que o Poeta nos habituou. Mas igualmente muito bom!

Beijinho

Teresa Almeida disse...

Poema hipermoderno e tão enquadrado nos tempos que vivemos. Onde vamos? Não sabemos. Vamos vagueando nas palavras e voltamos ao ponto em que estávamos.
Não deixa de haver grande acutilância nesta constatação.
Gosto imenso de deambular pelo teu poema, entre sons que afinal ficam inscritos nas palavras. E cada leitor fará a sua própria viagem. Reside aí, também, o fascínio da poesia.

Um abraço, meu caro amigo Manuel.

José Carlos Sant Anna disse...

Caro Manuel,

Outra vez o poeta “brinca” com o papel atribuído à palavra e ao ato de dizê-la numa circularidade que o esclarece pela contaminação significante na reiteração de dizê-la.
Muito bom, meu caro Manuel!
Um abraço,


lis disse...

Sutileza.
Imaginação,
_ e depois que fez as palavras voarem,se'ditas ou desditas',
já teve eco entre nós.
Vamos retomar o discurso mVeiga

Olinda Melo disse...


Sim, é essencial retomar as palavras no ponto em que ficam,
sem cerceadura de espécie alguma. Tudo dito e explicado.
Depois de ditas e escritas já não se anulam, no sentido
de desdizê-las. A sua essência permanece.

E é tão verdade o que diz ,caro Poeta: "Desditas as palavras
continuam ditas!"

E se ao arrepio do que ficou dito as encontrarmos inseridas
noutras, já não, talvez, com o mesmo significado mas sabendo que
elas continuam ali e que serão desditas, porque o tempo e o
modo não são os mesmos?

Cacofonia ou pescadinha de rabo na boca.

Já dizia alguém muito próximo de mim: "O que contamina o
homem é o que sai da boca para fora " Nas palavras nos
salvamos mas também através delas nos perdemos.

Manuel Veiga, esta é uma das suas mais belas composições poéticas.
Talvez, extrapolando, encontro-lhe crítica pela volubilidade do que
se diz, do que se afirma, pela desvalorização da palavra dada ou
ou dita ou escrita.

Abraço
Olinda

Graça Pires disse...

É melhor retomares o discurso no ponto em que estávamos… Deambulo pelo poema, pelas palavras ditas e pelas desditas, e pelas escritas e pelas sempre ditas… Só tu para me deixares a cabeça à roda…
Foi bom ouvir o Zeca e o Adriano.
Muita saúde.
Um beijo.

Agostinho disse...

Caro Manuel Veiga
Leio a tua palavra feita
de muitas palavras e sons e
ao lê-la ouço-a e vejo-a
na ingénua fragilidade resistente
das coisas efémeras que nascem
se erguem e morrem em simultâneo
no mesmo instante
Contudo fica a sua ressonância
a percorrer o labiríntico ouvido
até à cerebral sedimentação
prontas a para reanimação
a cada madrugada por nascer
A palavra contém fermento de longevidade:
há-de renascer leve e pura
a cada Poema escrito e dito
Por isso te leio e ouço
as mesmas sempre novas
Poesias

Abraço

Fackel disse...

Hay palabras que nunca nacen.
Que se abortan.
Que quedan sepultadas por otras palabras que llegan después
y se imponen.
Palabras dichas que se desdicen.
Palabras que se fraguan pero cuyo acero
las deja inservibles para el combate de las palabras.
Hay palabras a medio hacer a medio crecer
y palabras que mueren por el camino.
¿Cuántas palabras que alumbramos van a dar luz
o van a transcurrir reforzando la oscuridad?
Pequeña palabra de los días
naciendo y muriendo entre nuestras vísceras.

Salud.





Fackel disse...

¿Conoces este poema del mejicano Octavio Paz sobre las palabras?

"Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas sus palabras."

Marta Vinhais disse...

Há palavras que ficam eternamente esquecidas... e outras que perduram porque há muitos sentimentos que a ligam...
Beijos e abraços
Marta

Tais Luso de Carvalho disse...

Olá, meu amigo Manuel, parece que esse belo poema foi escrito hoje, ou cabe mais do que nunca em palavras ditas, logo em seguida não ditas ou desditas. Há muita gente que fala, depois pensa e a bagunça se instala. É o que estou vendo nessa loucura pouco entendida ou desentendida em que vivemos. A pitada de ironia fina pôs muitíssimo interessante esse poema, foi dito tudo, mas levemente. Adorei.
Bjus, uma boa semana!

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