segunda-feira, julho 13, 2020

ROSTO EM RUÍNAS - Domingos Lobo


Andar por entre estes montes onde o verde
Desliza pelos dedos e neles se perde
Deixar na lonjura que os olhos debruçados
Num chão de estevas de trigo de valados

Poisar o farnel no tronco da azinheira
Esperar pelas tardes e pela companheira
Retrato desses dias: o corpo a envolver-se
Colar-se à tua seiva a dobrar-se a reter-se

O vento a dar à costa: vem lá dos frios do norte
A nostalgia a passar pelos montes sua morte
Sem encontrar sepultura entre as urzes do chão

Há quem se debruce no silêncio até à exaustão
No lastro do sangue que acende a haste gasta
Um pássaro pousado no meu ombro – isso me basta

Domingos Lobo
In O Rosto Em Ruínas – pág. 70
Coleção Água e Sede
Edição Modocromia

12 comentários:

" R y k @ r d o " disse...

Poema encantador. Deliciei-me a ler. Que soneto fascinante, poeticamente falando.
.
Tenha uma semana feliz
Cumprimentos poéticos

Elvira Carvalho disse...

Um excelente soneto de um autor que desconhecia. A minha gratidão pela partilha.
Abraço, saúde e boa semana

Anónimo disse...

Um grande escritor.
Um poeta imenso!

Tais Luso de Carvalho disse...

Maravilhoso poema de Domingos Lobo, da freguesia de Santa Comba Dão/Portugal e que vou pesquisar mais sobre esse poeta.
Beijo, uma boa semana e, com saúde tranquila, meu amigo.


"Há quem se debruce no silêncio até à exaustão
No lastro do sangue que acende a haste gasta
Um pássaro pousado no meu ombro – isso me basta".

Teresa Almeida disse...

Passei os olhos e entrei. E cada verso me deixa extasiada, mesmo que "a nostalgia ... não encontre sepultura entre as urzes do chão.

Parabéns ao autor e a quem o trouxe.

Beijos.

Cidália Ferreira disse...

Grandioso poema!! Amei 😘
~~
A Linha da Vida

Beijo e uma excelente Semana.

Boop disse...

Estranhamente (ou não) "um pássaro pousado no meu ombro" parece ser o que mais dificil há neste poema. Talvez a única coisa que não dependa da "minha" percepção ou vontade.

Manuel Veiga disse...

Anónimo,

anónimo escondido com orelhas de fora, não é verdade?
mais te valia teres assinado...

anoto, no entanto, a tua "catedrática" opinião
que aliás nada acrescenta à dimensão literária de Domingos Lobo
e muito menos a este blog

José Carlos Sant Anna disse...

Pois, "não me basta" um poema, quando sabemos que Domingos Lobo já publicou mais de nove livros, já arrebatou prêmios etc. O que nos trouxe já permite perceber o quanto a palavra lhe é íntima.
Um abraço, caro amigo!

Pedro Luso de Carvalho disse...

Caro Manuel, o Poeta Domingos Lobo, que estou conhecendo agora, neste excelente espaço dedicado à Prosa e à Poesia, escreveu um poema profundo (ROSTO EM RUÍNAS), que certamente merecerá dos leitores uma releitura. Uma ótima partilha, Poeta.

Uma boa semana amigo Manuel.

Grande abraço.

Olinda Melo disse...


Poema envolvente, este, de Domingos Lobo.
Um percurso bem delineado em que o Poeta recusa a exaustão do silêncio, optando por um toque de liberdade.

E ainda esta estrofe, em que me quedo, que nos liga ao essencial da vida, à seiva que encanta e alimenta:

"Poisar o farnel no tronco da azinheira
Esperar pelas tardes e pela companheira
Retrato desses dias: o corpo a envolver-se
Colar-se à tua seiva a dobrar-se a reter-se"

Muito obrigada, caro Manuel Veiga, por nos ter trazido este belo Poema.

Abraço

Olinda

Jaime Portela disse...

Li e reli este excelente soneto.
Obrigado pela partilha, pois acho que nunca tinha lido nada do Domingos Lobo.
Continuação de boa semana, caro Veiga.
Abraço.

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