sábado, setembro 25, 2021

OS LONGOS DEDOS DA SOLIDÃO ...

 

 

 Na lisa permanência do tempo ressaltam

De quando em quando, pequeníssimos fragmentos

Algumas frações mínimas – um relance de um rosto

Que se abre à nossa passagem e que saído da multidão

Parece querer abraçar-nos – ou uma outra notícia sem memória

Caída do cesto das notícias espessas

O do comentário erudito que nos emociona.

Ou, então sobra sempre o poema que um dia

Havemos de escrever e nunca mais vêm à claridade.

E, no entanto, haverá talvez uma mão clandestina

E uns centímetros aveludados da pele nua – uma carícia

Que fica tatuada na polpa dos dedos.

 

Porventura, um amor irreal coberto de palavras

Inventadas, onde o fogo abrasa e os dias  

Cristalizam em pequenas doses de tempo

Fluido – entre a quimera e a dor mordente –

Uma fina dor a desaguar na avalanche da vida

Onde se joga do “homo faber” e se perde a liberdade

Nas minudências festivas e no fervor das grilhetas---

 

Assim caminhamos, frágeis e vulneráveis

Por entre a multidão que nos é estranha

Apressados e sem tempo, que o tempo alienamos

E dele colhemos apenas  a margem e a miragem

Presos uns aos outros pelos longos dedos da solidão

 

 

Manuel Veiga

 

13 comentários:

" R y k @ r d o " disse...

Poema lindíssimo
.
Bom fim-de-semana.
.
Pensamentos e Devaneios Poéticos
.

Elvira Carvalho disse...

Um belíssimo poema.
Estou de volta. Cheguei ontem à noite, as férias interrompidas para não deixar de cumprir o meu dever de cidadã.
Abraço, saúde e bom domingo

Graça Pires disse...

Podemos caminhar sempre frágeis e vulneráveis, mas sempre em direcção às tuas palavras de Poeta maior, meu Amigo Manuel.
Cuida-te bem.
Uma boa semana.
Um beijo.

São disse...

Os longos dedos da solidão por vezes nos sufocam, mas noutras libertam-nos de presenças funestas...

Do teu poema, gostei muitissimo.

Beijinho com votos de que estejas bem e tenhas óptima semana

Pedro Luso de Carvalho disse...

Olá, meu caro amigo Manuel Veiga,
na metalinguagem o poema desenvolve-se, de passos lentos para outros passos mais rápidos, que cavam caminhos abaixo da superfície, saindo acolá como se estivesse com asas levando o espírito do poeta para os raios de sol.
Belíssimo poema, caro amigo Manuel. Parabéns.
Desejo a você uma ótima semana, com saúde e cuidando-se.
Grande abraço.

Ailime disse...

Boa tarde Manuel,
Um poema muito belo que só os Grandes Poetas podem conceber.
Parabéns pela inspiração e criatividade poéticas.
Gostei imenso.
Um beijinho e continuação de boa semana.
Ailime

Agostinho disse...

Um poema, para não variar, óptimo.
Os dedos longos da solidão prolongam
a palma receptora na ânsia da posse
Recurvam-se para acolher partículas de felicidade
Porém, ralos, não aproveitam a felicidade
caída do céu,
aleatoriamente

Saúde, Amigo Manuel Veiga
Abraço.

Olinda Melo disse...

"Os dedos longos da Solidão" - título que nos toca fundo.
É quase um Poema, por tudo o que adivinhamos no seu
âmago - a Solidão esse mal que assombra tanta gente.

Mas o Poeta suaviza esse percurso aqui e ali, encontrando
momentos que nos inspiram...e vemos que nem tudo se resume
a solidão "tout court".

Emocionei-me com este seu Poema, Manuel Veiga. Admiro a
sua arte de bem escrever e de despertar emoções.

Abraço
Olinda

Juvenal Nunes disse...

Como alguém disse longos dias têm cem anos.
Abraço amigo.
Juvenal Nunes

Jaime Portela disse...

É assim a vida...
Excelente poema, uma peça literária de alto gabarito.
Continuação de boa semana, caro Veiga.
Abraço.

Tais Luso de Carvalho disse...

Meu amigo Manuel, li, reli... e deu-me uma tristeza, um nó na garganta. São certas emoções que aparecem, seja por nos encontrarmos enfraquecidos, vulneráveis ou talvez porque senti uma certa tristeza nesse belo poema. Solidão é sempre uma palavra que nos coloca a refletir muito, nos sentimos tão impotentes diante desse sentimento de abandono que penso ser um dos piores. Nunca o senti, mas já vi o estrago que faz.

"Assim caminhamos, frágeis e vulneráveis
Por entre a multidão que nos é estranha
Apressados e sem tempo, que o tempo alienamos
E dele colhemos apenas a margem e a miragem
Presos uns aos outros pelos longos dedos da solidão"

Um bom fim de semana, SAÚDE, poeta!
Beijo

Teresa Almeida disse...



Fico a moer as emoções que o poeta plasma nas palavras. Estilhaços de luz no ondular da vida. E sem sombra não perceberíamos a claridade.

Poesia, reconhecidamente, de qualidade superior.

Grande abraço, meu amigo Manuel veiga.

Janita disse...

A solidão tem braços e dedos longos. Actualmente, abarcam toda a Humanidade. Poucos conseguem não se deixar agarrar por esses dedos.
Excelente, caro Poeta.

Um abraço

  A viagem aproximava-se do fim. Até Celorico, seria uma escassa meia hora de ronceira marcha do comboio. Depois, mais uma hora, em estafada...