segunda-feira, setembro 20, 2021

Tudo Muy Digno e Literário...

 

O descuido dos deuses é coisa grave. E grossa.

E coisa muito feia: “Mas de tal asneira, não me vem

A mim canseira” – diz o estouvado pardalito

A luzir a pena. E a distender a asa

Ao sol de Fevereiro.

 

Pois se Bocage – esse safado! – por Circe

Foi amado – (“não lamentes, ó Circe, o teu estado”)

Filha de gente boa, que não comia carne

À Sexta-feira e foi, no seu tempo, como se sabe

A mais frequentada "putisa" de Lisboa

 

Tudo visto e ponderado, enfim, por que razão

O pardalito não haveria de molhar o bico?

Bem sabendo – militar que fora – o risco

Que corria de poder ficar torriscado

Com façanha tamanha …

 

Porém, de tal horror, parece estar safo

O pardalito aziago… E ergue-se, agora, garbo.

E liso. E larga valente manguito

Para a Circe e o Sadino que – salta à vista –

De Elmano não tem nada – o coitado!

 

E o desabusado pardalito, impante em suas razões

A evitar confusões e promíscuas comichões

Requer, em fervor, aos deuses, grã favor :

Que estes não se façam acanhados

E, poderosos, soltem, enfim, piedoso flato

Para deleite em que a donzela se enfeite

Ou capriche. E proveito do artista

Convidado.

 

Tudo isto com muito resguardo

Tudo muy digno e literário …

 

E muito, muito perfume, está claro…

 

Manuel Veiga

 

 

9 comentários:

- R y k @ r d o - disse...

Poema sublime, maravilhoso de ler.
.
Saudação poética
.
Pensamentos e Devaneios Poéticos
.

Graça Pires disse...

Não falta ironia nem humor neste seu poema. Confesso que gostei muito do pardalito...
Que se cuidem bem, meu Amigo Manuel.
Uma boa semana.
Um beijo.

Janita disse...

Fui sorrindo de verso em verso,
e termino com uma saborosa gargalhada.

Oh sadino, tramado e traquino,
És mais Poeta e mais ladino
Do que o maior entre os maiores Poetas
Sabedores da Arte de muito falar.
Não dizendo nada,
Neste mundo muy digno, da Literatura proscrita.
De forma crua e descarada.

Parabéns, Poeta Herético - sempre firme, no seu ar de Profeta do descrédito.

Há muito que não leio nada tão perfumado, impregnado de um subtil aroma de saber inigualável.

Um abraço sincero. :)

Tais Luso de Carvalho disse...

Descendo o espirituoso poema do pardalito fui rindo e quanto mais descia, mais sorrisos dava!
Primeiro poema que leio aqui tão repleto de ironia fina, aliás, gosto imensamente!
A página hoje está divertida, olha a bagunça que esse medonho pardalito
está fazendo!! rss
Uma feliz semana, meu amigo. Cuide-se bastante.
Beijo

Maria Lucia (Centelha) disse...

Muito,muito bom!!
Seu senso de humor mesclado com um sentimento puro ,inspirado tornou esse poema um deleite pra minha leitura. Parabéns!!!
Beijo terno 💋

Teresa Almeida disse...

A sátira dá-te um prazer especial, e a nós também. Não há como negar o teu enorme talento.

Beijos, poeta amigo Manuel Veiga.

Pedro Luso de Carvalho disse...

Bravo!
Gostei muito de ler esse seu poema, que reflete o talento inquestionável
do Poeta, cuja obra poética tive a oportunidade de ler em parte, aqui nesse espaço.
Meus parabéns, caro amigo Manuel Veiga, um excelente final de semana, cuidando-se. (máscara e distanciamento)
Grande abraço!

© Piedade Araújo Sol disse...

MV

ironia e criatividade.
gostei bastante deste trabalho poético.
bom final de semana.

:)

Agostinho disse...

O Poeta sabe da "poda" e pôs-nos
a viver um filme,
uma aventura picaresca.
A gente ri.

Ver esta coisa do saber
de escrita do sadino ladino
não chega para poetar,
não basta, requer também o viver:
subir escadas e descê-las,
sempre de corrimão na mão
para não se perder

Pardalito que não molha
o bico está morto ou foi
frito em perfume de sertã

Abraço, Amigo Manuel Veiga

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