quinta-feira, março 26, 2015

Nos dias oblíquos em que declinamos...


Nos dias oblíquos em que declinamos a míngua
Como memórias de cal nos muros da cidade cercada
Toda a realidade é plana...

A brisa e o Tejo e o mar com suas ondas
São memórias de olhos gastos que persistem e
Teimam em medir distâncias pelos relógios que inventam
Em delírio de corujas nocturnas nas torres cimeiras de outrora...

Restos apenas evanescentes que os homens ignoram
Acorrentados ao jugo e à galera do tempo e ao ritmo
Dos remos. Música que suaviza o látego
E obscurece o entendimento como a gruta de sombra
E a mortiça lâmpada a escorrer luz de um só lado.

Somos essa dança de espectros e a imagem invertida
Projectada nas costas dos anjos que lhe dão asas
Multicores e novas Catedrais celebram no desenfreado
Jogo que tudo contamina e logo se extingue
No colapso dos altares inebriantes em que ardemos...

Somos o cordeiro mártir na ara do consumo e
Inflamamos a velas do Espectáculo que nos perfura os olhos...

Talvez a Catástrofe seja o novo nome das coisas.
E os muros da cidade sejam um espelho solar
Enorme. A acumular o grito libertador...

Manuel Veiga




quarta-feira, março 25, 2015

terça-feira, março 24, 2015

HERBERTO HELDER



"Olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela
atravessar vozes leves e ardentes e crimes
sem roupa. 

Existe nas ilhas um silêncio para
a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio de febre
para o lado de uma canção

                                                           terrível e fria"


Herberto Helder
"Poesia Toda" - pág.178 - 2º volume - Plátano Editora- Lisboa - 1973