sábado, janeiro 14, 2017

DE NOVO A MONTANHA


De novo a montanha e um silêncio íntimo
Em que percorro veredas d´água. E o magma
E nesse fogo se condensam estalactites. Afectos agora
Evanescentes. Essências matriciais ainda.

Fecha-se o círculo. Em redor as brumas
E os rostos. E os cheiros. E esta pedra
Em que trôpego desfaleço. A febre quente.
E o suor frio. E o grito d´alma que voa
Qual corrente. Veleiro sem regresso
Nem destino certo...

A vida? Esquivas corsas que de tão lestas
Se pressentem e apenas no rasto se iluminam.
Fortuitas são as horas. Não o caçador negro
Nem o coração da pedra. Apenas a água
(E sal da lágrima) são lírios e são heras.

Guardo sôfrego este silêncio e me retiro.
O fogo é agora esta paixão de nada: o eco de calcário
E meus dedos brasa. Poeira e caliça.

E muros derrubados.
E esta centelha viva que na queda
Se derrama.

Fim de tarde
Que no declinar do sol
Se incendeia.

Manuel Veiga

"Do Esplendor das Coisas Possíveis" - Poética Edições
Lisboa Abril  2016

sexta-feira, janeiro 13, 2017

O Silêncio é Um Muro Branco


O silêncio é um muro branco brandido
Como lâmina de palavras mortas
Que não ferem, apenas prolongam
O côncavo reflexo da luz nos olhos
Num aceno brusco de virar rumos.

Uma luz ácida de memórias ainda vivas
Que corrói em ondas íntimas e se esfuma
Qual névoa de crispada (e caprichosa) forma
Na esterilidade de desertos inesperados.

Apenas o som cavo de um celo
A modelar a noite e a iluminar o espaço
E nele o teatro de absurdas sombras
Em que o poeta se encena mudo
E recolhe a apoteose de fel (e mel)
A escorrer nos lábios crestados.

Manuel Veiga