sexta-feira, agosto 23, 2019

A Fava Que Nos Calha ...


No gosto da fava
Que na boca nos calha
Haja dente para ferrar o naco
E guardanapo para limpar
A migalha...

De queixo caído
Que fiquem o invejoso
E o velhaco
Mais sua tralha
A mastigarem raivinhas
E o perdigoto,
Que caiu no goto
Cá da maralha
Que não vai ao pote
E pouco come
Mas saiu-lhe a fava...

E fica então o dichote
Que é como quem diz
Uns comem a fêvera
E os burros a palha...

Manuel Veiga

quarta-feira, agosto 21, 2019

VIBRAÇÃO DE LIRA

No desenho dos dias um gesto
E uma cadência. Ou o rubor de uma cor
A latejar viva sobre a tela.

Os dedos buscam o recorte imaculado
Das linhas. E, do poema, o poeta
O primeiro verso.

E a dança inaugural
Sobre a lombada das distâncias
E o movimento da luz
A desabar no dedilhar da lira.

Ou o último silêncio
E o esplendor de um livro aberto
Tombado sobre o colo...

Manuel Veiga



sábado, agosto 17, 2019

EM LOUVOR DE LYDIA ...

Jogam os deuses aos dados. E concedem-nos
Esta hora provisória. Ergamos a taça
E celebremos, Lydia!...

A flor que colho poderia não ser.
Bastaria que outra fosse a cor
Com que enfeito teus cabelos...

Mas os cabelos são loiros. E vermelha, a flor –
Isso nos basta !...

Recolhe pois a inquieta ruga.
E o arrepio – que o Universo é apenas filosofia
Infinita forma abstracta por onde descemos
Até ao rio que nos leva
E à brisa que nos guia...

Enlacemos os dedos, Lydia!
E a tarde cai.

E há fios de Sol
A bailar em teus cabelos.

Manuel Veiga

"Do Esplendor Das Coisas Possíveis" . pág. 72
POÉTICA Edições - Abril 2016

Nota – Lydia é uma criação literária de Ricardo Reis