sexta-feira, julho 03, 2015

TALVEZ O CAOS SEJA ROSÁCEA ...


Talvez o caos seja rosácea
Antes do fogo que os dedos tecem no cinzel
E a pedra a absurda permanência da forma
Em si fechada...

Talvez a poalha do tempo fecunde as cidades
E as ínfimas coisas se ordenem e expludam
Como corolas em delírios de cristal...

Talvez a vontade dos homens seja excesso
E rasgue as veias das galáxias
E o surdo rugir do mundo inunde a consciência
Dos escravos...

Talvez a Palavra seja inóspita
E os hinos sejam
Derrocada das muralhas...

Manuel Veiga - in "Poemas Cativos" 

quarta-feira, julho 01, 2015

segunda-feira, junho 29, 2015

FRAGMENTOS VI - Outras personagens no proscénio...



Não, não o Autor não existe. Nem o Sujeito tem história. Em certo sentido pode mesmo dizer-se que o sujeito “está fora da estória”, meteorito apenas, fugaz, deixando, quando é o caso, um rasto luminoso, outras vezes nem tanto, apenas colapso no interior do magna, evanescente, condenado à sofreguidão e à imprevisibilidade da palavra, que o atira para limbo das nocturnas excrescências. Descartáveis. Quando muito poderá ser “partenaire” que na encenação, se assume cajado apenas, artesão ou mestre, porta-voz ou palhaço, cerzindo os enredos da palavra e os caprichos das personagens, iludindo as sombras e aquietando a luz, como tule de ilusionista.  

Nem, em verdade, a narrativa tem Tempo. Mas antes confluência de tempos, artificio, linhas quebradas de um rosto, onde se configuram vários rostos, informes, distorcidos, desordenados, como se o caos da palavra buscasse uma passagem secreta, demiúrgica, uma ordem invisível, que uma vez iniciada logo se fundisse na imensidão de coisa nenhuma, como se acontecimentos, imagens, descrições, estados de alma ou ritos, em tropel de despenhassem num grito de luz branca e o sentido fosse apenas eco.

Apenas o leitor salva o texto, em sua glória ou colapso.

O capitão destacara-o, para o extremo nordeste do território, com o objectivo de fazer o levantamento das condições de instalação de toda a Companhia e, com o respectivo pelotão, reforçado com uma secção de engenharia, adaptar ou construir as infra-estruturas militares essenciais, ainda que precárias, que até então destinadas a uma simples secção de 15 homens, e que passariam a servir uma Companhia completa de mais de 120 militares.

Aquela zona de quadrícula estava ainda relativamente imune a acção da guerrilha, dizia-se. Mas as necessidades operacionais, decorrentes da nova estratégia introduzida pelo novel governador militar, determinaram que a até então pequena secção, comandada por um furriel miliciano e um pelotão de milícia indígena, comandada pelo filho do Régulo, fosse substituída por uma companhia operacional completa.

É assim que, depois de mais de ano e meio de constante intervenção, no teatro de operações, à ordem do Comando Chefe, a Companhia de Cavalaria, com os homens exaustos pela insistente intervenção militar nas operações de maior risco, pelos quilómetros percorridos, pelos tiros, pelas minas e pelas baixas, o Supremo Comando Militar da Província destinara-lhe aquele local recôndito, onde se as coisas corressem bem, a Companhia passaria o resto da comissão, apascentando patrulhamentos de rotina, em relativa acalmia.

Antes porém da transferência da companhia e depois de uma visita de reconhecimento pelo capitão, comandante da Companhia e de um oficial do comando da Batalhão, havia pois que com urgência realizar as obras necessárias. Missão árdua e com prazo limitado, mas que permitia ao Alferes uns dias de distanciamento da rotina asfixiante do quartel, entre as ginástica e a ordem unida, o rancho e a caserna, a chamada e o toque de recolher, a distribuição do correio como meses de atraso, “nós por todos bem”, o poker e o king, a farda nº1 todas as noites ao jantar com o comandante do batalhão, o celebrado “cuequinhas de renda”, assim designado na parada e na caserna, aquela conversa mole, como cerveja quente, a escorrer das bocas com o último bocejo na sala de oficiais.

Ansiava o Alferes por as leituras em dia, agora que o acaso o levara à descoberta, na diminuta livraria de Bissau, numa edição em francês do “Estrangeiro” de Marcel Camus e o almejado “Dannés de la Terre”, do argelino Franz Fanón, sobre a guerra da independência da Argélia, que em Lisboa corria então clandestino e de que ouvira falar com entusiasmo, mas nunca às mãos lhe chegara.

Aceitou por isso com bonomia o seu destino e a missão, bem sabendo ele que a uns bons quilómetros de distância, não teria interferências, nem dificuldades no comando do seu destacamento, cujos homens de uma maneira geral o estimavam e que o furriel Serrão, com um curso de construção civil pelo ISE, arcaria com a responsabilidade das obras, numa versão moderna e actualizada de um velho principio da arma de cavalaria que rezava ser “obrigatório o sargento saber ler e escrever, porquanto o oficial, por ser fidalgo, poderia não saber”.

"Fidalguias" e livros à parte, assim o Alferes se sentiu, administrando o comando dos seus homens à distância e as obras a cargo do sargento, deliciando-se em suas leituras subversivas e outros prazer do espírito.

Assim devera ser. E, no entanto...
         
Se lugar algum houvesse, aquele seria o Centro, o local do Crepúsculo, o palco de todas as celebrações, onde o Desastre se incendeia, como larva em corpo decrépito. E fora o autor outra coisa que não mero espectador e teríamos então a apoteose fogosa, a ilustração do Declínio, a Putrefacção rarefeita, a síntese da Decadência, como se “a coruja de Minerva”, (que dizem-me velhos alfarrábios comanda o cavalgar da História e que apenas canta ao anoitecer) em seu voo nocturno, de um golpe clarividência, iluminasse todos os fundamentos e razões, numa premonição de Apocalipse dos dias futuros da guerra e da iminente queda nos abismos da derrota.

E talvez outras personagens pudessem entrar em cena a representar o seu próprio papel, que dizer, o papel das suas ignoradas vidas, no interior do sistema colonial...