quinta-feira, Novembro 20, 2014

HUMANOS - MARIA ALBERTINA (videoclip)


DA IMPORTÂNCIA DO NOME....


A Revolução liberal de 1789, como se sabe, aboliu os privilégios pessoais. E, na sua pulsão libertadora, fundou uma nova ordem social e proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão para a qual “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos; as distinções sociais não podem ser baseadas senão na utilidade comum.”

Em consequência, a partir daí, o direito ao nome, no conjunto dos direitos de cidadania, não será mais objecto de outorga, isto é, imposição ou dádiva, mas antes considerado como direito natural, inerente a todos os indivíduos.

Sinal imprescindível da personalidade, o nome pessoal extravasa, porém, a palavra que o enuncia. Representa, sobretudo, aquilo que somos; ou seja, o nome é o símbolo que reveste o seu titular e unifica o indivíduo: estrutura corpórea, mas também a dimensão psíquica e conjunto de valores éticos, políticos, intelectuais e morais, que definem o carácter.

Por outras palavras, o nome constitui o sinal mediante a qual a sociedade nos interpela, a evocação pelo qual somos reconhecidos durante toda a vida e, de alguma forma, nos propaga no tempo, pois que, como símbolo da identificação e da individuação pessoal, nos vincula à nossa vivência e ao mérito (ou demérito) da nossa participação colectiva.

Na sua dimensão simbólica, o nome pessoal é também expressão de uma ideologia: de classe, de grupo ou de uma família. Os nomes pessoais falam para além das pessoas que designam. Revelam mais do que afirmam. Desde logo porque, hoje em dia, para as grandes massas aculturadas pela ideologia dominante são um fenómeno de moda. (“Maria Albertina porque foste nessa/ de chamar Vanessa/ à tua menina?”).

Noutros casos, sobretudo, nas classes dominantes, o nome pessoal é a projecção social de um futuro que proclama, por isso, no nome de baptismo se inscrevem as referências familiares dos antepassados mais distintos, num processo que (dir-se-ia) da mesma natureza com que os primitivos usurpavam o nome dos animais ou fenómenos naturais que os seduziam. Em boa medida, é verdadeira a expressão “diz-me como te chamas, dir-te-ei quem desejariam que fosses...”

Este fenómeno é replicado nos processos democráticos ou revolucionários, em que os nomes de líderes e de vultos destacados são assumidos pelas massas e os inscrevem no registo dominante dos nomes próprios em determinado momento histórico. Por exemplo, na geração do post 25 de Abril, são frequentes os nomes de “Vasco” e de “Catarina”, como homenagem a dois vultos maiores da revolução – Vasco Gonçalves e Catarina Eufémia.

Acontece que, na sua expressão simbólica, os nomes podem ser manipulados como instrumento de luta ideológica. De facto, como se referiu, o nome é direito natural de que todos homens, sem distinção, são sujeitos. Quer dizer, portanto, que o nome igualiza todos os homens, colocando-os, ao menos no plano formal (deixando por agora de fora as desigualdades derivadas da situação concreta de cada um no sistema de produção), em lugar idêntico perante o direito e a sociedade.

Mas se o direito igualiza, a ideologia distingue.

Vejamos. Os nomes produzem um efeito especular, unificador das características pessoais de cada um, que no seu conjunto definem a sua individualidade própria, como ficou dito. É mediante esse efeito que os indivíduos em concreto se reconhecem e a sociedade os interpela como homens e cidadãos. Eliminar ou elidir alguma das características individuais expressas simbolicamente no nome, será diminuir a personalidade do indivíduo. Ignorar deliberadamente o nome de uma pessoa é, de alguma forma, decretar a sua “morte civil”...

Quem seguiu atentamente, tempos atrás, os debates entre os líderes políticos, no contexto de umas eleições para a Assembleia da República e verificou a persistência da dr.ª Ferreira Leite, na altura presidente do PPD/PSD, em ostensivamente evitar pronunciar o nome de Jerónimo de Sousa, Secretário-geral do Partido Comunista Português, compreenderá o que pretendemos dizer.

Na boca da ilustre senhora, Jerónimo de Sousa foi sistematicamente nomeado como “senhor deputado”, privilegiando, face ao respectivo nome, o lugar institucional em que o Secretário-geral do Partido Comunista se move. Com um duplo efeito ideológico. Por um lado, negando, isto é, não pronunciando o seu nome próprio (Jerónimo de Sousa), negava-lhe também a distinta senhora a igualização social, no igualitário plano do contexto do debate.

Por outro lado, elidia (para além das efémeras funções de deputado), porventura, sem disso se dar conta, outras notáveis qualidades, que irradiam da personalidade do Secretário-Geral do Partido Comunista Português – p. ex., a sua história de vida, a sua militância política e a sua condição de comunista – e que, essas sim, dão “densidade” à personalidade de Jerónimo de Sousa.

O episódio traz-me a memória o célebre senhor Jordan, deliciosa personagem de Moliére, que “falava francês, sem o saber...”. Assim, passados mais de três séculos, também a nossa "mais esclarecida" burguesia, por ignorância e preconceito (ideológico), e com agudo instinto de casta, “faz ideologia ...  sem o saber!”.

Manuel Veiga




segunda-feira, Novembro 17, 2014

FRÉMITO DE INSUBMISSA HUMANIDADE...


Mais além cumes desérticos e eternas neves
No colapso dos dias. Veredas de solidão na vertigem
E no abismo das cidades onde a cólera em surdina
Compõe a sinfonia do medo. E os pombos tombam
Feridos pelo ar fétido que respiramos impudentes...

Efémeros despojos na pantalha são pretexto
Das bombas incendiárias que trazemos no olhar
Do grito dos passos nas calçadas e das gargantas
Mudas. Do terror gelado no sangue supérfluo
Que derramamos - pão incerto que nos roubam!...

Despimo-nos e vestimo-nos na nossa nudez frágil
Como se o arrepio da pele fosse fluidez de orgasmo
E as heras que nos habitam e entopem as veias
Fossem diapasão de verdade ou memória de destroços
A que nos agarramos pressurosos de eternidade...

Por isso a montanha e os gelos. O refúgio de pássaros
Deserdados. E de itinerários perdidos na distância
Dos dias verdadeiros. Por isso o sonho crepuscular
Rangendo estéril de tão perfeito. Canto desesperado
Que em vão ecoa. Praças e rios que se negam fugidios...

Antes a harmonia do caos. O declive das colinas.
A imperfeita palavra. E a poética sem rima. E a luz.
E a treva. O sal das lágrimas e a raiva. E o punho.
E o sabre. E o peito aberto. E o caminhar vagabundo.
E o sangue em frémito de insubmissa humanidade...


Manuel Veiga