quarta-feira, maio 27, 2015

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LXV


Babilónia anda deprimida e mal-humorada...

Com o cinto apertado e a bolsa a tinir, os babilónicos moem-se em azedume e vinagre – e vingam-se em desacatos...

Muitos não aguentam e são encerrados em hospícios!...

“Que nada lhes falte!...” – ordena Hammurabi, o legislador. E reforça os meios para lhes controlar a violência – quiçá, a velha prática da lobotomia...

A praça, de tão néscia, nem se dá conta...
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E um frade hospitaleiro, alucinado de penitências e longo cativeiro: “Erguei-vos, babilónicos! Antes que suguem o sangue e vos queimem os fusíveis...”   

segunda-feira, maio 25, 2015

FRAGMENTOS I - O Melro e a Guerra...


O autor não existe. É um ponto neutro, uma emergência ou, porventura, um cruzamento de possibilidades por onde perpassam os filamentos de uma trama, que não sabe bem como encenar-se. Nem muito menos é um manipulador que, por detrás do pano, se esconda e, na obscuridade do proscénio, desenhe os lances da dramatologia em que se joga a contragosto, pois que, se autor fora, assumiria o registo linear da forma e da escrita, como redenção ou glória.

E, então, porventura, obra seria - sabe-se lá se poema, se novela...

Nem o tempo, nem o espaço existem, devorados naquela noite de relâmpagos e medos, os corpos em chaga e lama e o dilúvio tropical despenhando as atrocidades da guerra num buraco negro, de que não há refúgio. O absoluto Nada no arrepio da alma transida e a tempestade soberba, fazendo da metralha um bailado mortífero, fantasmagórico, replicando fogos-de-artifício perdidos, que, como bálsamo, emergem da noite, miasmas da memória em chama atiçados no nó em que os corpos se enrolam, sem outra saída que não seja o desesperado desejo de diluir-se na noite ou fundir-se na água.

Então a fuga redentora, inconsciente, provinda do fundo do medo, físico e viscoso, para os dias solares da infância e o cálido regaço materno, como quem ajusta contas, em desespero, no deve e haver da vida. E na agitação febril, sobre os gritos, os trovões e o metralhar das armas, o incêndio do sonho ganha então asas e entretece um murmúrio de luz inesperada no olhar do menino perdido, elevando-se na noite negra

 ... E o menino, nesse dia, fizera gazeta!...Que raio de ideia, essa de ir à Escola, quando no alto dos negrilhos caprichavam mil cores de um sol primaveril, prenhe de desejos - sabe-se lá de quê!...

Coaxavam rãs no regato e soltavam-se lírios selvagens nas encostas. Mas nem uns nem outros, naquele dia, mereceram mais que um pedra atirada, fazendo silenciar os juncais...

Os lírios, esses sim estivera tentado!... Sabia que mereceriam um beijo longo e doce e os dedos nos cabelos, que tanto o arrepiavam de afecto, quando os despejasse no regaço da mãe, com desprendimento: - “toma, mãe, colhi para ti!”...

Mas que justificação daria? Não, mais valia prosseguir...

O destino era um melro negro e cantador, que o desafiava todos os anos, entre silvados, e que era motivo de chacota lá em casa, com o “Zé Fardela”, na sua ternura boçal, a espicaçar, trocista: -“ Já acertaste com o melro, rapaz?! Querem ver que o malandro do pássaro ainda vai fazer o ninho no teu buço e, mesmo assim, não és capaz de o descobrir!...”

Enchera-se, portanto, de brio. Desta vez, tinha que ser. Mas ninguém saberia. Aquilo era desafio solitário: de homem para melro!...

Esgadanhou as mãos em silvados, trepou frondosos freixos e, titânico, prosseguiu manhã fora. Na ponta dos galhos o melro, com seus trinados, desatinava-o, na sua malvadez trocista. A cada aproximação, sem se dar por achado, o melro voava cada vez mais longe...

Frustrado, adormeceu sob a copa protectora de uma árvore centenária durante minutos, que, no sono, foram horas. Levantou-se inquieto e, qual melro alvoroçado, ergueu-se espavorido... Então, sobre a sua pobre cabecita de castanhos caracóis, o esvoaçar inesperado do casal de enamorados melros.

Lá estava o ninho, ali mesmo, sem dar por nada, como se fora dádiva do Céu...

Um estertor rouco, satânico, um estampido brutal, como se o Céu desabasse e o Inferno rebentasse nas entranhas da terra e, em chamas, fulminasse a noite e tudo se fundisse, tempestade, homens e selva, nesse brado imenso, que ecoa ainda nos ouvidos atordoados, irrompe em sua absurda e inescapável realidade.

O menino e o sonho e o bálsamo fantasmagórico da memória, são agora o odor acre da pólvora e dos corpos calcinados e o sangue e os gritos e as pernas e os braços decepados voando e as vísceras e as tripas e toda a merda de que somos feitos, escorrendo na lama, que nem chuva alguma, nem o dilúvio, alguma vez lava...

Apalpou-se, estava vivo! E inteiro...

E o menino, que ainda hoje se emociona com o cantar trocista dos melros na sua memória, sabe agora, como a mãe lhe dizia para acalmar juvenis ansiedades e medos “aquilo que é verdadeiramente nosso, em nossos braços vem cair”.

Até a morte!...

Manuel Veiga
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sábado, maio 23, 2015