terça-feira, outubro 23, 2018

SERENOS CORREM OS RIOS...


Serenos correm os rios e com eles
As tumultuosas águas se enternecem e se dobram
Na plácida hora. Nada neste estio
Se agita para além do sonho
E do sobressalto do sangue
Em louvor dos afluentes:
Sons que distantes
Celebram os percursos
Da memória
Incendiada…

Sou este percurso de sílabas
De um alfabeto inventado
Em que me digo nesta vertigem
E nos inaudíveis sons
Que respiro no alvoroço
Das margens…

E nesta torrente de plenas emoções
E dulcíssimas águas…


Manuel Veiga

(Poema editado)

segunda-feira, outubro 22, 2018

sábado, outubro 20, 2018

De Regresso à CASA - Epílogo - Do Amor e da Guerra


 (…) e a extensa fila de almas, fora do tempo e do espaço, a agitarem-se e a protestarem o respectivo lugar na ordem de chegada, pois apenas entram no Céu aqueles que nele acreditam e o Soldado Assobio, misto de Arcanjo S. Miguel e de bobo, saído de qualquer página de Gil Vicente, sem mãos a medir, a registar e a pesar a almas e gritar “ó da barca!” e a encaminhá-las, as almas, para a barca do Céu ou para a barca do Inferno, conforme o respectivo peso, e agora neste tempo fora do tempo, o glorioso Padre Manuel, tio e padrinho de Raquel, por sua santidade nomeado Prior-mor do Reino dos Céus, a chegar à porta para serenar o chinfrim do dito Manoel Caetano. avô paterno do Alferes de Cavalaria, que alferes foi, oficial adjunto do Comandante de Companhia, por acaso de graduação militar e seu padrinho de baptismo, algures numa aldeia ignorada no norte do País, bem como o Padre Casimiro, que de padre tinha o direito de rezar missa, mas ele a rezava quando muito bem entendia, que outros afazeres e prazeres o corpo lhe pedia, unha com carne, Padre Casimiro e Manoel Caetano, que ambos se negavam a entrar no Céu sem as pipas de vinho e os presuntos que com eles traziam, pois Céu não concebiam sem boa pinga e uma boa lasca, mais a mais o Assobio descobrira na nesga do registo de almas, serem ambos putanheiros e brigões, de tal forma que o Arcanjo Assobio lhes negava a entrada no Céu, não fossem eles, brigões e putanheiros, a desfazer o equilíbrio perfeito da Santíssima Trindade, o que seria o verdadeiro Caos, com o Céu e o Inferno a confundirem-se e misturarem-se e, daí então, a alma piedosa do Padre Manuel, Prior-mor do Reino dos Céus, a garantir ao atarantado Arcanjo Assobio que conhecia aquelas almas há mais de uma Eternidade e que eram, apesar dos seus exageros, almas generosas e pias e que aquilo escrito nas laudas do registo de serem brigões e putanheiros eram calúnias levantadas pelos “talassas” do Paiva Couceiro, que nos tempos idos da “traulitada monárquica” no norte do País, apenas os dois, Padre Casimiro e Manoel Caetano, valentes e feros, à força de bordoada, correram com a secção de “talassas”, aboletados na sede do Concelho e arriaram a bandeira monárquica do edifício da Câmara Municipal e, em seu lugar, como era devido, colocaram a bandeira da República, removendo assim um inesperado obstáculo ao livre curso dos desígnios da Divina Providência, sendo de levar também a julgamento, como atenuante dos dois amigos, brigões e putanheiros, a circunstância do Padre Casimiro, com sua imensa Sabedoria das coisas do Mundo, ter salvo o jovem Aspirante a oficial miliciano, tenro ainda, em primeira recruta, que aliás exibe o nome honrado de seu avô, Manoel Caetano, das garras e da cobiça da menina Gertrudes, mais conhecida por “Papa alferes” e de sua tia Dona Miquelina, que a imensa Misericórdia e Bondade de Deus as levou para o seu Santo Regaço e fez delas as faxineiras do Céu e, assim, disse, ao atarantado Arcanjo Assobio, a alma do santo e piedoso Padre Manuel, que morreu, como bom pastor, no exercício de seu múnus sacerdotal, rodeado de suas ovelhas, que nunca lhe faltaram com a côngrua e, louvado seja Deus, nem com a assistência à missa, roído por uma ferida ruim que lhe corroeu a garganta e agora por mercê de Deus, Todo Poderoso, Prior-mor do Reino dos Céus e, assim dito, se aprestou, ainda que contrariado, o atarantado Arcanjo Assobio, que “apoucalhado” fora e agora, neste tempo sem tempo, zeloso pesador de almas, a deixar passar para a Glória dos Céus os dois amigos brigões e putanheiros, as pipas de vinho e os presuntos, sem que S. Pedro, em breve (ou propositada) soneca, tivesse dado por conta. Assim se abriram as portas do Céus, aos dois amigos, feros e brigões, mas capazes de darem a camisa, a quem, dos seus, dela precisasse e, em cortejo celeste, guiados pela alma tísica do Padre Francisco, a quem as humaníssimas dores e o amor de Raquel haviam resgatado das chamas do Inferno (…)


Manuel Veiga
“Do Amor e da Guerra” – Epílogo
Romance – edição Modocromia 



Fecha-se o ciclo em beleza!
"DO AMOR E DA GUERRA" na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro - Lisboa

No final será servido Moscatel do Douro acompanhado de Folar de Trás-os-Montes e, para aqueles/as de gostos mais "substanciais", pasteis de bacalhau e vinho tinto da região.

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