segunda-feira, maio 30, 2016

DÁ-ME LÍRIOS E ROSAS TAMBÉM - Álvaro de Campos


“dá-me lírios, lírios
e rosas também
mas se não tens lírios
nem rosas a dar-me
tem vontade ao menos
de me dar lírios
e também rosas.
basta-me a vontade
que tens – se tiveres! -
de me dar lírios
e rosas também
e terei lírios
- os melhores lírios! -
e as melhores rosas
sem receber nada, 
a não ser a prenda
da tua vontade
de me dares lírios
e rosas também...”

Álvaro de Campos



sexta-feira, maio 27, 2016

DESTE LADO DA PAISAGEM...


Nada. Absolutamente nada.
Apenas a brancura alva e a ave negra
A corroer por dentro a alma do poeta.
E a dúvida.

E a inesperada lágrima – sal e água –
Que tomba agora sobre a tela...

E alastra. E se derrama sobre a brancura.
E penetra imaculada na vibração
Da alma. Agora água...

E ergue-se tímida. E solfeja
A cor em que se derrama. E se desenha.
E o Espaço-Tempo. E o voo da ave. E o murmúrio
Em que se despenha...

E os olhos são agora apenas água.
Já não lágrima - cor a derramar-se
Como se vida fora.

E deste lado da paisagem
Onde nada acontece. Sal apenas - maremoto de alma.

Manuel Veiga






quinta-feira, maio 26, 2016

"NOTICIAS DE BABILÓNIA e Outras Metáforas" - FEIRA do LIVRO


ZANDINGA NO SEU MELHOR

Esta manhã (26.10.2007), inesperadamente, entrei em estado de choque. Receei pelo meu pobre coração. Mais grave ainda. Receie pelos meus genes, por quem tenho, elevada estima. O caso não é para menos, como compreenderão. Eu explico...

Fiquei a saber, através do “Diário de Notícias”, que “a espécie humana pode vir a subdividir-se em duas”. E melhor que La Palisse, acrescenta o jornal que “as duas subespécies vão dar origem a uma classe superior e a uma inferior”...

Os descendentes da classe superior serão “altos, magros, saudáveis, atraentes, inteligentes e criativos”, enquanto que os descendentes das classes inferiores serão baixos, feios e pouco inteligentes, “uma espécie de goblins” (não sei que raio seja, mas não é certamente coisa boa!). Fundamenta-se o jornal nas últimas descobertas do especialista em evolução(?) Oliver Curry, da London School of Economics...

Entrei em pânico, garanto-vos!.. O meu pânico assumiu foros de catástrofe ao saber que os homens – da classe superior está bem de ver – “vão ter feições mais simétricas, o queixo mais quadrado, a voz mais profunda e o pénis maior...”

Pénis maior, já viram! Querem maior castigo?!... A natureza é madrasta, sem dúvida. Não poderia, ao menos, o pénis ficar fora da distinção de classes?!...

Acalmei quando, em segunda leitura, percebi que o risco é apenas para daqui a cem mil anos e que a espécie humana vai atingir o pico de evolução no ano três mil. Pus-me então a fazer contas, a partir do homo sapiens e dos milhões de anos desde então e suspirei fundo... Afinal, talvez os meus genes ainda se safem e o meu neto – uma terna criança de escassos meses - não esteja condenado a ostentar as orelhas de um goblin...

Fiquei mais confortado quando soube que “vamos mastigar menos” (isto deve ser música aos ouvidos de Sócrates) e “ficaremos com os maxilares menos desenvolvidos e com os queixos mais pequenos”. Pudera!...

E foi já com bonomia que recebi a explicação de que “não podemos prever exactamente o que irá acontecer, mas podemos fazer previsões com base no conhecimento que temos...”. Era o que faltava que não pudéssemos fazer previsões. Não vos parece o máximo rigor científico?!...

Melhor apenas o Zandinga!... Ou o argumento do laureado James Watson, de que bastará reparar num empregado de café para se concluir que os negros não possuem a inteligência dos brancos...

Claro que tudo isto é de gargalhada. Mas não são inocentes estas novidades. Os “fazedores de opinião” batem sempre a mesma tecla, com novos métodos, seguindo a linha do tempo. E a roupagem científica dá sempre jeito...

As fantasiosas mutações genéticas poderão ocorrer apenas daqui a cem mil anos. Mas tão bombásticas revelações são ideologicamente produtivas no presente. Escutem o murmúrio subliminar – as desigualdades estão instaladas na matriz biológica da natureza e inscritas no ADN da Humanidade...

A espécie humana está assim fatalmente condenada a divisão em classes. Já não apenas classe sociais, historicamente superáveis, mas “subespécies vão dar origem a uma classe superior e a uma inferior”, predeterminadas pela natureza...

Perante tamanha fatalidade, cientificamente proclamada, porquê lutar contra as injustiças? A natureza é injusta, porquê então preocupar-nos?!... Não será melhor conformar-nos e adaptarmo-nos ao sistema? E sobreviver, pois claro! Salve-se quem puder...

Há, porém, aqui, um pormenor intrigante. Foi a London School of Economics – uma escola de economia política - a difundir semelhantes teorias sobre a evolução da espécie humana. Compreende-se. A ciência é coisa demasiado séria para ser deixada apenas aos cientistas...

Bem melhor seria, porém, que os “sacerdotes” do mercado e os gurus do liberalismo económico, em vez de especulações à distância de milhares de anos, tomassem consciência do eminente “beco sem saída” que o capitalismo, de que são oficiantes, está a empurrar a humanidade...

 Manuel Veiga

"NOTÍCIAS DE BABILÓNIA e Outras Metáforas" - pág. 85
Edição - Modocromia - Lisboa 2015 

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(Novas) NOTÍCIAS DE BABILÓNIA - I

Havia em Babilónia uma consigna – “O povo é quem mais ordena!...”
Que explodia como uma canção nas ruas. E na garganta dos babilónicos em momentos de euforia...

Hammurabi, o Grande Dissimulador, reveste-se da majestade do Direito e, mefistofélico, saboreando um subtil veneno, captura a consigna: “O Povo é quem mais ordena!..” – proclama, solene, do alto de sua vitória...

E um velho escriba de olhar cansado de tanto ver – “Depois da flor do Direito, a mão pesada da Ordem, se for o caso... Cautela, babilónicos – o Grande Dissimulador disse ao que vinha...”