segunda-feira, agosto 21, 2017

FRÉMITO DE VIDA


No dorso das coisas imperecíveis um frémito
Ligeira agitação como se invisíveis dedos
Profanassem sua quieta permanência...

Uma subtil ruptura tímida que oscila
Sem ser fenda nem passo. Ainda.
Apenas dança
A abrir-se
Em promessa
Contida.

E o palco. Aberto. Esquivo
Nesta espera
Entre a fria noite
E o claro dia...

A (re)fazer –se
Em frémito de vida.


Manuel Veiga


sexta-feira, agosto 18, 2017

FRAGMENTOS XLVII

(...)
Assim concluía o Alferes, sem que para tal fosse intimado, num tempo outro, ainda na flor dos dias, quando, balançando-se entre o voluntarismo romântico da deserção e a palavra venerada do “senhor Gomes”, o velho marinheiro, revolucionário e desterrado, “meteu na ordem” as suas verduras revolucionárias e lhe esfriou as veleidades de deserção e a empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha.

FRAGMENTOS XLVII

Pois é, Maria Adelaide, na acção dos homens, é muito curta a distância que separa a coragem da cobardia, a glória do vitupério, a celebridade do ostracismo, o amor do desamor, ou a vida da morte e muito estreita também a linha que separa os “deveres” que vinculam e os“ direitos”, que libertam e cada um colhe ou paga de tributo à sociedade, bem se sabendo que bastas vezes uma ligeira oscilação, um capricho cerzido sabe-se lá em que acaso, ou dimensão, para que, na consciência do homens, a “realidade”, seja lá isso o que for, fique de “pernas para o ar” e o que ontem era tido como verdade hoje não passe de harpejo de dúvida quando não mesmo reverso de graníticas certezas que nos aguentam inteiros e de pé. Por vezes uma aragem, uma leve agitação das asas de uma colorida borboleta é suficiente para que, no outro lado da Terra, se houver condições para tanto, pois também as coisas e os acontecimentos são eles e as suas circunstâncias, se desencadear violenta tempestade, como hoje em dia, no tempo real desta descosida narrativa, bem se sabe, face ao reino pletórico da física quântica e seus extraordinários efeitos e feitos, que aceleram o tempo e nos lançam em permanente regurgitar de “acontecimentos” que nos submergem e, onde tantas vezes, naufragamos, mergulhados na espuma dos dias.

Calo-te o gesto e a palavra, Maria Adelaide, pois que, depois de me zurzires com o epiteto de neo-realista serôdio, pretendo evitar-te a tentação fácil de vires agora acusar-me de devoto da “post modernidade” e de um certo “relativismo moral” em que todas as ideias e valores morais se equivalem, de tal forma que nada justificará que neles nos detenhamos mais que a breve avaliação do prazer que nos proporcionam, e nos lancemos assim, sem norte, a celebrar um “hedonismo” de pacotilha para consumo imediato, pronto a usar e a descartar. A verdade, porém, é que, Maria Adelaide, tanto na literatura, aquela que é de facto literatura e não enjeita a “responsabilidade”, palavra malquista, como na vida, existem veios profundos e seres fecundos que, se não determinam eles o tempo longo da narrativa literária ou o “devir” da história, lhe conferem, porém, o rosto e a inteligibilidade, uma espécie de esteio ou pedra angular que dão sentido à narrativa ou à expressão da vida, bem se sabendo que não é a singularidade das coisas que transforma, mas a raiz delas e a seiva de que se alimentam ou a matriz em que se inscrevem. Captar, pois, a dialéctica das coisas perante o meio em que se inscrevem ou a actuação dos homens em sociedade é ler os sinais da sua evolução e naquilo em que os homens se distinguem das coisas, também os sinais da sua emancipação, enquanto ser social, o mesmo será dizer, a consciência de si próprio e do mundo que os rodeia.

Não julgues pois o Alferes, Maria Adelaide, e a sua aparente pusilanimidade, face ao seu desígnio e empolgada ambição de se colocar no lugar certo da História, ao serviço da guerrilha, pois que, no processo de maturação das ideias, o auto conhecimento das limitações e contradições dos homens e a sua vontade de superação constituem a pedra de toque por onde se afere o carácter e a personalidade de cada um. Compreenderás, assim, por certo, quão fecunda terá sido, apesar de breve, a conversa do Alferes com o velho revolucionário, Senhor Gomes, marinheiro e desterrado, que, nos idos anos de 1936, provou o fogo dos deuses e perdeu e pagou, com seu corpo, nas prisões fascistas e, depois, com o degredo naquele “cú de Judas” que é a Tabanca, ele cujo crime foi a ousadia de, com outros camaradas de armas e ideais, pretender antecipar o tempo longo da História no sonho de uma Pátria livre e justa e, por ela se bater e perder, fazendo da Tabanca a sua Pátria, que outra não reconhecia, madrasta de seu Povo e fazedora de guerras contra os povos das colónias que oprimia.

Quem, pois, o insensato que insistiria em suas “verduras” revolucionárias e no “infantilismo voluntarista”, depois de conhecer a opinião autorizada do Senhor Gomes, forjada no terreno concreto da rebelião política e nos longos anos de degredo, em que pela firmeza de carácter e consistência de suas ideias, soube granjear o respeito de brancos e negros, e sua voz autorizada e sábia era procurada e seguida, quem porventura tão néscio que sobrepusesse, à razão e à sabedoria, os insipientes e imaturos passos de uma aventura inconsequente, que leituras apressadas e uma mente imaginativa e exacerbada alimentavam? Não por certo o Alferes, que bebera, com o leite materno, a veneração pelos velhos que, na falta de outras capacidades, sempre distribuíam bênçãos e bons conselhos.   

“A Revolução aqui em África é deles e tu se amas a Revolução terás tua oportunidade em Portugal” e a frase, assim dita, com olhar cortante do velho revolucionário a atravessar-lhe a alma, ficou gravada como consigna ao longo da vida do Alferes, jovem oficial miliciano do Exército Português, Adjunto do Comandante da Companhia por acaso de graduação militar e estudante de Direito em Coimbra por passada larga de seus pais, ”aprendendo, aprendendo, sempre” com os livros e as lições de vida, dele e dos outros e, assim, ficando a saber que há “um tempo para semear e um tempo para colher” e que a História dos homens, em seu perpétuo rumor, não é uma linha recta, mas nada trava o seu turbulento fluir.

Sei de teu enfado, Maria Adelaide, bem sabendo eu qual o universo que te motiva e as razões pelas quais pacientemente me escutas. Nesta luta corpo a corpo em que esta narrativa (sem sujeito) se despenha existem umas “velhas contas”, apenas nossas, a ajustar e tu espreitas o momento. Que chegará, Maria Adelaide, maduro que esteja o tempo desta escrita circular, em que tu és o “alfa e o ómega” e a pedra angular que a sustenta.

 Mas, entretanto, regressemos à Tabanca. Temos um General à espera. E não é de bom-tom fazer esperar um General, tens razão!


Manuel Veiga