quinta-feira, Setembro 18, 2014

NA MUTAÇÃO DAS HORAS...


Na mutação das horas pressente-se o alvoroço das aves
Nos mastros mais altos em prenúncio de cântico...

Caótica uma cor indecisa alastra desordenada
Sem forma que a prenda
Magma quente
E fio de água
Que se insinua
Na pedra
Tímida...

E o sobressalto
Como arco tenso
Ainda preso...

Ou fera
No agitar da presa
Apenas pressentida...

Sou guardião dessa memória - que não da gesta!...
Desses trilhos que se avolumam
Como sinais de fogo
Nas montanhas
Soprados
Pelo acaso...

E pelo inesperado dos ventos...

E que o coração dos homens
Guarda como sacrário
E estremece
Na persistência alada
Do sonho...

E se transforma em vida
No corpo enxague
Dos proscritos...

Manuel Veiga


terça-feira, Setembro 16, 2014

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LVIII


Existe em Babilónia um bonzo. Maior que o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Que se julga pai fundador do reino...

Retirado em suas mercês, emerge à superfície, quando a porcaria entra em ebulição e odor fétido se estende pela cidade...

Com o império do Espirito Santo derrubado e o vazadouro a escorrer a céu aberto, o bonzo garante que o anjo caído, qual Ricardo, Coração de Leão, flamejante e justiceiro, há-de um dia voltar...

E falar... - “E quando disser, as coisas vão ficar de outra maneira...”

Cuidem-se, então, os incautos...
..................................................................................................

E um velho publicitário, roído pela aguardente e o tabaco – “Que grande barrela! nem o Tide lava tão branco!...”


domingo, Setembro 14, 2014

METEÓRICAS CLARIDADES...


Esplêndido o relâmpago e voo das aves.
E o estertor do grito nos abismos do silêncio.
E as impolutas neves e os fundos vales.
E as máquinas modernistas celebradas em poema.
Meteóricas claridades!...

(E também o senhor Álvaro de Campos, engenheiro.)

Gloriosos são os tempos sem memória.
E o gesto puro que se esgota no “Nada que é Tudo”.
E a altivez das estrelas em seu gelo derramado
Na profusão de brilho sem mistério...

Dor “mater” dos medos
E pudor dos passos.

E a inútil espera das amoras antes de acontecerem.
E as palavras escavadas. E o fogo das rochas.
E a líquida emoção das horas
Suspensas nesse enredo...

Gloriosas são as águas no ventre das montanhas.
E a viagem dos barcos.

Soberbos os guindastes.
E o camartelo arrancando chispas nas margens.
Glorioso o pão e vinho. E as máquinas. Ainda.
E a opulência das estátuas. E a febre dos archotes
Rangendo fúrias...

(in)Úteis Odes Triunfais.
Minervas sem alma.
Gares e cais.
E Desertos.

Que não sendo certos, são toda gente
E em toda a parte
Embora!...

Manuel Veiga