terça-feira, agosto 23, 2016

segunda-feira, agosto 22, 2016

MEUS OLHOS SÃO MEUS PASSOS.


Meus olhos são meus passos. E meus portos.
Sede e água a percorrer o declive da tarde
E o fio deste azul tão breve que se derrama
Plangente como o zarpar do barco na distância muda
A acenar lonjuras e a prosseguir a rota sem mapas.
Nem bandeiras. Ou mestres a quem sirva.

Capitão de meus silêncios, administro amoras do tempo
Colhidas no alvoroço dos dias. E meus dedos
Esgravatam os sinais e as fissuras da condensação
Da rocha captando por vezes as vozes e os timbres
Na vibração das formas e nos percursos que existem
Na memória das coisas que entre si se acolhem
Qual pauta inscrita na música que entoam.

Secretos são os milagres que os deuses concedem.
Apenas a inocência lhes colhe a espuma.
Que não a barbárie. Nem a frívola dança das estrelas.
Nem os poetas, a procurarem salvar o mundo
Que o mundo não se salva. Apenas perdura.
E se transforma. E gloriosamente se reinventa...

Explodem os corpos nesta ilusão de sol
A crepitar na pele. E neles mergulho neste bailado
Que arrasta qual turbilhão de cores furtuitas e macias.
E nesta plangência de tons e gestos que entram
Pelos poros e consomem os dias em registo lúcido
De um poente altivo e um azul benigno e calmo.

Manuel Veiga

sábado, agosto 20, 2016

METÁFORAS E PALAVRAS EMBOSCADAS.


Sou um sujeito de palavras (e espero também que os meus amigos me tenham em conta como um homem de palavra.) Quero dizer que, desde que me conheço, as palavras têm sido meu alimento, não pelos livrinhos publicados, mas como ferramenta de trabalho no exercício de meu múnus profissional.
 
Algumas palavras, eu amo. Outras nem tanto. Outras, engasgo-me com elas. Mas julgo poder dizer, sem excessiva presunção, que a todas elas sei usar, com propriedade, no momento e nos locais certos.
 
E, confesso-vos, que ultimamente trago engasgada a palavra “metáfora”, tal é a profusão de metáforas, que empanturram nossas vidas. Mais de que uma moda, são uma autêntica praga! Não acreditam? Basta espreitar as “metáforas do consumo” (p. exemplo, as marcas, as embalagens, etc.)  ou alguns blogs (ditos literários) e teremos “metáforas” para todos os gostos, algumas das quais, embora emproadas, não passam intragáveis charadas.
 
Não imaginam, por exemplo, como depois da consagrada e certeira “Jangada de Pedra”, a “pedra” medrou no mundo das charadas, perdão das metáforas. Um verdadeiro filão. E quando digo pedra é pedra mesmo – não calhau! Calhau não tem dignidade de metáfora. Pode até, (no mundo das metáforas, está bom de ver) descobrir-se, no interior da pedra, “um coração ardente a palpitar” – mas calhau, nunca!...
 
Por isso, proponho-me daqui em diante, prestar mais atenção às “palavras emboscadas”, ou seja aquelas que verdadeiramente “determinam o sentido do discurso, sem porém o dizerem”. É que se as metáforas “reluzem”, as palavras emboscadas seduzem-(me).
 
Como se sabe o sentido metafórico, é sentido figurado, cujo efeito se extingue no momento em que a metáfora é lida. É uma espécie de embalagem reluzente que atrai a leitura, mas se deita fora, mal a mensagem “metafórica” seja decifrada.
 
As palavras emboscadas são “coisa” diferente. Não se exibem, actuam. Não proclamam, “decidem” a significação e o sentido. E até o contexto(s) de leitura. Estão presentes, mas não gritam. Podem até conviver com metáforas e usá-las e desventrá-las, mas “o seu reino é de outro mundo”- as palavras emboscadas fingem o que (não) são! E negam-se. Negam-se, sempre! Qual “poeta fingidor/ que finge tão completamente/ que até parece ser dor/ a dor que deveras sente...”
 
Ou se quiserem, de uma maneira mais prosaica, as palavras emboscadas fazem lembrar certas senhoras da sociedade, que garantem, juram e trejuram que nunca comem carne à Sexta-feira. E que, surpreendidas e engasgadas, com bife filet mignon, garantem, juram e trejuram que comer carne, à Sexta-feira, é outra coisa...
 
Claro que as palavras emboscadas são “perigosas”, porque seduzem e convencem. Talvez por isso são tão queridas da publicidade e da política (de alguns políticos, helás!, que muitos são tão básicos que, nem sequer sabem de metáforas). E na literatura também. São elas que revelam os escritores de talento. E definem as obras-primas.
 
O problema é que, as palavras emboscadas, como qualquer outro signo linguístico, se prestam ao engodo e à trapaça. E quando assim é a literatura não passa de uma farsa. Ou ainda mais grave, de mera agência de recados literários, ou outros.
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Garanto não existirem, neste texto, palavras emboscadas. Mas se descobrirem alguma, NEGO!
 
Manuel Veiga.