sábado, dezembro 16, 2017

PALAVRA EXACTA


Requer o poeta a palavra exacta.
Que agrida. E fira. E, arisca, acorde. E, danada,
Se bata. Na praça.

E no percurso se encandeie em qualquer pormenor
Ainda não dito. E tenha fogo.

E irrompa. E desfile – solene.
E grite. E clame…

E seja água – a palavra. E se atice.
E seja aldrabice. E ferva. Espuma quente
Que nada pode - mas teima.

Palavra que seja – palavra dada.
Palavra-ardente que em sua ardência
Se consome. Maculada.
E pura. E límpida.
E clara.

Que seja de cristal - a palavra!


Manuel Veiga

terça-feira, dezembro 12, 2017

BRANCURA LISA DO SILÊNCIO

O salgueiro, Lydia, entrega-se sem enfado
À aragem fria que vem do lago. E minhas mãos
Nas tuas são enredo que levo aos lábios
E bebo perfumadas num suspiro
De abandono.

Mergulhamos descuidados na superfície
Do tempo. E na brancura lisa do silêncio.
Nem uma ave, nem um pio magoado.
Apenas o arfar de teu peito
E a impudicícia dos seios
A arrolhar desejos
No aconchego
Macio.

E o horizonte é uma manta de retalhos
A colorir o céu de azul felino
E nevoeiro.

E meu olhar baço. Abracemo-nos, Lydia
Que este arrepio é ponto sem retorno
Expectante neste murmúrio
Da brisa sobre o rosto
Como voo planado
Do cisne branco
Sobre o lago.

Ou o grito-surdo
Dos passos sobre o gelo.

Manuel Veiga


Nota: Lydia é uma criação literária de Ricardo Reis