domingo, maio 27, 2018

AZUL SEM MÁCULA...


Neste marulhar de memórias, a planura
E o azul sem mácula no voo
Do milhafre…

Os olhos são redemoinho das coisas
Que cegam como lâminas. Poeira dos dias
No percurso dos passos
E profundos rios.

Austera, a sede
De mil anos.

Lonjura e calcários. E desfiladeiros
Na inocência dos dedos que se alongam
Na irrupção dos sonhos…

Tudo é matriz e espanto
Na vastidão. Ardente.
E água e brisa no corpo líquido dos afectos.
Sopro de elísios ventos
A clamar por dentro
O sobressalto
Das nascentes.

E a afagar impolutas dores
Febre de cansada ave
No apelo do sangue.
E o regresso.

E o voo planado
Em círculo. A descer.
Ileso.


Manuel Veiga



quinta-feira, maio 24, 2018

Mozart - A Flauta Mágica - Abertura

ANTÓNIO ARNAUT - "PEDRA-PALAVRA"...


 PEDRA-PALAVRA

"Trabalho a pedra bruta, afeiçoando,
Como vento penitente as impurezas
Que ferem a harmonia do universo.

E assim a transformo em pedra cúbica
A letra que falta na palavra
Perdida no silêncio das acácias.

Tomo outra pedra, outra ainda e construo
Pedra a pedra no seu lugar exacto,
O sonho antigo, ogiva-catedral.

Alguém decifrará esta mensagem
Como uma flor azul desabrochando
Sílaba a sílaba no mármore do Tempo."

António Arnaut (1936/2018)
In “RECOLHA POÉTICA” – Coimbra Editora

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ANTÓNIO ARNAUT desde jovem se envolveu na oposição ao Estado Novo. Participou na comissão da candidatura presidencial de Humberto Delgado, em Coimbra, em 1958. Foi arguido no processo resultante da carta dos católicos a António de Oliveira Salazar, em 1959. Foi candidato à Assembleia Nacional, pela Comissão Democrática Eleitoral, no círculo de Coimbra, nas eleições legislativas de 1969.

Militante da Acção Socialista Portuguesa desde 1965, foi co-fundador do Partido Socialista, em 1973, na cidade alemã de Bad Münstereifel, tendo sido seu dirigente até 1983.

Advogado, político, antifascista, poeta e Homem íntegro!