sexta-feira, julho 28, 2017

A Presença das Formigas - "Sátira a Leanor" do album "Ciclorama" (2011)

ROSA-MAIOR


Quero da rosa o perfume que nada
O nome me diz. Apenas flor a rimar
Com Cor? Com Dor? Sabe-se lá com que amores
Rima uma flor! Ou que espinho
Cravado. Ou que caule
Decepado! Rosa
Antes da flor…

Que sejam pois apenas as pétalas
E não a dor. E neste ardor
De poeta que seja a flor
Rosa dos dias e
Dos ventos
E não o brilho
Ou o nome.

E que assim a rosa
Seja. Perfume de rosa
Vermelha! Apenas.

Ou cruz de advento(s)
Rosa-maior.

Manuel Veiga

“Caligrafia Íntima” – POÉTICA Edições – pág. 68
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Anda por aí um tipo, que leva muito a sério o meu processo de envelhecimento – “que estou a envelhecer mal…”, diz ele.

Imaginem que leva agora o seu desvelo ao ponto de me receitar Viagra!

A coisa não mereceria mais que um ligeiro encolher de ombros, não fosse dar-se a circunstância de o solícito tipinho ter ido conspurcar o blog de uma amiga minha, prestigiada Poetisa, que muito admiro e respeito e que quis ter a gentileza de publicar um poema do meu último livro.

Eu bem incito o fulano a brilhar, ao menos uma vez na vida, e a bater publicamente num “velhinho” com a minha idade.  Mas o gajo, nada! – Encosta às tábuas e não há quem o arranque!

São assim os covardes – atiram a pedra e escondem a mão…

M. V.


quarta-feira, julho 26, 2017

REBELDIA DOS CARDOS


Transbordantes linhas que se afeiçoam
Na planura. E desenham o perfil das colinas
A derramarem-se no sol. Horizonte a arder
E o doirado quente da lonjura
A finar-se no corpo altivo
Da paisagem.

Ermitério e viagem. E eco de passos-dança
Movimento rasante a bordejar o voo das aves
E os longínquos sons
Ainda acesos.

E o borbulhar por dentro esta emoção
Alada: sou este terreiro.
E este feno.
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Sou esta ceifa
E esta vindima engalanada.

E sou este culto.
E este mergulho inesperado.
Sou este mosto. Sou este linho.
E sou a cúpula das igrejas.

Sou poeira rolante: poalha ardente
De meus passos.

E sou a rebeldia
Dos cardos.

Manuel Veiga