quarta-feira, julho 29, 2015

HUMANÍSSIMA DOR DE NOSSOS DIAS...


Busca o poeta a límpida palavra. A palavra
Não maculada ainda por sentidos espúrios.
Quer o poeta a Palavra inaugural a ferver nos lábios
Declinada no rosto dos proscritos.

E no corpo dos famintos...

“Por certo o Amor” – garantem então os “experts” da Alma.
“A Esperança, sem dúvida” – replicam celestiais hinos
E alegres paladinos de amanhãs festivos...

Mas o Amor - desde Pessoa que o sabemos! -
Quer-se quente. Porém, vende-se pelas esquinas
Como dobrada fria...

E a Esperança é palavra banida nas Chancelarias!

Seja então a palavra Dor, a dor libertadora.
A humaníssima Dor de nossos dias...


Manuel Veiga


segunda-feira, julho 27, 2015

FRAGMENTOS VIII - A LIA NO CENTRO DO PALCO.


Prossiga então a Farsa e convoquemos os leitores. É fazer vosso jogo, senhoras e senhores!... As barcas seguem seu curso e as águas seu destino. E nada, nem elogios, nem despeitos, nem presunções, nem indiferenças, nem encolher de ombros, nem finas ironias, nem feitiços encomendados, nem amores ocasionais, nem juras de eternidade, nem danças, nem bebedeira dos sentidos, nem biliosos sarcasmos ou ruas da amargura podem alterar o ciclo das vidas ardidas. Nem o rumo das barcas. E, no entanto, há cinzas que ardem como fogueira...

Vem, Lia! É a tua vez de saíres dos bastidores e ocupar o centro do palco, antes que o “Kamenino”, predador sem escrúpulos, surja dos escombros ou das labaredas do inferno e te devore, quer dizer, te “tire o cabaço”, agora que teus seios irrompem, nem sequer seios ainda, apenas promessa, como simulacro de “bajuda” guineense foras, acorrentada a atavismos culturais gentios e ao poder colonial, numa mistura bárbara de perversões, na qual a exploração sexual é, porventura, o lado mais obscuro e repulsivo.

Ainda é assim que te guardo, Lia. Nos teus impúberes seios, a despertarem emoções precoces, na escolha das brincadeiras infantis de forma a ficarmos juntos no círculo das outras crianças, na partilha das amêndoas e outras guloseimas do Padre Manuel, padrinho meu de baptismo e crisma e teu santo tio, de asa protectora estendida sobre a tua família, como se fora, não padre, mas “bonus pater famillia”, administrando a côngrua e os bens da Igreja e a sua numerosa prole, filhos dilectos, não dele que o homem era um santo sacerdote, nem da irmã solteira que lhe fazia o caldo, cerzia as meias e cuidava da batina, mas de uma sobrinha, que com ele trouxera nova, quando nomeado, por decreto do bispo, para a paróquia, longamente vaga, que em tempos fora domínio clerical de um padre republicano e depois despadrado.

Ali ficaste, Lia. Tuas irmãs mais velhas, sequestradas, não por filhos de lavrador que bem sabiam que aquelas mãos ociosas seriam inúteis nos rudes trabalhos, casadas, por isso, por quem de ali as levasse, guarda-republicano ou caixeiro-viajante, bem-falante, que no balcão da loja de teu pai, Zé Maria, apresentava a última moda de cotins e chitas, que haveriam, depois, corpos engalanados, ser festa de arromba no largo da praça e mais tarde, carne para canhão da guerra colonial em gestação, como outrora remo e vela de rotas desconhecidas foram, por “mares nunca dantes navegados”.

Mas tu, não. Ali permanecias, Lia, crescendo em graça e juvenis formas de mulher, flor sem vaso, nem altar, bordando a monotonia, como quem joga os dados da espera na bainha de um tempo sem saída. Os teus irmãos mais velhos enfileiram na emigração, autorizada por indispensável “carta de Chamada” para África e Brasil, que a grande vaga posterior de emigração a “salto” para a Europa ainda não chegara. Teu irmão mais novo, ainda assim subiu os degraus do Seminário, destinado a padre, como teu santo tio, de quem ostentava o nome.

Mas o Padre Manuel estava velho e cansado e os tempos eram negrume e miséria e o fim de vida martirizado por uma “ferida ruim”, que, dia para dia, lhe comia a garganta e que santo padre aceitava com resignação, que a vontade de Deus é insondável, e, do altar, o pus e o sangue expelidos da ferida e da dor cobriam então como bênçãos, em comunhão colectiva, a cabeça dos fiéis, tão arredios que lhe foram da missa e outras cerimónias litúrgicas, durante toda a vida e que, nos últimos tempos, lhe enchiam o templo.

O outro Manuel, não teu irmão seminarista, mas o Manuel de tuas brincadeiras infantis, que um dia, não muito distante ainda, soberaníssima, tu havias salvado das penas do Inverno, a que a Dona Elisa, surpreendida, em sua perene castidade, pela ousadia de teu vestido levantado e infantis coxas abertas, vos havia, a ambos, votado, esse teu Manuel ensaiava os primeiros voos de pássaro sem ninho, como estudante do Liceu, arrimado aos livros e à resiliência da família. De vez em quando, de regresso à aldeia, em férias, de ti sabia, numa persistência de afectos, cada vez mais fluidos, em razão do cruel desbaste do tempo e da avidez da memória.

O padre Manuel falecera da idade e da arrastada doença. Reconfortado em suas dores e seus pecados pelo desvelo rude dos seus paroquianos, que, como quem paga uma dívida, lhe enchiam a missa e a côngrua no término de vida. A sua morte, porém destapou a matriz dos acontecimentos por vir e acendeu teu Destino, Lia, e as marcas de teu percurso de vida, daí por diante.

A paróquia tinha agora novo pastor. O padre Francisco, rapaz bisonho, talvez 25 anos, a ensaiar o primeiro mergulho nas águas baptismais da vida, fora da clausura e das místicas leituras dos santos doutores da Igreja. O povo engalanou-se em festa para receber o novo padre, as velhas devotas a perscrutar sinais de santidade no seu rosto pálido, um ou outro, mais conservador, a torcer o nariz à idade, e o Fernandinho maluco, corpo de ferreiro das chacotas públicas, cujo dizer ou opinião em nada contavam, a rir sardónico e a cantarolar, “o fogo perto da estopa/vem o diabo e assopra”, quando finda a primeira missa, no adro, os paroquianos comentavam as primeiras impressões do novo pároco. Enfim, ninguém ligou ao comportamento do maluco, a que o povo estava habituado...

Finda a festa, a vida continuou como sempre fora, o Inverno depois do Outono e a Primavera, antes do Verão chegar, cumprindo os ritos e ritmos de um templo circular naquele espaço social-rural, onde tirante alguma zanga por uma qualquer razão frustre, ou tempestade ou incêndio nada acontecia digno de nota. A senhora Adélia, irmã solícita do falecido padre Manuel continuou a fazer o caldo e a cuidar da batina, agora do novel pároco Francisco e a casa paroquial a ser pasto e abrigo da ranchada de sobrinhos, agora, porém, com os mais velhos a fazer pela vida lá fora reduzida a ti própria, Lia e teu irmão Manuel, que com a morte do tio desistira do Seminário por falta de vocação, certamente, mas, sobretudo, presume-se, porque a côngrua, com os novos tempos eclesiásticos, deixara de pingar.

Assim, durante alguns anos. De ti e de tua família ia sabendo, nas descidas à aldeia. O Manuel, teu irmão “caçula”, com a equivalência no ensino oficial aos cinco anos de estudo no seminário, embarcou então para Angola, terra grande e farta, na esteira do irmão mais velho já instalado, onde irá conseguir emprego asseado num qualquer escritório. De ti, porém, pouco se via. Fechada, quase monja, eram raros os momentos em que te expunhas. Na missa ao Domingo, claro, e numa ou outra ocasião mais festiva, à porta da casa paroquial, ou atrás da janela, sem namoro, nem pretendente à vista, como seria de esperar de uma beleza explosiva que em ti amadurecia.

Do padre Francisco, a acentuar as cores macilentas e magreza do físico, dizia-se à boca pequena ter mau-olhado e outros, menos supersticiosos e mais dados à prática dos segredos da farmacologia campestre diagnosticavam a “tísica” e não faltavam mesmo os que buscavam nas ervas remédio para a “bicha-solitária”. A todos, o padre Francisco agradecia com um sorriso benigno e triste, “que estava bem, que com a graça de Deus e as orações fiéis qualquer achaque passageiro em breve seria sarado”. Apenas o Fernandinho maluco teimava em seu riso e na sua cantilena: “o fogo perto da estopa/vem o diabo e assopra”.

Um dia, no final de Verão, inesperadamente, o padre Francisco depois da homilia dominical, anunciou pública e solenemente que iria embora, que como bom pastor levava as suas ovelhas no coração, mas não regressaria. E partiu de mala aviada essa mesma tarde num carro ligeiro, que por caminhos de terra batida, entre solavancos, poeira e enjoos, o viera buscar. Com ele partias tu, também, Lia, grávida de alguns meses, levando no ventre o fruto sagrado da tua tentação e de teus amores pecaminosos. E da tua solidão...

Provaste o fruto proibido, irias agora morder o fel e o “suor do rosto” de teu pão...   

     

sábado, julho 25, 2015

A INOCÊNCIA DOS SENTIDOS


Somos inocência dos sentidos.
Carícia talvez em feminis corpos distendidos
Ou impossíveis dedos...

Ou o polissémico azul invertebrado
No dorso da onda a desmaiar
Em espuma breve...

Ou talvez ainda
O choro da criança a reclamar o seio
E o ubérrimo gesto de colhê-la...

Ou aquele velho sentado a remoer silêncios
Enxotando o moscardo e a salivar
Paladares perdidos...

Somos talvez planura de um tempo mítico -
Circulo fechado e nós no centro...

Ou talvez vertigem de sal e sol.
Apenas...

Manuel Veiga