quarta-feira, Novembro 26, 2014

SUBTIS INCANDESCÊNCIAS...


Sob a dominância dos escombros e dos dias gelados
Tacteiam os dedos a fina película dos muros
Em que a metamorfose da cal se desvanece
Como palavras gastas ou fomes caladas
Sem reverso...

Profusão de sombras por onde sobem nossas dores
Como larvas tecendo o casulo e a teia
Na amargura dos dias
E no degredo das paisagens.

Clarins sorvendo a alvura do silêncio
E sem mais restar que o sopro
E a inversão meteórica das vozes em polifónicos
Cânticos calcinados...

Nada sugere outra luz ou outra vibração
Que não seja o lusco-fusco e a palidez dos dias saturninos
Ou auroras de frio...

E no entanto o grito sufocado dos dedos
E os lábios gretados balbuciam inesperadas correntes
E águas soltas e margens extravasando percursos
Percorridos.

Subtis incandescências no topo das montanhas
Ou o delírio de pássaros talvez
A balancear o voo...


Manuel Veiga

segunda-feira, Novembro 24, 2014

NOTÍCIAS DE BABILÓNIA LXIII


Babilónia é uma selva. Onde predominam coiotes e outros animais menores...

Um dia apareceu um animal largo de promessas, que de si próprio dizia ser “um animal feroz”. E os babilónicos entregaram-lhe o poder...

Cedo, porém, verificaram que as promessas eram de submissão aos animais mais fortes da floresta, que estrangulam a cidade... Muitos o detestam, por isso...

Em gritaria a Praça, outrora tão solícita, hoje clama que a sua “ferocidade” não passaria de ganância. E em grande chinfrim os coiotes cercam o “animal feroz” - a quem invejam a presa...  
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E um velho leão, com a juba gasta e quase cego de tanto ver, indigna-se:

“Larguem o animal à sua sorte – e que a lei da floresta funcione! – Mas que os asnos (e os invejosos) não lhe atirem patadas...”


quinta-feira, Novembro 20, 2014