quarta-feira, dezembro 07, 2016

Poema em Contra-mão


Em cada instante um novo instante
Ponte suspensa de cada espera.
Aceno de braços de quem chama
E se confunde no eco e na margem
Em breve sorriso percorrida.

Em cada fala a mesma fala
Nos soletrados passos da demora
Que o regresso adiado se desforra
Como semente infectada de memória

Na contra-mão de cada passo
O mesmo passo. Quiçá o desembaraço.
Ou o engano que se guarda em brio
Como se colhe rebelde laço fugidio.

Manuel Veiga









segunda-feira, dezembro 05, 2016

"Este nosso Tempo - Semeemos!..."


Somos o sonho milenar das Pátrias e a Promessa
Que habita o sangue dos escravos e escalda
A mente dos poetas.

E em cada gesto nosso uma flor indecifrada
Que se levanta e se estende generosa
Prenhe de vontade
E gloriosa
Em seu jeito
De florir.

Nada além de cada Aurora
E os fios que nos atam
Frutos em espera
Como gomos
Em boca
Ávida.

Sabemos que o pão que amassamos
Nunca será mesa em nos que sentemos
E no entanto dizemos:
“Este é o nosso Tempo,
Semeemos”!

Manuel Veiga



sábado, dezembro 03, 2016

Da Metáfora do Mundo


Bem no alto, no topo mais alto de todos os topos
Onde todas as bandeiras se desenham e os ventos
Flutuam abrindo espaço aos hinos e as espadas
São o faiscante sol das batalhas e as gloriosas
Demandas de todos os destinos e os passos dos homens
O pulsar ainda magma das cidades futuras e os mares
São o sonho líquido das montanhas e as caravelas
Um punho fechado de utopias desertas. Nevoeiro
E visionário rasgo de profecias alvoroçadas
E as pátrias são iniciático gesto e o ombro de escravos
E os dias se contam por mistérios.

E a música é planície
Sem topo e infinito silêncio maturado de mil ecos
E respiração das estátuas.

E todas as coisas falam
Do seu destino na linguagem primordial dos afectos
E das recusas e se moldam qual partitura de uma sinfonia
Sem maestro. E as palavras e as coisas se incendeiam
No mesmo fogo. E se dizem numa geografia de territórios
Íntimos. Verso e reverso da mesma fala. Trama de luz
E sombra a desenhar os invisíveis fios da memória
E as brumas da História.

Então o poeta demiúrgico embora é aprendiz de feiticeiro
E o poema não mais que desmaiado reflexo
Da grande metáfora do Mundo.

Manuel Veiga