domingo, junho 26, 2016

POEMA QUASE-NADA....


Despenha-se o poeta no vórtice
Qual sarça onde a palavra nasce
E reina. E arde labareda
Feita carne. E lume.

E o olhar rodopia.
Cascata de fogo
E água.

Agora é chama. Que reclama.
E se evapora na distância.
E na ausência-presença
Que se cuida. E guarda.

Poema
Que sendo quase-nada
Se declina. E se proclama
Sinfonia.

Manuel Veiga



Resistencia - "A Noite"

sexta-feira, junho 24, 2016

A SÃOZINHA VOLTA A ATACAR ...


Certo dia, naquilo que foi o seu último “ataque”, a Sãozinha telefonou com quase quinze dias de antecedência. Do lado da linha, o Begin balbuciou : - “Mas Sãozinha, sei lá eu o que faço amanhã, quanto mais!”...

A Sãozinha cortou, célere: -“Arranja-te! Tens-me aí no dia tantos de tal!”.

Que pode um homem fazer face a tão peremptória intimação? “Arranjar-se”, como puder. A dar ordens, de facto, a Sãozinha não admite réplicas. E o Begin “arranjou-se”, portanto. E no dia aprazado, a Sãozinha aí estava extrovertida e ansiosa como nunca!- “Tenho que te contar, esta não podes perder!” – disparou, mal se dependurou, em beijinhos melosos, agarrada ao pescoço do Begin.

Que estranhou. As grandes “revelações” costumavam vir depois, já quando ela extinguira o fogo e os corpos pedem confidências. Mas desta vez não. Exigiu que o Begin se sentasse. - “Imagina tu, que o meu vestido de seda verde está todo estragado!”...

Vocês, sabiam? O Begin nem imaginava!... Mas não teve tempo para protestar. Nessa altura, a Sãozinha já ia em velocidade de cruzeiro. E, de uma fiada, estendeu o drama completo do vestido de seda verde: “que lhe custara bom dinheiro!...”

Afinal, o vestido da Sãozinha acarretou consequências políticas profundíssimas. Como sabemos, os grandes lances da história, definem-se em pequenos detalhes. Como o tamanho do nariz de Cleóptera, por exemplo. Tentarei explicar este verdadeiro drama histórico, na minha cidade natal, em que o vestido da Sãozinha foi ocasional instrumento.

Ora esguardai. O "status quo" político andava estrategicamente à procura de um verdadeiro líder da oposição, para quando no País a alternância chegasse, os interesses locais permanecerem os mesmos, como sempre. A escolha recaiu sobre um jovem professor do Politécnico, natural da cidade, com mestrado fresco numa dessa múltiplas engenharias, que por aí proliferam.

Filho de taverneiro, porém, haveria que lhe limar modos e maneiras. Tarefa a que a Sãozinha se prestou com devoção e empenho. E eis o drama: numa selecta recepção, com a Sãozinha a tiracolo, o novel iniciado, sustentáculo futuro dos pergaminhos da cidade e dos egrégios valores dos seus cidadãos, “tropeçou” no atavismo da sua condição de filho de taverneiro. Dum trago, emborcou o cálice de vinho fino, sacudindo para o lado as últimas gotas, como se um rural fosse na velha tasca, donde saíra. E, azar dos Távoras! ... – os restos expelidos do colorido líquido, extravasando as conveniências, apanharam em cheio o vestido da Sãozinha.

- “Aqui mesmo!” – elucida ela segurando o indicador direito do Begin a esfregar no seu empinado mamilo esquerdo – “Uma nódoa enorme!...”, alargando agora o gesto à macieza de todo o seio. -“Vê lá tu, aquele burgesso. E eu que depositava tantas esperanças nele” -  desabafa em lancinante suspiro

E num doce revirar de olhos, no mais perfeito “rosa rosae” de seus lábios: -“Ainda, se ao menos eu te tivesse lá, meu Príncipe!...”, - suspiro e desejo que o Begin  compreendeu como subtil convite a futuro líder da oposição local. -“Mas não tens, Sãozinha!... E se tivesses, terias que me fazer bispo!..” – desatou, terminante,  o Begin numa saborosíssima gargalhada.

A Sãozinha, porém, não se importa de perder com o Begin. E, entrando no jogo de subentendidos: -“Báculo já tu tens, meu depravado!..” - rematou ela, atirando-se ao fecho das calças e à braguilha do “coitado” do Begin, cada vez mais roído pela úlcera.

O dia estava quente. A Sãozinha banqueteou “son compère” com uma entrada de presunto e melão polvilhado de gelo moído e canela, seguida de uma salada de bacalhau. Essa mesmo, a que estão a pensar - : a célebre “punheta” de bacalhau.

“Uma especialidade - Sãozinha dixit – e é boa para quem anda fraquinho. Na próxima vez faço-te uma gemada...”

Uma gemada, imaginem. Que enjoo...