Nego-me à estética do Horrível. E ao tamanho
Do vírus. E à dimensão da Pandemia.
E à música de Wagner como se a cavalgada
Das Valquírias fosse enfeite a enquadrar o telejornal
Ou nauseabunda esteticização do Desastre
A celebrar o Espectáculo dos corpos esventrados
E as labaredas a lamber os impassíveis olhos
Não refeitos ainda da voragem do Pânico.
Nego-me ao microfone em riste a invadir as bocas
E a colher a baba das palavras. E a espremer
O pormenor da Lágrima. E a dobra da Agonia
Como se viver ou morrer fossem noção certeira
Perante a iminência da Morte.
Nego-me a doutas opiniões e ao grande Debate
E ao arroto da Sabedoria ao serviço da Ganância
A desenhar manobras e as invisíveis rotas
Do Lucro e a permanente encenação do Mesmo.
Nego-me ao leilão das alvas consciências
A pingarem gordurosas a beatitude da Banca
E a arrotarem sobre os altos muros
Da Instituição.
Nego-me aos faiscantes cibernantropos
A salivarem tweets e likes e o rabinho eletrónico
A dar a dar e a babarem-se sem sequer saberem
Que nada são ou dizem – apenas ridícula imitação
Dos Donos e a macaquearem os seus gestos
Nego-me à obscena exasperação dos lugares
E da Dor compulsiva. Que sendo também minha
É apenas Simulacro.
Palavra que não redime. Nem me salva.
E que, no entanto, teima –
Acre lucidez de cinza.