terça-feira, março 31, 2020

AMOR EM TEMPO DE QUARENTENA - Hard Core



Ele, depois de uns cálices de aguardente rasca, a ensaiar o “assalto”:

- “És a minha boneca insuflável, vem … quero-te! …”

Ela, a furtar-se ao beijo (e ao corpo):

- “Nunca mais me pões a pata em cima!…”

E desandou porta fora, jurando que se entregará ao primeiro “Coronavírus” que encontrar…

M.V.



segunda-feira, março 30, 2020

AMOR EM TEMPO DE QUARENTENA




Ela, amorosa, o corpo “a pedir chuva”:

- “Esta noite o Amor visitou-me.
Um rapagão alto e loiro, armado de arco e flecha todo ele a disparar sobre mim…”

Ele, cáustico, a limpar os óculos e carregando a ironia:

- “Que bom para ti, amorzinho!...
Mas tens a certeza de que não se trata de um “Caçador de Virus”?...

M.V.
…………………………………………

Divirtam-se!... Se forem capazes…



domingo, março 29, 2020

Poema Adágio


Por gentileza de 
TERESA ALMEIDA SUBTIL
e
JORGE NUNO

Dois Amigos Poetas que muito admiro
e de quem sou grato

Bem Hajam!

sexta-feira, março 27, 2020

O TEMPO É ESTA ESPERA ...


Desprendem-se as palavras
Como frutos em púberes mãos
E delas colhemos
Licores. E essências.
E sorvemos
A passagem
Das horas.

O tempo é esta espera
E a vida suspensa
E a macia pele
E a memória
Em combustão
A desenhar
A avidez
Dos corpos.

E a metamorfose
Dos dias perecíveis.

Manuel Veiga



domingo, março 22, 2020

ADÁGIO ...


Desnudam-se as pétalas
Uma a uma. E derrama-se a cor
Nua. Indefinição ainda
Que alastra

Agora sinfónica. Cor e vida.

E se abre. Esplêndida
A corola.

Murmúrio de sol
A bordejar
O mel

E a erguer-se
Colmeia. E flor …

E poema.


Manuel Veiga



quinta-feira, março 19, 2020

FAVO DE TEU NOME...


Amoráveis os dias, Lydia, assim colhidos
Como pétalas em teu regaço. E o lago de teus olhos
Onde moram os barcos e aportam
Todas as viagens.

Deixemos, Lydia, que o tempo se faça solstício
E do momento guardemos a doce espera
E o favo de teu nome. E desfolhemos
Os dedos numa carícia breve
Como se fora a brisa
 Sobre a pele

E louvemos os deuses
Que embora néscios sobre nós descem
Na amargura das horas e no cântico
Festivo da tarde…


Manuel Veiga

Lydia é uma criação literária de Ricardo Reis

terça-feira, março 17, 2020

RUMOR ÍNTIMO...


Arrasta o canto itinerários de água
Caligrafia oculta que os gestos percorrem
Em fervor dos dias. E se desenham no rosto inconformado
Da hora. Solstícios passados embora e o calcário
E a sombra a articularem a matriz.
Estalactites de sangue a irromperem
Como raízes abandonadas. Fio apenas
A crescer nos dedos e a dar forma
À subtil condensação que se ergue
Na rota do peito onde desagua – canto ainda.

E em rebeldia se desnuda.

Litania agora. E sobressalto e mágoa
A tatuar sinais e a exorcizar o tempo
Escasso. Ponto de redenção e fuga –
Sopro e voo. E grão na voz a subir
Na garganta. E a marca de água
Em que o poeta se inaugura.

Grão de fogo.
E rumor íntimo.

Manuel Veiga





segunda-feira, março 16, 2020

DA (não) EXISTÊNCIA DE BRUXAS...





PERO QUE LAS HAY ... HAY !

Mas negarão sempre!...
Quais senhoras virtuosas e senhores bem postos
Apanhados com a boca na botija ...

(Ou a comerem carne à Sexta-feira
Em tempo de Quaresma...)

Cuidem-se, se puderem!

Beijos e Abraços


sábado, março 14, 2020

O OCEANO É ALVOROÇO...


Passeio-me nas ondas de teu corpo
E o oceano é alvoroço.
E naufrago. E me entrego
E em ti desembarco
E percorro. Poro
A poro…

E em ti me espraio
Em murmúrios
De limos
E te nomeio
Em sinfonia
De corpos…

Gozos líquidos.


Manuel Veiga


sexta-feira, março 13, 2020

ECOS PERDIDOS ...


Nada. Nem passos, nem gestos
Apenas o tempo côncavo
E o latir da tarde
Em abandono.

E esta litania
A esvanecer-se…

Ecos perdidos de um festim
E o absurdo canto
A dedilhar-se febril
Na flor dos dedos
Sobre a pele.


Manuel Veiga


quarta-feira, março 11, 2020

LUZ E SOMBRA ...


Na oceânica convulsão dos deuses, onde
Eros e Tanatos se confrontam. Em Servidão.
E desiguais armas…

No absoluto magma onde Luz e Sombra
Se fundem. E se confundem.

E oníricas formas se buscam
E se desenham os sinais e se atam os fios do Todo
Inominado ainda. E o Tempo é Sobressalto
Ruído surdo de Solidão e Vácuo.

Nesse lugar em que todas as finitudes são
Luminescências e Acaso - Vida e Morte que se anunciam.
E o Desejo se franqueia e se faz Corpo.
E o Absurdo se nomeia
Como Mito.

E a Palavra se anuncia.
Obscura. Ainda.

Na luminosa Improbabilidade em que erguemos
As colunas. E as aras. E as vestes.
E, trôpegos, deciframos os nomes
E separamos as coisas.

Soletramos também o Nada. E mergulhamos
Na Tragédia. E na Euforia. E no Prazer frustre.
E decaímos. E nos idolatramos. Divinos.
Fogo e Água. Traficantes. Heróis  
E mártires.

E receptáculo dos deuses.
Por onde assoma o suor.
E a eterna Espera.

E a Mágoa.

Manuel Veiga

(Poema editado)




segunda-feira, março 09, 2020

ANO 2074 - Dia Internacional da Mulher



- “Celebramos?”

- “Teus olhos abrasam
Teu corpo incendeia …”

- “Sim, sei…
Celebramos? O Dia da Mulher
Celebramos?... ”

- “Se tu (me) queres
Ofereço-te uma flor
E o meu amor…”


Manuel Veiga
Lisboa 2074

sábado, março 07, 2020

DULCÍSSIMA ...


Na indeterminação dos ácidos
Brevíssima fissura
E a fêmea…

Micro milionésima
E tanto basta
Para seres
Mulher

Agora divina
Dulcíssima
Criatura
Criada…

Por teus passos
Erguida.


Manuel Veiga





quinta-feira, março 05, 2020

MAGNÂNIMO O PÃO DOS POBRES...


Magnânimo seja o freixo e sua sombra
E os braços erguidos
Em oração muda.

Magnânima a margem das ribeiras
E as cascatas no silêncio das montanhas.

Magnânimas as pontes que não deslassam
E as pedras que ficam pelo caminho.

Magnânimo o toque das igrejas e os altares
No olhar compassivo dos incréus.

Magnânimo o voo das aves e a vertigem

Magnânima a Lua e as noites de Agosto
E a bebedeira dos sentidos
Assim colhidos.

Magnânimo seja o ar que respiramos
E o pão dos pobres.

E a sede de todos os proscritos.

Magnânimas as almas piedosas e o perdão
Na forca dos condenados.
E na dor dos vencidos.

Magnânimo o dia de ontem
E a gravidez do tempo no coração dos homens.

Magnânimo seja o final da tarde
E o piar do mocho. E rouco cântico do poeta
Em sua humanidade…


Manuel Veiga




quarta-feira, março 04, 2020

LUMINESCÊNCIA(S)

1.
Desliza a manhã fora do tempo
Nem sequer movimento
Desliza simplesmente
E o poeta dentro.

2.
Flui a palavra no silêncio
Mutismo de alma
Na orla do vento.

3.
Implode a tarde
E o poeta se diz e se desdiz
Intermitência de ser

4.
Mansamente a hora que passa.
Luminescência(s).


Manuel Veiga



~

domingo, março 01, 2020

ACRE LUCIDEZ DE CINZA...


Nego-me à estética do Horrível. E ao tamanho
Do vírus. E à dimensão da Pandemia.

E à música de Wagner como se a cavalgada
Das Valquírias fosse enfeite a enquadrar o telejornal
Ou nauseabunda esteticização do Desastre
A celebrar o Espectáculo dos corpos esventrados
E as labaredas a lamber os impassíveis olhos
Não refeitos ainda da voragem do Pânico.

Nego-me ao microfone em riste a invadir as bocas
E a colher a baba das palavras. E a espremer
O pormenor da Lágrima. E a dobra da Agonia
Como se viver ou morrer fossem noção certeira
Perante a iminência da Morte.

Nego-me a doutas opiniões e ao grande Debate
E ao arroto da Sabedoria ao serviço da Ganância
A desenhar manobras e as invisíveis rotas
Do Lucro e a permanente encenação do Mesmo.
                                                                      
Nego-me ao leilão das alvas consciências
A pingarem gordurosas a beatitude da Banca
E a arrotarem sobre os altos muros
Da Instituição.

Nego-me aos faiscantes cibernantropos
A salivarem tweets e likes e o rabinho eletrónico
A dar a dar e a babarem-se sem sequer saberem
Que nada são ou dizem – apenas ridícula imitação
Dos Donos e a macaquearem os seus gestos

Nego-me à obscena exasperação dos lugares
E da Dor compulsiva. Que sendo também minha
É apenas Simulacro.

Palavra que não redime. Nem me salva.
E que, no entanto, teima –
Acre lucidez de cinza.

Manuel Veiga



PERTÉRIT0 IMPERFEITO

No roteiro de teus passos e no fervor Dos laços me entardeço. E me derramo E me desfaço. E (bem) te digo Seda fina e xaile antigo Debruado n...