sábado, fevereiro 29, 2020

PERFIL DOS DIAS - Prémio Prof. Adriano Moreira - Fotos





Da Criação do Mundo...

Desprende-se o poema. Brevíssimo sopro.
Ou colisão ínfima que se agita. Inesperada.
Absurdo silêncio do Mundo.

Murmúrio de sarça. Arde. Inflamadas cores                 
Sobre a Árvore do Tempo. Ou toda a vida
No sopro do instante – meteórica luz divina...

Desprende-se o poema. Sem resguardo.
E nessa agitação volátil um breve prenúncio.
E o rosto invisível das coisas a rasgar
A finíssima placenta.

Que a Palavra então seja criatura
A aguentar o peso e as dores do Universo.
E testemunho vivo do humaníssimo

Gesto da Criação do Mundo.

Manuel Veiga

PERFIL DOS DIAS - pág. 88
Edição - Modocromia - Colecção "A Água e A Sede"
Lisboa Maio 2019

sexta-feira, fevereiro 28, 2020

FECUNDAS SERÃO AS RAÍZES...


Fecundas serão as raízes no coração dos homens
Onde a delicada flor se incendeia
E as bocas ardem na busca milenar
Dos dias solares...

E da justiça. E o gesto puro de colhê-la …

Antes, porém, ainda o cântico da terra revolvida.
E o sangue e a dor.
E mil abris desfeitos.

E os inflamados ventres da fome.

E o grito das flores decepadas pelo caule
E os dias ardidos. E o voo quebrado das asas
E dos homens.

E todas as estradas de Damasco
E a aridez de todos desertos.

A vertigem dos sons virá, porém, atroar os ares
Trombetas precursoras da grande catástrofe
Onde se desempenhem os deuses
E todos os heróis de outrora
E a luz e as trevas.

E os negrumes e as sedes de agora.

E toda a História será vã.
E todos os símbolos.

Fecundas serão então as raízes.
E a Pátria dos homens. E ardente o coração
Das trevas. Resgatadas.


Manuel Veiga

terça-feira, fevereiro 25, 2020

FALA MUDA ...


No território da palavra
Onde todas as confluências se espraiam
E por vezes despontam amistosas
Cores. E sedutoras paisagens.

Nesse universo de sílabas seminuas.
E transumância de afectos
Onde a língua se desata
E molda os sons
E antecipa todos
Os nomes

Palato e bocas a derramarem-se
Excessivas. E as formas em cascata
A inaugurarem o corpo. Lago ou rio
Na profusão das águas.

Nesse abismo de caudalosos ritos
E vertigens. Pauta em que te invento
Música atonal. E avidez
Do murmúrio

E todas coisas se erguem
Fala muda. E hino
Que em ti digo


Manuel Veiga

sábado, fevereiro 22, 2020

Mesmo Não Sendo ...


Tudo na vida é perecível, Lydia.
E nós com ela. Repara que até o voo do milhafre
Se entardece.

Deixemos, pois, que a tarde tombe
E serenos que noite seja. E o amanhã
Amanheça sol. Ou que seja nevoeiro ou sombra.

Nem por isso deixarei
De sentir a suavidade de teu cabelo
Em minha face.

Nem de sorver o beijo
Que guardamos. Nem os ecos.

Colhamos o perfume, Lydia. Apenas.
E amaciemos o fervor (e o furor)
E não desejemos mais
Do que a vida quer…

E estejas onde estejas, ambos seremos
Mesmo não sendo…


Manuel Veiga

Nota: Lydia é uma criação literária de Ricardo Reis




sexta-feira, fevereiro 21, 2020

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI - Take 23


Acalmadas que foram as inquietações de saber como se escreve um romance, acreditava, agora, Manuel Maria que, em qualquer mister, ou obra, ou desígnio, ou tarefa, ou rota, ou viagem, ou caminho são sempre os passos dos homens que estabelecem as metas e percorrem as distâncias, que é como quem diz ergue-se a espada e a espada faz-se, anotação pessoana insistentemente glosada, ou bengala literária a que lança mão, em cada curva mais apertada da escrita, balsa salvadora de que se serve um náufrago, nas ondas encapeladas de uma escrita que, sem conta, nem medida, temerariamente, se deseja literária.

Assim, agora, neste tempo da narrativa, em que Manuel Maria, por interposto escrevente, se agita num emaranhado de fios e teias, incúria sua e desabusada pretensão de erguer-se como escritor e pretender demonstrar que há mais vida para além dos desenhos e do traçado de cérceas e que seria capaz de encenar a vida, a sua e a dos outros, num rasgo de eloquentes palavras, bem melhor do que desenhava edifícios.

Pagava, no entanto, bem caro a ousadia e, por diversas vezes, estivera próximo de desistir de escrever. Contudo, nesses momentos de capitulação, mais que o amor próprio ou a frustração da desistência, quem o amarrava à sua servidão e o obrigava a prosseguir era Flávia, que entrou na sua vida sem dar conta, quase miragem e paixão mansa, que lhe absorve a lucidez, como se fora ópio que envenena o sangue e domina a vontade e se rejeita, mas a ele se regressa, sucessivamente, cada vez mais dominado.

E, nesses momentos fraqueza e desistência, Manuel Maria entra em profundo abatimento, de que apenas se liberta depois de exorcizados todos os anjos e demónios e todos os percalços da sua vida, num mergulho reparador em águas matriciais, de onde depois emerge, mais lúcido e determinado. E regressa, então, à escrita, com mais fulgor que nunca, revisitando as personagens e veios que percorrem a narrativa, sem outra lógica ou plano que não seja a empatia entre as palavras e a consistência da trama que, pouco a pouco, se organizam, qual laborioso insecto a segregar e a tecer os fios do seu casulo, para depois, em metamorfose festiva, se libertar em esplendor. E, nesta oculta razão da escrita, mistério da palavra a construir o sentido das coisas e a erguer-se como narrativa, então a abrasiva Flávia ocupa todo o território da emoção e Manuel Maria, no turbilhão do seu processo criativo, exorciza a doentia paixão pela jovem devolvendo-a ao corpo da escrita e ao palco da narrativa, ficcionando, num discurso desatinado, a sua existência e o ardor de seus passos.

Bebo-te, Flávia, na babugem dos dias e superfície de mim. Vens e partes, como onda fosse teu corpo e meu desejo brisa. Barcos e proas na dimensão infinita de cada momento de espera. Voo migrante de regresso incerto. Desta imponderação me alimento. Como se o sangue das horas estivesse suspenso e o teu nome fosse a chama brusca ateada em lugares secretos. Caprichosa em seu destino. Liberta de todas as contingências. Como aurora feita água. E deserto minha alma.

Tomo-te assim. Rascunho de todas as letras. Tenho a mesa posta. Saciarei tua fome de gazela. Ou de loba. Serei teu manto na noite fria. Meus beijos subirão ao holocausto de todas as desesperanças. Por amor de ti, serei pasto, fuga ou corrente. Alimentarei todas as orfandades. Meu sexo será leilão. Meus olhos caveiras. Por amor de ti, secarei todos rios. Tocarei o infinito dos céus e todos os infernos serão minha morada.

Calo-me em fantasia de condenado. Quero cálice até a última gota. E o veneno. E a glória redentora de nada ceder em meu tormento. Podia imaginar-te nua. Podia escrever-te poemas ou cartas de amor azuis. Podia esquecer-te, ouviste? Mas não quero. Escuta bem, não quero! Quero-te meu “cântico negro”, pois que minha glória é também “criar desumanidade”. E negar teu corpo E tu saberes …

E então talvez o gesto apaziguador da fêmea. Talvez teu seio. Talvez a linha exposta de tuas coxas nuas. Talvez a flor azul em teus cabelos. Talvez o tudo e o nada. Talvez o mistério aceso. Ou o interdito a desvendar o rosto e a aguçar o esporão do Desejo.

E, pouco a pouco, na medida em que seu fervor íntimo e o eco das palavras se esbate no cérebro, horas, dias, semanas, gradualmente, Manuel Maria regressa à vida e ao ritmo da escrita, que bem o sabemos, agora, a serpentear as veredas da infância e a narrar-se, criança ainda, não mais de cinco anos, entre duas mulheres que o amam, a misturar seu choro às lágrimas de outras crianças e à imperecível visão de um homem de joelhos e suas longas mãos erguidas perante outro homem, a pedir perdão, mas perdão de quê, meu Deus, se apenas reclama justiça? visão terrífica que ainda hoje o persegue, entregue a si próprio e às dores de sua escrita, jamais o bálsamo de duas mulheres, que o protegiam e o amavam, como se filho de ambas fosse e lhe cobriram os olhos para lhe poupar a dor e a ignomínia, bem sabendo, agora, que as lágrimas, que duas mulheres que o amavam lhe quiseram evitar,  mais não eram que o eco de outras lágrimas, a deslizarem no rosto de uma outra criança, descalça e andrajosa, mal chegada a adolescência, que em sua raiva e impotência, se negou a ajoelhar na vergonha do pai e, em sua insuportável dor, virou costas e correu montes e vales, dias e noites, meses e anos, para nunca mais voltar.

E ali estavam ambos, agora, expurgadas as lágrimas, essas e outras, pois que vida é um vale de lágrimas assim a dizem livros santos e piedosas jaculatórias, ali estavam, pois, ambos, lado a lado, José Augusto Esquerdino e Manuel Maria crianças que foram, nessa aldeia ignorada, algures em Terras do Demo, filhos espúrios da Casa Grande e de seus cânones de poder arbitrário, Manuel Maria, em breve, descartado, como aluno interno numa Instituição Religiosa, em Lisboa, que para acolher crianças descartáveis e para lavar ou esconder as vergonhas das famílias ilustres, tais instituições são criadas, onde, mais tarde, na adolescência, as longas conversas com um Padre Operário, o ajudaram a mitigar os ardores religiosos e o triunfo do Céu e o iniciaram nos humanos desígnios da solidariedade terrena e José Augusto Esquerdino a fazer-se à vida, servente de pedreiro, marçano, bate-chapas, serralheiro, mecânico, subindo toda a escatologia de ofícios e práticas, matéria e ferramenta de si próprio, na luta pela sobrevivência, que, nas margens da cidade e da vida, se foi construindo, na fecunda luta comum, com outros homens, que, como ele, nada têm a perder, a não ser o valor supremo da sua dignidade e assim, totalmente disponíveis e empenhados, na luta pela liberdade e no fim da exploração do homem pelo homem.

E ali estavam agora, os dois, José Augusto Esquerdino e Manuel Maria, bastardos ambos, na medida de cada um, da Casa Grande e de seus cânones de poder arbitrário, ali estavam, no mesmo lado da vida, a percorrem um grande Município da Área Metropolitana, no fulgor da Revolução de 25 de Abril, cabouqueiros ambos do Poder Local Democrático, José Augusto, recém-eleito Presidente da Comissão Administrativa, por “braço no ar”, em grandes plenários da população e Manuel Maria, novel arquitecto, genuinamente, a acreditar numa Arquitectura para o Povo e que teremos apenas “Liberdade a sério, quando houver, a Paz, o Pão, a Habitação, Saúde e Educação (…) e pertencer ao Povo o que o Povo produzir”, como, então, uma bela canção em voga, empolgava a vontade de transformação da vida e os desígnios revolucionários.

E nesses tempos, prenhes de futuro, Flávia seria apenas promessa inesperada, filha de amores espúrios, que mais tarde iriam consumar-se.

Manuel Veiga

quarta-feira, fevereiro 19, 2020

ASA EM FRÉMITO DE VOO...


Nada! Apenas o frémito desatado
Os poros dilatados
E a maciez
Da pele …

E a asa. Em alvoroço
De voo.

E esta morrinha cálida
A tricotar carícias
E memórias…

E do outro lado do poema
A buliçosa abelha
A antecipar o mel…

E a gloriosa flor
Abrindo-se
Ao Sol …

Manuel Veiga




domingo, fevereiro 16, 2020

A ASA AO SOL ...



Nada! Apenas o desatar de laços
E os ecos tombando no lajedo…

E o tropeçar nos próprios passos…

E deste lado do poema
O dia claro – e a asa ao sol
E os rios que correm, porque têm de correr…

E no, entanto,
Esta morrinha a tricotar distâncias
E o verso curvo.

E a alma ausente…


Manuel Veiga



sábado, fevereiro 15, 2020

50º Aniversário da CNSPP - Sessão Comemorativa -Lisboa

Adicionar legenda

Realizou-se hoje, dia 15 de Fevereiro (Sábado), pelas 15 horas, no Auditório da Escola Secundária Camões, em Lisboa, um espectáculo comemorativo do 50º Aniversário da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.

A Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP) foi uma organização de extrema relevância de intervenção cívica na defesa jurídica e no apoio social e político de todos aqueles que afrontaram corajosamente a ditadura fascista.

É de enaltecer o papel ímpar da  CNSPP e dos que nela intervieram no apoio moral, material e jurídico aos presos políticos e às suas famílias sob a vigência da ditadura fascista, tal como a divulgação de informação, o contacto institucional com as estruturas do Estado fascista, e as grandes campanhas nacionais e internacionais de denúncia e solidariedade para com a situação dos presos políticos portugueses.

Na sua acção mais vasta, a CNSPP proporcionou aos filhos dos presos políticos a realização de colónias de férias e uma constante informação transmitida através de circulares que com regularidade faziam o ponto da situação relativamente à situação dos presos e suas famílias.

Integrou esta Comissão, desde a primeira hora, a Poeta Sofia de Mello Brynner Andersen, entre outras individualidades de grande prestígio, advogados, médicos, professores, escritores, artistas plásticos, etc.


 Bom-dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço... apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.

Vómito insuportável de ironia
Bom-dia, por que bom-dia?

Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom-dia lá fora
porque lá fora é que é dia!

Luís Veiga Leitão - 1912/1987

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

POEMA ABERTO....


Abre-se o momento na grafia do rosto
E liberta-se em busca de uma forma
Outra que o diga sem mácula
E o colha em orvalhadas
Manhãs em esplendor
De corpos nus…

Ou no declive da tarde
A entardecer-se. Dolente …

O tempo é sem circunstância.
Flui apenas na vibração cálida
E no percurso dos olhos. Fonemas
Que arrebatam. E desenham
Na pele acetinada o registo
Das salivas. E o caminho
Das línguas em capricho
De flores, pétala a pétala
Derramadas.

Digo-te então repasto
Que inebria e sílaba a sílaba
Deglutido. Na suavidade dos gestos
E na composição horizontal
Dos mostos a fervilhar
Numa canção antiga
E numa escrita nova
De que és sacerdotisa

E culto.

E poema. Aberto…


Manuel Veiga




quarta-feira, fevereiro 12, 2020

"POEMAS MORAIS" 1 - Sombras e Disfarces...(Esclarecimento)



1.
Sombras são reverso
Buraco negro onde
Em verdade nada
Acontece.

Apenas bailado
De espectros
E diurnos
Detritos…

E, por vezes, ranger
De atritos …

2.
Não há arte no disfarce
Estratagema
Apenas.

E a sombra a rodopiar
Reflexo de luz
Em que a teia
Se enleia...


Manuel Veiga





Esclarecimento Necessário.

O título "Poemas Morais" evoca uma série de seis(?) filmes, "Contos Morais",  que Éric Rohmer escreveu e realizou na década de 60 do século xx, Assim,

quem viu, viu...
quem leu, leu...
quem viu ou leu e percebeu
mas não entendeu...

fica assim, como está e é seu direito...

M. V.

segunda-feira, fevereiro 10, 2020

FACE ENCOBERTA DE UM POEMA ...


No cume mais alto da inóspita palavra
E desabridos ventos

No mais cálido despojamento dos passos
E percursos íntimos

Lugar de altivez e gélidas fronteiras
Onde se aventuram apenas asas de condor
E amáveis gestos ...

Na gloriosa solidão dos guerreiros
Ante o campo de despojos – e seu remorso.
E nas batalhas perdidas
E nas horas bastas
Sem destino
Nem gloria

E na bravura dos arados
E no perfume dos mostos
E nos olhos rasos

Solto a emoção breve
E soletro o nome

E desdizendo-me me digo
Face encoberta de um poema
Em que me devolvo
Inteiro...

Manuel Veiga



sexta-feira, fevereiro 07, 2020

GRUTAS ABRUPTAS

Acendem-se brisas
E amanhecem potros.
Pradarias
Nuas  

Grutas. Abruptas
Veredas líquidas.
E línguas.
E as bocas.

Crepitam os corpos.
E o ciclo inaugural
Dos dias….

Manuel Veiga



quinta-feira, fevereiro 06, 2020

OUTRA GLÓRIA BUSCA O FOGO


Um dia talvez germinem rosas
E as palavras sejam. Aquelas que o momento
Requer. E de tão puras se desfolhem
Pelas ruas.

E sejam eco.
E cristal

Tombado agora sobre a mesa
E o vinho azedo.

Marginal a vida
Que outra glória busca o fogo.
Mais que arder
Alimentar
O cântico

E o sinal de todas
As passagens …

Manuel Veiga


 

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

Escrita Maior Do Mundo



Derrama-se a palavra 
Leve fissura apenas. Milimétrica.
Na estrutura de que é feita.

Tensão da espera
A corroer por dentro
Sem plano
Ou guia...

Apenas o deslizar de água
Sobre a pedra. Alquimia do verso
E o incauto morfema...

E a inquietação do poeta
A engendrar as cores
Do poema.

E a dissolver a água
E a pedra nas dores
E alegrias da hora.

E na escrita maior
Do Mundo!...

Manuel Veiga


sábado, fevereiro 01, 2020

Sâo Os Deuses Da Poesia


São os deuses da poesia indiscretos
Mais que outros sem resguardo. Nem véu
Que lhes quebre o capricho 
De se oferecerem!...

Apenas a criança cega e a flecha
Recolhem os favores em que o poeta
Se engana. E celebra a beleza
Perfumada.

E o gesto puro. E a entrega.
Fruto cobiçado. E boca
Generosa...

Manuel Veiga


PERTÉRIT0 IMPERFEITO

No roteiro de teus passos e no fervor Dos laços me entardeço. E me derramo E me desfaço. E (bem) te digo Seda fina e xaile antigo Debruado n...