quinta-feira, dezembro 31, 2020

Que Esta Cesura Se Apague ...


Que meu corpo vingança (te) seja

Ou máscara florentina

Ou pedra arremessada.

 

Ou dança e a contradança

Da mentira…

 

E minha boca seja o fogo

Que rasure na pele toda a palavra

Inscrita. E interdita. E te devolva

A ventura e a virtude.

 

E que esta cesura se apague

E seja verso e o reverso. E o meu canto

Seja. A plantar-te nua.

 

Em cada esquina

Da cidade. E a proclamar-te

Insígnia.  Vestal e pura!

 

Manuel Veiga

quarta-feira, dezembro 30, 2020

ASSIM O VENTO SE SOLTE...


Para o António,

meu neto.


Talvez o momento seja voo de milhafre

Planando de encontro ao vento. Ou estultícia de poeta

A filtrar o Tempo. Pelos dedos.

 

Talvez seja vertigem. Ou os sentidos em cascata

A derramarem-se, como os braços do salgueiro.

Ou seja talvez moinho em canto d´água.

Ou a pedra de soleira...

 

Talvez o momento seja passagem das horas

E murmúrio de oração. Ou mulheres de negro

Embiocadas – epopeias de silêncios...

 

Talvez sejam as cálidas mãos dos homens.

Pousadas sobre a mesa e o pão repartido.

E a criança atónita espreitando o ritual

E o vinho nas gargantas ressequidas.

E o delírio da festa.

E as vãs colheitas.

 

Talvez os corredores da memória

Sejam espaço afadigado em estertor de ave.

Já sem ninho. E que teima no calor das penas...

 

Assim o vento se solte em novas profecias.

E todos os rostos em coro venham

Entoar bênçãos em teu nome,

António!

Manuel Veiga

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Compomissos assumidos com a Editora

obrigam-me a dedicar maior atenção aos próximos livros

(um livro de poesia e um romance),

que espero sejam publcados, com o fim da pandemia

Não me dispensarei da publicação regular, nem da leitura dos meus blogues de estimação

e farei "prova de vida", se for caso disso rss ...

M. V.

terça-feira, dezembro 22, 2020

UM SORRISO "FREAK"...

 

Gosto de pessoas. Por vezes próximas, respirando ao mesmo ritmo. Outras (quase sempre) apenas momentos, riscos de acaso, meteoritos intensos na solidão da cidade. Uma viagem de autocarro (ou de metro) é sempre uma revelação inesperada. Pequenos nada que nos perseguem (momentos, horas, dias?) e que exigem que os soltemos, de tão intensos…

Gosto de gente anónima. De seus rostos. Da linguagem subtil dos seus gestos. Do seu porte. Do pulsar do meu Povo!…

Por vezes, a cor desânimo, toma o sangue. O cepticismo cria raízes e uma ironia triste ocupa o espaço da esperança. Porém, do meio da multidão, surgem tantas vezes, sem nos darmos conta, uma imagem, o resto de uma carícia, uma ternura, uma beleza inesperada que humanizam e reconfortam. Que nem sempre estamos disponíveis para ver e que, outras vezes, guardamos como refrigério de alma…

Falo-vos de uma viagem de autocarro entre o Rossio e o Cais de Sodré. Na curta distância, cenas dignas de um pintor impressionista – o melhor e o pior de um Povo concentrado no escasso espaço de um autocarro, à hora de ponta. Nada que seja diferente de outras viagens.

Até que…

Uma jovem mãe, de rosto trigueiro e olhar apaziguado, entrou, aconchegando no colo uma criança de escassos meses. Sozinha, face às intempéries e aos balanços da vida, ali bem simbolizados nos apertos e balanços do autocarro. Um jovem, de brinco na orelha e crista de galo loira, cede-lhe o lugar (no meu íntimo, um sorriso freak!)

Acomodou-se a “minha” jovem Madalena (era, certamente, este o seu nome!) com o bebé nos braços, sereno que nem um anjo. E alheia a tudo que não fosse a sua novel maternidade, a jovem soltou o seio da blusa (mármore puro) e a boca da criança, em esplendor, buscou afoita o mamilo, assim exposto em dádiva …

Um inesperado silêncio no interior do autocarro.

Vi então olhares brilhantes nos rostos cansados dos transeuntes. Vi ternuras caladas e embebecidos sorrisos. Vi orações pagãs em cada sorriso!…

E, numa emoção cálida, em época natalícia, a minha alma ateia, entoou, então, um cântico de vida – “Glória in excelsis Deo!…

Manuel Veiga

Seara Nova – nº 1749

                                     

 FELIZ NATAL ! ...



sábado, dezembro 19, 2020

PICTOGRAMA(s) - 3

 

Um dia o vértice.

E a vertigem será

Vórtice …

 

E o poeta será poema –

Caligrafia – abecedário

De murmúrios

E inscrições

Na pele nua.

 

Flor ainda.

Um dia – o favo

E o mel…

 

E os dias. Solstícios …

 

Manuel Veiga




terça-feira, dezembro 15, 2020

PICTOGRAMA(s) - 2


Persiste a flor na vertigem

E alaga-se em bebedeira de cor

A miragem – já não flor – incisão

Gramatical

 

A reinventar o léxico.

E a desenhar o bailado. E o assédio.

Desordem que arde

Sob o sol a pique

Que o besoiro

Colhe…

 

E o poeta finge.

 

Manuel Veiga




quinta-feira, dezembro 10, 2020

PICTOGRAMA(s)

 

Flor rupestre

Alcandorada na vertigem

A irromper da rocha

Festiva.

 

Incisão alada a desprender-se

Indelével movimento

Sobre a pedra

Nua – a flor

E a brisa.

 

Cópula de sol

A rodopiar. Em redor

Abrupta glória

Quase chama –

Raiz e Ilha.

 

 Manuel Veiga



sexta-feira, dezembro 04, 2020

AO ENCONTRO DE PENÉLOPE

 

Generosos são os deuses que tecem filigranas

No corpo da noite

Sempre ali estiveram as ilhas.

Meus olhos é que tardaram

Nessa bebedeira do sonho...

 

O voo é esta reclinação do tempo.

Desprendo-me de mim. E mergulho no magma.

Como outrora a cobiça dos impérios

Criava tempestades...

 

Pepitas luminosas no colar de Athena

As ilhas sempre ali foram. Homens e impérios

As profanaram no impudor da guerra.

 

E no delírio das vitórias.

Gargantas bárbaras por onde escorre vinho

Generoso. Subtil veneno que entorpece

Como lento remoer da insubmissa espera...

 

Sou herdeiro desta miragem. Da infinita doçura

Que sara os golpes. E da mão que vinga.

E do apolíneo gesto que rasga a pedra.

E do bronze da história que clama.

E que reclama. E dos hercúleos pilares

Que sustêm a Europa. Néscia.

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Regresso agora. Ítaca reinventada.

Pátria-minha. Ferida aberta...

 

Manuel Veiga

 

domingo, novembro 29, 2020

DEPURAÇÕES ...


Fragmentação dos rostos

E todos os nomes. E advento de todas as vigílias.

E todas as demoras. E todas as sedes e

 

Todas as litanias.  Veredas encobertas

E itinerário de mostos –

Sublime ardência de néctares

A fermentar

A depuração

Dos gestos.


Liturgia dos corpos

E incisão de salivas –

Colapso de todas

As memórias

 

Manuel Veiga

 

quarta-feira, novembro 25, 2020

CHUVA MIUDINHA ...


Gosto da chuva, sim. Chuva-chuva.

Chuva molhada. Chuva benigna

E entrar em nós. E na terra

Como húmus. E raiz.

E, por vezes, mágoa…

 

Gosto da chuva, sim. Chuva excessiva

A galgar as margens. E a dizer-se

Lezíria e lago. Ou cachoeira.

 

Gosto da chuva, sim. Chuva festiva

A tamborilar canções. Como dedos

Na janela. E o bater de corações

Em desalinho dos lençóis.

 

Gosto, sim. De teu corpo-lume

A pedir chuva miudinha.

E a fazer negaça.

E a desdizer-se

Em graça –

Fogo e água

Divina...


Manuel Veiga




sábado, novembro 21, 2020

UM LUME INSUBMISSO ...


Há neste tempo um prenúncio

Uma espera que germina

Uma fala inesperada...

 

Um murmúrio, uma corrente.

Há um rio que se advinha.

Um rosto. Um desatino

Uma ferida que sangra

E uma sede desatada...

 

Há um sopro em cada esquina.

Uma promessa. Uma viola.

Uma canção que se afina.

Uma passagem. Uma senha

E uma luta pegada.

 

Há um poema sem rima.

Uma viagem. Uma flor. Uma arma.

Uma fronteira vencida.

Há um vento que se anuncia

E uma dor aziaga...


Há um barco que se levanta.

E há uma ousadia sonhada...


Há um lume insubmisso.

Um hino. Um punho. Uma bandeira

E esta paixão magoada ...

 

Manuel Veiga

(Poema Editado)




segunda-feira, novembro 16, 2020

"L´ IMPORTANT C´EST LA ROSE..."

 

Que a rosa reine. E a Palavra seja! …

E de tão puras se desfolhem

Pelas ruas.

 

E sejam cristal

E eco. E glorioso

O fogo

 

A iluminar o cântico.

E a arder-se – sinal e signo –

E frémito de todas

As passagens.


L´important, c´est la rose…”

 

Manuel Veiga



sexta-feira, novembro 13, 2020

ABSTRACTA MELODIA

 

O poema é pura forma

Abstracta melodia

Delírio de cor

A derramar-se

Na tela nua

 

Em verdade

O poema está noutro lado

Límpido cristal

A macular-se

Vermelho-vivo

 

E a inaugurar-se

Mel e favo…

 

Manuel Veiga




terça-feira, novembro 10, 2020

Percurso De Pétalas...

 

Vem assim vestida de silêncios. E mistérios.

E percurso de pétalas. Nos dedos.

A desatar o cântico

Dos corpos...

 

Vem assim brisa. A soletrar primícias

E verbenas. E audácias

E a libertar as bocas

Pregoeiras ...

 

Vem assim flor despudorada

A abrir-se em cor vermelha

E a profanar sedas e linhos...

 

Vem assim. Gota de vida

Em teus lábios...

 

Manuel Veiga



sábado, novembro 07, 2020

VERSO E REVERSO...

 

Na majestade das catedrais

Digo-te cúpula. E lua.

Altar. E devoção

Muda.

 

Inocência pagã dos corpos

Urgência.

 

E cópula solar

A escorregar na pele

Nua.

 

Manuel Veiga

 

quinta-feira, novembro 05, 2020

A CARTA QUE NUNCA TE ESCREVEREI - Take 29

 

Manuel Maria é obra do Espírito Santo, (que a heresia seja perdoada) e foi salvo de um destino negro pela vontade determinada da Machorra, como a Camilinha era conhecida, por toda a parte, muitas léguas em redor, fosse em casa rica ou em casebre, porque assim a nomeara  seu marido, o Senhor da Casa Grande, Federico Amásio, que não lhe reconhece qualquer outro nome que não seja a aviltante alcunha e assim exige a serviçais e amigos e a todos aqueles em que, de uma forma ou outra, o seu mando se faça sentir.

Carregava, assim, a Camilinha, com resignação, o ferrete da alcunha, mais um enxovalho do marido, desde a fatídica noite de núpcias, que determinou a vida da jovem esposa, como se, numa inesperada conjunção de forças cósmicas, os acontecimentos daquela noite constituíssem momento alfa de uma nova configuração do Destino, ou a funesta inauguração de uma nova trilha para seus passos.

Vinda de sul para norte, ao arrepio das águas, para desposar o Senhor da Casa Grande, logo amputada, em sua feminilidade, pela boçalidade cruel do noivo, que os vapores do álcool transformaram, célere, em tresloucada violência e, na realidade, provocaram nela, filha mimada e esmerada educação, profunda aversão ao marido e ao casamento, em que tantas esperanças depositara.

De facto, o casamento fora acordado entre as duas nobres famílias e,  assim Deus o permitisse, deveria ter salvo o nome dos Malafaya e, nesse desígnio de salvação de sua família, piamente acreditava a Camilinha, filha obediente, disposta, como estava, a selar, com seu corpo, o acordo nupcial e a conceber filho de varão e, assim, fundir as duas fidalgas famílias na mesma cepa nobiliárquica, com vantagens mútuas para ambas as Casas – o Senhor da Casa Grande, a aumentar o seu prestígio e influência social e o velho Malafaya, com a corda na garganta, a “jogar” na solução para os seus apertos financeiros.

Para sua desdita e sua vergonha, porém, o corpo de Camilinha fechou-se e passou a Machorra. Sem filho que a salvasse, nem pai que lhe valesse.

Não fora, porém, aquela noite, que de amor e encantamento devera  ter sido, mas que foi palco de celerada bestialidade e violência, uma abjeção que se colou ao corpo e à alma da Camilinha, um asco que a fechou numa frigidez de semi-virgem, castrada, incapacitada de gerar filho, filho de seu asco e de seu ódio que, em desespero, fosse, porém, filho por si parido que a redimisse do fracasso da sua feminilidade e a sarasse, ferida aberta, na infertilidade e na denegação de si mesma, filha extremosa e temente a Deus e orgulhosa representante da fidalga estirpe dos Malafaya, não fora,  pois, o bofetão que lhe incendiou o rosto e fez sangrar a boca e a alma, não fora aquele insulto soez vais dobrar a proa, grande puta, e a saber como elas mordem, não fora aquela violência derramada sobre o leito nupcial, que deveria ter sido de pétalas e carícias perfumadas, não fora o frustrante desastre daquela noite e aquele casamento mal amado, vindo do sul para norte, ao arrepio das águas, não foram as águas nefastas, ou não fora o destino escrito nos astros em maré de má sorte, ou não fora aquela horribilis noite arbítrio de escrita, ou mera ordenação da narrativa, a exigir também que, na viagem nupcial, de sul para norte, rumo a Terras do Demo, subisse, a graciosíssima Violante, que, desde tenra infância, aparava as tropelias e humores da fidalga e, agora, neste tempo narrado, dama de companhia da senhora da Casa Grande, Dona Camila Simone, apenas Camilinha, ou a Machorra, conforme os leitores (se leitores houver) escolherem, não conforme a sua arbitrária vontade, pois que os leitores nada podem quanto ao evoluir desta escrita,  que se diz literária, mas tão somente, poderá, cada leitor, entender, conforme a sua pessoal inclinação, pois, bem se sabe, cada um de nós traz, no seu próprio olhar, as cores com que pinta o Mundo e não foram as crepitosas carnes de Violante, ali chegada, à Casa Grande, como peça do enxoval, montada, de pernas abertas, qual fogosa amazona e, para seu proveito ou perdição – vá lá saber-se! não fora a Violante um tanto estouvada, coitada, mas julgue-a quem poder, pois as tentações são muitas e carne é fraca, não fora a vida uma constante subversão da “ordem estabelecida” em prol da “ordem natural das coisas” e não foram as carnes de Violante – benza-a Deus – desassossegadas e esquecer-se das suas obrigações e do seu lugar naquele asfixiante microcosmo da Casa Grande e, pela calada, ter cobiçado o lugar da legítima esposa de seu amo, sem resistência, que se visse, ou palavra que o negasse, se ter prestado a ocupar o leito conjugal que, pela lei de Deus e a lei dos homens, à sua ama e senhora, Dona Camila Simone de Bernardette e Malafaya, pertencia, e não fora a profunda e dorida aversão da Camilinha a seu marido, a sua funesta infertilidade e a sua solidão e seu desamparo, sem pai que lhe valesse, nem irmão que a vingasse, e não fora também esta afronta e a dor felina da traição de Violante, sua amiga, companheira e confidente, não fora a Camilinha, a doce e indefesa Camilinha, uma fidalga dotada dessa fidalguia natural  que algumas pessoas, bafejadas com esse dom, transportam e as leva a enfrentarem todas as ferozes determinações sociais e seus poderosos vínculos e a transfigurarem-se e a superarem-se em actos de grandeza, nos momentos de maior prostração e infelicidade,  não fora, portanto, a generosa piedade da Camilinha, ungida pela lei de Deus e pela lei dos homens Senhora da Casa Grande, a perdoar a grave ofensa e traição da Violante de crepitosas carnes, amiga e confidente que outra irmã a Camilinha não tivera, não fora a crueldade e arrogância de Federico Amásio, senhor todo-poderoso daqueles domínios, aquela cabra pensa que me enrola? Olho da rua com ela! Que vá parir o “cachorro" p´ra puta que a pariu! Que isto aqui não coito de vadias e não fora a firmeza da Machorra que enfrentou a ira e boçalidade do marido com coragem e se insurgiu e proclamou, em fala de grande dignidade se a rapariga e a criança forem expulsos desta casa ou eu própria sairei com eles e, da fraqueza, fazendo força ameaçou que faria escândalo, que iria ao Governo Civil, que iria ao Bispo, que iria a Lisboa, que iria ao Papa, que se necessário iria a casa do Diabo, mas toda a gente ficaria a saber quem era o pai da criança e de que espécie de homem é Federico Amásio … e não fora esta escrita redonda, que se quer literária, a compazer-se no trote, "como alazão em picadeiro" outra seria a estória, aqui narrada.

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Como bem se sabe, quando Deus tapa, o Diabo destapa, mas quando Deus e o Diabo estão do mesmo lado têm muita força e, de tal jeito foi veemente a evocação da Camilinha e tão pungente a sua dor, que os dois Senhores do Universo e mandantes de todos os Acasos e Probabilidades e Mestres de Oxum e Divindades Afins (saravah, Maria Bethânia, Senhora de minhas devoções) se apiedaram e, em cimeira de alto nível, traçaram o destino do nascituro, que a crepitosa Violante, un petit peu écervelé , por obra e graça do Espírito Santo, gerava em seu ventre, amén, ditando para a acta, que as duas mulheres, a serva e a senhora, deveriam, por igual, amar aquela criança e, logo ali lhe balizaram o caminho e a consagraram para o Mundo, com o  nome Manuel Maria.


Manuel Veiga

 

terça-feira, novembro 03, 2020

MORRER DE AMOR - Maria Teresa Horta

 

Morrer de amor

ao pé da tua boca

 

Desfalecer

à pele

do teu sorriso

 

Sufocar

de prazer

com o teu corpo

 

Trocar tudo por ti

se for preciso

 

Maria Teresa Horta - in “Destino”


sábado, outubro 31, 2020

E Os Corpos Se Redimem...


Visto-te de palavras. Dúcteis.

Daquelas que derramadas sobre a pele

Se incendeiam. Balsâmicas.

As salivas

 

Escorrem pelos lábios labaredas

E se derretem na boca e descem

Líquidas. As palavras.

Bem ao fundo.

Cântico

 

E gargantas.

A gemer murmúrios

 

Tão livres. As palavras

Ardem. E os corpos se redimem

Brasa acesa.

 

Manuel Veiga




quinta-feira, outubro 29, 2020

PENÉLOPE...


Mais do que um sonho: comoção!

Sinto-me tonto, enternecido,

quando, de noite, as minhas mãos

são o teu único vestido.


E recompões com essa veste,

que eu, sem saber, tinha tecido,

todo o pudor que desfizeste

como uma teia sem sentido;

todo o pudor que desfizeste

a meu pedido.


Mas nesse manto que desfias,

e que depois voltas a pôr,

eu reconheço os melhores dias

do nosso amor.

 

David Mourão Ferreira

1927 / 1996




terça-feira, outubro 27, 2020

SEARA NOVA - CENTENÁRIO - MEDALHA COMEMORATIVA





 

A revista Seara Nova, prestes a celebrar o seu 100.º aniversário, está a preparar uma série de iniciativas que serão divulgadas ao longo dos próximos meses. De entre essas iniciativas destaca-se a edição de uma Medalha Comemorativa, que tem a prestimosa colaboração do seu autor, o escultor João Duarte, professor aposentado da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, galardoado com vários prémios nacionais e internacionais.

𝐃𝐞𝐬𝐜𝐫𝐢çã𝐨 𝐝𝐚 𝐌𝐞𝐝𝐚𝐥𝐡𝐚:

Dimensões 90 x 84 mm. Em aço inox, de cor prata, com rebordo em acrílico vermelho. No Anverso tem gravado o logo do Centenário. No Reverso tem gravado o lema do Centenário «Seara Nova – 100 anos de Acção e Pensamento Crítico». Elemento móvel, em aço inox oxidado, gravado a preto, de um lado com uma caneta de aparo e do outro lado com uma espiga.

𝐏𝐫é-𝐯𝐞𝐧𝐝𝐚 𝐚𝐭é 𝟑𝟏 𝐝𝐞 𝐃𝐞𝐳𝐞𝐦𝐛𝐫𝐨 𝐝𝐞 𝟐𝟎𝟐𝟎𝟒𝟓,𝟎𝟎

A partir de 1 de Janeiro de 2021 – 50,00€

O pagamento pode ser feito por cheque ou por transferência bancária para:

• BPI – PT50.0010.0000.1982.5620.0018.8

• CGD – PT50.0035.0100.0001.6294.6302.0

Deverão ser enviados os pedidos de aquisição, acompanhados, com os  elementos de identificação (Nome, Morada e Contacto Telefónico) e comprovativo de pagamento para

searanova@searanova.publ.pt

ou para Rua Latino Coelho, n.º 6 – 1.º Esquerdo Frente

1050-136 Lisboa

 

sábado, outubro 24, 2020

SERENAS ÁGUAS ...


Desprendem-se no donaire primaveris

Cascatas. Que o outono acolhe

E matizadas cores.

 

São os olhos pomares. E veredas

Debruadas. E o amável gesto

De colhê-las. Maturadas

E bocas sôfregas…

 

E o movimento líquido de fluírem.

Assim libertas. E os corpos.

Serenas águas!...

 

Manuel Veiga




PERTÉRIT0 IMPERFEITO

No roteiro de teus passos e no fervor Dos laços me entardeço. E me derramo E me desfaço. E (bem) te digo Seda fina e xaile antigo Debruado n...