Manuel Maria é obra do Espírito Santo, (que a heresia seja perdoada) e foi salvo de um destino negro pela vontade determinada
da Machorra, como a Camilinha
era conhecida, por toda a parte, muitas léguas em
redor, fosse em casa rica ou em casebre, porque assim a nomeara seu marido, o Senhor
da Casa Grande, Federico Amásio, que
não lhe reconhece qualquer outro nome que não seja a aviltante alcunha e
assim exige a serviçais e amigos e a todos aqueles em que, de uma forma ou
outra, o seu mando se faça sentir.
Carregava,
assim, a Camilinha, com resignação, o ferrete da alcunha, mais um
enxovalho do marido, desde a fatídica noite de núpcias, que determinou a vida da
jovem esposa, como se, numa inesperada conjunção de forças cósmicas, os
acontecimentos daquela noite constituíssem momento alfa
de uma nova configuração do Destino, ou a funesta inauguração de uma nova trilha
para seus passos.
Vinda
de sul para norte, ao arrepio das águas, para desposar o Senhor da Casa Grande, logo amputada, em sua feminilidade, pela boçalidade
cruel do noivo, que os vapores do álcool transformaram, célere, em tresloucada
violência e, na realidade, provocaram nela,
filha mimada e esmerada educação, profunda aversão ao
marido e ao casamento, em que tantas esperanças depositara.
De facto,
o casamento fora acordado entre as duas nobres famílias e, assim Deus o permitisse, deveria ter salvo o
nome dos Malafaya e, nesse desígnio de salvação de sua família, piamente
acreditava a Camilinha, filha obediente, disposta, como estava, a selar,
com seu corpo, o acordo nupcial e a
conceber filho de varão e, assim, fundir as duas fidalgas famílias na mesma
cepa nobiliárquica, com vantagens mútuas para ambas as Casas – o Senhor da Casa Grande, a aumentar o seu prestígio e influência social e o
velho Malafaya, com a corda na garganta, a “jogar” na
solução para os seus apertos financeiros.
Para
sua desdita e sua vergonha, porém, o corpo de Camilinha fechou-se e passou a Machorra. Sem filho que a salvasse, nem pai que lhe valesse.
Não
fora, porém, aquela noite, que de amor e encantamento devera ter sido, mas que foi palco de celerada bestialidade
e violência, uma abjeção que se colou ao corpo e à alma da Camilinha,
um asco que a fechou numa frigidez de semi-virgem, castrada, incapacitada de
gerar filho, filho de seu asco e de seu ódio que, em desespero, fosse, porém, filho
por si parido que a redimisse do fracasso da sua feminilidade e a sarasse, ferida
aberta, na infertilidade e na denegação de si mesma,
filha extremosa e temente a Deus e orgulhosa representante da fidalga estirpe
dos Malafaya,
não fora,
pois, o bofetão que lhe
incendiou o rosto e fez sangrar a boca e a alma, não fora aquele insulto soez vais dobrar a proa, grande puta, e a saber
como elas mordem, não fora aquela
violência derramada sobre o leito nupcial, que deveria ter sido de pétalas e
carícias perfumadas, não fora o frustrante desastre daquela noite e aquele
casamento mal amado, vindo do sul para norte, ao arrepio das águas, não foram as
águas nefastas, ou não fora o destino escrito nos astros em maré de má sorte,
ou não fora aquela horribilis noite arbítrio de escrita, ou mera ordenação da narrativa, a exigir também que, na viagem nupcial, de sul para
norte, rumo a Terras do
Demo, subisse, a graciosíssima Violante,
que, desde tenra infância, aparava as tropelias e humores da fidalga e, agora,
neste tempo narrado, dama de companhia da senhora
da Casa Grande, Dona Camila Simone,
apenas Camilinha, ou a Machorra, conforme os leitores (se leitores houver) escolherem,
não conforme a sua arbitrária vontade, pois que os leitores nada podem quanto ao evoluir desta escrita, que se
diz literária, mas tão somente, poderá, cada leitor, entender, conforme a sua pessoal
inclinação, pois, bem se sabe, cada um de nós traz, no seu próprio olhar, as
cores com que pinta o Mundo e não foram as crepitosas carnes de Violante, ali
chegada, à Casa Grande, como peça do enxoval, montada, de pernas abertas,
qual fogosa amazona e, para seu proveito ou perdição – vá lá saber-se! não fora
a Violante um tanto estouvada, coitada, mas julgue-a quem poder, pois as
tentações são muitas e carne é fraca, não fora a vida uma constante subversão
da “ordem estabelecida” em prol da “ordem
natural das coisas” e não foram as carnes
de Violante – benza-a Deus – desassossegadas e esquecer-se das suas
obrigações e do seu lugar naquele asfixiante microcosmo
da Casa
Grande e, pela calada, ter cobiçado o
lugar da legítima esposa de seu amo, sem resistência, que se visse, ou
palavra que o negasse, se ter prestado a ocupar o leito conjugal que, pela lei
de Deus e a lei dos homens, à sua ama e senhora, Dona
Camila Simone de Bernardette e Malafaya, pertencia,
e não fora a profunda e dorida aversão da
Camilinha a seu marido, a sua funesta infertilidade
e a sua solidão e seu desamparo, sem pai que lhe valesse, nem irmão que a
vingasse, e não fora também esta afronta e a dor felina da traição de Violante, sua amiga, companheira e confidente, não fora a Camilinha, a
doce e indefesa Camilinha,
uma fidalga dotada dessa fidalguia natural que algumas pessoas,
bafejadas com esse dom, transportam e as leva a enfrentarem todas as ferozes determinações sociais e seus poderosos vínculos e a
transfigurarem-se e a superarem-se em actos de grandeza, nos momentos de maior
prostração e infelicidade, não fora,
portanto, a generosa piedade da Camilinha,
ungida pela lei de Deus e pela lei dos homens Senhora da Casa Grande, a perdoar a grave ofensa e traição da Violante de
crepitosas carnes, amiga e confidente que outra irmã a Camilinha
não tivera, não fora a crueldade e arrogância de Federico Amásio, senhor
todo-poderoso daqueles domínios, aquela cabra
pensa que me enrola? Olho da rua com ela! Que vá parir o “cachorro" p´ra puta que
a pariu! Que isto aqui não coito de vadias e
não fora a firmeza da Machorra
que enfrentou a ira e boçalidade do marido com
coragem e se insurgiu e proclamou, em fala de grande dignidade se a rapariga e a criança forem expulsos desta
casa ou eu própria sairei com eles e, da
fraqueza, fazendo força ameaçou que faria escândalo, que iria ao Governo Civil, que iria ao Bispo,
que iria a Lisboa, que iria ao Papa, que se necessário iria a casa do Diabo,
mas toda a gente ficaria a saber quem era o pai da criança e de que espécie de
homem é Federico Amásio … e não fora esta escrita redonda, que se quer literária, a compazer-se no trote, "como alazão em picadeiro" e outra seria a estória, aqui
narrada.
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Como bem se sabe, quando Deus tapa, o Diabo destapa, mas quando Deus e o Diabo estão
do mesmo lado têm muita força e, de tal jeito foi veemente a evocação da Camilinha
e tão pungente a sua dor, que os dois Senhores
do Universo e mandantes de todos os
Acasos e Probabilidades e Mestres de
Oxum e Divindades Afins (saravah, Maria
Bethânia, Senhora de minhas devoções) se apiedaram e, em cimeira de alto nível,
traçaram o destino do nascituro, que a crepitosa Violante, un petit peu écervelé , por obra e
graça do Espírito Santo, gerava em seu ventre, amén,
ditando para a acta, que as duas mulheres, a serva e
a senhora, deveriam, por igual, amar aquela criança e, logo ali lhe balizaram o
caminho e a consagraram para o Mundo, com
o nome Manuel
Maria.
Manuel
Veiga